No conceito, as duas revistas são muito parecidas. Contém, em geral, quatro páginas para cada clube, sendo as duas primeiras com uma pequena matéria de apresentação do time e uma série de dados estatístico-históricos (alguns de interesse puramente enciclopédico) e as restantes reservadas para a apresentação dos jogadores, com foto, ficha técnica e participação em edições anteriores do torneio. Na segunda parte, um guia das equipes que disputarão a Série B.
O maior risco – admitido pelas duas publicações – de se editar um guia desse tipo é que o futebol brasileiro não trabalha com hora marcada. Os estaduais terminam com atraso (caso claro do Gaúcho e do Cearense), técnicos são demitidos desde as primeiras rodadas e, pior, o prazo para contratação de jogadores vai campeonato adentro. Para terem mais vendagem, as editoras tentam colocar suas revistas nas bancas o quanto antes. Como resultado, normalmente um guia chega ao leitor com defasagem de informação, sem jogadores que contratados em cima da hora e treinadores dispensados. Por exemplo, as duas revistas colocam os atualmente desempregados Mário Sérgio e Givanildo de Oliveira como técnicos de Atlético-PR e Fortaleza.
De fato, os dois guias se assemelham muito em virtudes e defeitos. Ambos priorizam dados técnicos nem sempre muito importantes, como a colocação do clube em cada uma das edições do Brasileiro ou o histórico de confrontos com cada equipe do torneio. Essas informações se limitam ao campo da curiosidade pura, pois não fazem muito sentido no futebol brasileiro, em que o retrospecto dos times é distorcido pelos regulamentos esdrúxulos adotados entre os 1971 e 1987 (além da Copa João Havelange em 2000). Sem contar que os Estaduais tornam a idéia de histórico de confrontos no nacional algo irrelevante, pois um gremista quer saber se bate o colorado em todos os tempos, não apenas em um torneio.
Enquanto isso, os textos ficam enfraquecidos. Com bons e maus momentos para cada, Lance e Placar ficam parelhos na média. A análise é rasa, se resumindo a dizer a expectativa básica do clube no campeonato e a apresentar o time, com os jogadores que ficaram, os que saíram e os que chegaram. Em geral, sempre com um “final feliz”, dando a sensação de que, por menos que o torcedor confie no time, pode ser que dê certo. Só em casos extremos, como Paraná e Corinthians, é que se passa uma mensagem de perigo.
Um item que, felizmente, ganha espaço nos guias é a descrição do esquema tático. Mesmo que feito de forma simplificada, é uma informação que se torna recorrente nos últimos anos. Muitos desenhos táticos têm prazo de validade, pois pode mudar assim que o treinador for demitido. Mas é algo importante. E, nesse ponto, o Lance está na frente. Além de mostrar a distribuição dos atletas em campo (coisa que a Placar também fez), o guia do jornal mostra dicas do comentarista Paulo Vinícius Coelho, apontando o ponto forte e o fraco de cada equipe. Essa análise também poderia ser feita com mais profundidade, mas satisfaz.
O Lance também vence em outros aspectos. Pelas dimensões do guia, o diário pôde colocar 24 jogadores com foto e ficha técnica por equipe, contra 18 da Placar. Para compensar, a revista abriu, em cada time, um espaço com dados resumidos do restante do elenco.
Outra diferença em favor do Lance é uma preocupação maior com o torcedor que vai ao estádio, algo raro na imprensa brasileira. O jornal apresenta o estádio de cada clube, com uma ficha resumida e cotação para gramado, segurança para as torcidas local e visitante e conforto. Além disso, abriu um espaço chamado “Guia do Torcedor”, em que informa o preço do ingresso, promoções para torcedores que vão ao estádio e programas de sócio-torcedor. Essa iniciativa merece todos os elogios e deve ser ampliada, com instruções sobre como chegar (transporte público, vias de acesso e estacionamento) e entrar (portões de visitantes e anfitriões) em cada estádio.
A Placar, por sua vez ganha na precisão estatística. Há uma seção dedicada exclusivamente a isso, com curiosidades e dados históricos. Alguns interessantes, outros, nem tanto. Mas isso cabe ao leitor julgar. De qualquer forma, denota uma preocupação maior da revista da editora Abril em abordar a curta história do torneio. O Lance o faz de forma meio torta. Para alguns clubes, ela dá mais duas páginas, contando a trajetória nos 33 anos de Brasileirão. Se já não bastasse excluir os pequenos (ué, torcedor de clubes menores não podem ter interesse nesse tipo de informação?), o critério do Lance foi de atender apenas aos simpatizantes dos quatro grandes de Rio de Janeiro e de São Paulo. Assim, o atual campeão Cruzeiro não teve espaço para contar sua história no Brasileiro.
Mas onde realmente o guia da Placar tem clara vantagem é na cobertura da Série B. As duas publicações empatam em quase todos os quesitos, com texto de apresentação, desenho tático simplificado e ficha técnica do clube. Mas a revista da Abril deu uma segunda página aos times da Segunda Divisão apenas para mostrar a cara e a carreira dos jogadores dessas equipes. Em um torneio com tantos jogadores desconhecidos que podem despontar, é algo elogiável, que valoriza a Série B mesmo sem Botafogo e Palmeiras.
No final das contas, ambos sofrem com a desorganização do futebol brasileiro, mas são bons guias. Podiam ser melhores, com mais espaço para a história do Brasileirão (são apenas 33 anos de disputa, não custa nada) e aprofundar a análise dos times, deixando um pouco de lado algumas estatísticas que podem ser curiosas em um primeiro momento, mas dificilmente terão valor de consulta. Também poderiam informar quando se encerra o contrto de cada jogador e qual a multa para eventuais rescisões, dados importantíssimos para saber quem pode sair no meio do campeonato.
Agenda
Outra publicação que foi lançada com o objetivo de acompanhar o torcedor durante todo o Campeonato Brasileiro (e outros torneios pelo ano) é a “Agenda Futebol 2004”, da editora Conrad. É uma proposta interessante e diferente do que se encontra normalmente no Brasil.
Essa publicação não é e nem pretende ser um guia do Campeonato Brasileiro, como as edições especiais do Lance e da Placar. Não apresenta os times, não dá escalação, não diz quem chegou e quem foi embora de cada clube. Afinal, como o nome diz, é uma agenda, mas uma em que os compromissos (jogos) estão preenchidos a cada dia.
Além de indicar os jogos a cada semana como uma tabela, inclui curiosidades e dados estatísticos a respeito de cada confronto ou fase dos torneios (Brasileirão, Copa do Brasil, Libertadores, Eliminatórias da Copa e Eurocopa). Assim, sempre que tiver futebol, o torcedor pode ver alguma informação histórica a respeito dos jogos do dia.
É uma idéia diferente e ainda não dá para saber se funcionará. Mas merece algum crédito. O mercado editorial brasileiro, sobretudo em esportes, precisa de novidade.
Mais informações
Todas as publicações citadas podem ser facilmente encontradas em bancas de jornal. O Guia do Brasileirão 2004 da Placar custa R$ 8,95, o do Lance está R$ 7,90 e a Agenda Futebol 2004 sai por R$ 12,90.
Ubiratan Leal
Imagens: Placar e Lancenet