É importante ressaltar que a evolução dos dragões não é sinal de um fenômeno mais amplo no futebol lusitano, ao contrário do que parece ocorrer na França. Pelo contrário. O Benfica se afunda em uma séria crise financeira e institucional, enquanto que o Sporting não encontra uma maneira de frear o avanço do Porto, que já pode ser considerado o segundo clube mais vitorioso em Portugal. A fase de crescimento do Boavista (um título e um vice na liga nacional, mais uma semifinal de Copa da Uefa, desde 2001) parece dar os últimos suspiros.
É importante ressaltar que a evolução dos dragões não é um processo repentino e casual. Desde o último título do Benfica (que completará 10 anos em maio), o Porto assumiu o comando do futebol luso. Conquistou cinco títulos seguidos, deixou Sporting e Boavista terem um brilhareco e voltou à carga. Parte desse sucesso se deve ao presidente Pinto da Costa.
Não, ele não é nenhum gênio da administração esportiva. O que Pinto da Costa conseguiu foi manter um poder pouco questionado em seu próprio clube (está no cargo desde 1982), eliminando as pressões internas que minam Benfica e Sporting. As crises no Porto são resolvidas de forma autoritária, mas rápida. Como os adversários se enfraquecem, os dragões tiram proveito, tanto que são os únicos portugueses no G-14, grupo que reúne os maiores clubes europeus.
Mas há o outro lado. Os rivais acusam o dirigente portista de ter relação "íntimas" com a comissão de arbitragem e a direção da Liga de Futebol. Pode não ser verdade, mas é inegável que ele tem muito poder nos bastidores. Não se cansa de colidir com Gilberto Madaíl (presidente da Federação Portuguesa de Futebol), trocar farpas com Dias da Cunha (presidente do Sporting) e criticar e botar em dúvida o comando de Luís Felipe Scolari. Aproveita ainda para promover ainda mais a rivalidade Lisboa-Porto, dizendo (com alguma razão) que Felipão olha com mais carinho para os jogadores dos grandes times da capital. O fato de o instável goleiro Ricardo, do Sporting, ser o titular, enquanto que o veterano e nem tão seguro portista Vítor Baía (foto) nem é convocado, não é aceito por Pinto da Costa.
Mesmo que por vias tortas, trabalhar no Porto é mais tranqüilo quando os resultados aparecem. Não era o que acontecia em 2000. O time parecia sem ação diante de Boavista e Sporting. Fernando Santos perdera o conjunto que conquistara o pentacampeonato português entre 95 e 99. A equipe até se mantinha na luta pelo título, mas de forma sofrida, desperdiçando pontos anormais. Os portistas foram vices em 2000 e, diante da dificuldade em lutar pelo título na temporada seguinte, Santos foi demitido. Octávio Machado chegou e não mudou o panorama.
Pinto da Costa resolveu mudar com mais profundidade. Chamou José Mourinho, técnico-revelação que levara a União Leiria ao 5º lugar no campeonato de 2001. Seguro de suas convicções (muitas vezes até demais), Mourinho foi o principal responsável pela montagem do Porto semifinalista da Liga dos Campeões 2003-04. Manteve a estrutura básica dos dragões, mas foi hábil na escolha de jogadores que completariam as necessidades do time sem extravagâncias financeiras. Trouxe Nuno Valente e Derlei da União Leiria e resgatou Maniche, esquecido no time B do Benfica. No ano seguinte, foi buscar Paulo Ferreira no Vitória de Setúbal.
A primeira temporada foi de adaptação, com um terceiro lugar e maus resultados como uma derrota por 3x0 para o Belenenses. Mas a temporada seguinte foi esmagadora. Foram 27 vitórias em 34 jogos, somando 86 pontos. Para completar, o Porto conquistou a primeira Copa da Uefa de um clube português diante do perigoso Celtic, após um jogo dramático em Sevilha.
Pouca coisa mudou em 2003-04. O promissor atacante Hélder Postiga foi vendido para o Tottenham, mas o sul-africano Benny McCarthy – vindo do Celta espanhol – foi um substituto mais que providencial, marcando gols decisivos tanto na Superliga quanto na Liga dos Campeões. Apesar da experiência do capitão Jorge Costa, os emergentes Ricardo Carvalho e Paulo Ferreira se tornaram referências na defesa portista e são observados por clubes de centros mas abastados. Mas ninguém tira de Deco o lugar de principal jogador do time. O meia luso-brasileiro cria, deixa os atacantes em situação privilegiada e, quando possível, faz seus gols. No conjunto, os dragões são compactos, variando a formação tática com certa facilidade. Por isso é uma equipe tão difícil de ser batida.
O Porto não surgiu com artificialismos como o aproveitamento de uma geração fora do comum ou de investimentos absurdos, estilo Roman Abramovich. Mesmo assim, não dá para ver o Porto como potência européia. José Mourinho deixa claro que sonha em dirigir clubes de Inglaterra, Itália ou Espanha e não se sabe qual seria o impacto da troca de comando. Se a Liga dos Campeões vier, o técnico até pode ficar mais um ano, mas sua saída continua sendo questão de tempo. Sem contar que não é sempre que se conseguirá encaixar tão bem tantos jogadores. Por isso, o que se pode esperar dos dragões é a consolidação como uma força intermediária do continente, como PSV Eindhoven, Bayer Leverkusen ou Lyon. Ainda assim, é uma vitória para os caídos clubes portugueses.
Carlos Alberto mal chegou ao Porto e já conquistou um lugar no time titular. Jogando um pouco mais avançado do que na época de Fluminense, o meia tem sido importante nesse final de temporada. Principalmente nas quartas-de-final da Liga dos Campeões, quando os dragões eliminaram o Manchester United
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Falando na Superliga portuguesa, a maior surpresa é o Nacional da Ilha da Madeira, 4º colocado até agora. O treinador do clube é Casemiro Mior, ex-volante de Internacional e Grêmio.
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Apenas para quem não entendeu o título desse artigo. Os produtores de vinho do Porto podem identificar uma colheita particularmente boa e perceber que há potencial para uma classificação especial. Após dois anos de envelhecimento em casco, o IVP (Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, entidade que reúne vários produtores de vinho do Porto) analisa a bebida e, se a qualidade da safra for confirmada, os vinhos iniciam o processo de envelhecimento na garrafa e recebem a designação de vintage. Extremamente valorizados pelos apreciadores de vinho pela suavidade e complexidade, com aromas frutados, de especiarias e de torrefação, os vintages são consumidos, em geral, com idade entre 15 e 50 anos.
Ubiratan Leal
Imagens: BBC Sport e Infordesporto