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5/04/04

Variedades

Clássicos da Tenente Silveira


Quem passa pela rua Tenente Silveira, no centro de Florianópolis – e por ali passam milhares de pessoas por dia – não faz idéia que, subindo as escadas ao lado de um bingo recém-fechado e caminhando entre os pequenos “boxes” que vendem aviamentos e produtos importados do Paraguai, acontecem grandes clássicos do futebol mundial diariamente. Barcelona x Real Madrid, Manchester United x Arsenal, Fla x Flu, Caxias x América – ambos de Joinville – e tantos outros times e seleções se enfrentam em dois estádios no final do corredor.

No Bazar Piá, única loja especializada em futebol de botão da capital catarinense e talvez do Estado, passes de atletas são negociados a cifras astronômicas, rivalidades criadas, belos gols marcados, mas, principalmente, muitos marmanjos, jovens, velhos e crianças divertem-se comandando seus escretes em emocionantes partidas onde o que importa é ver a bola, disco ou dado balançar as redes adversárias.

Todos os nossos pais já jogaram futebol de mesa (tá, talvez uns três ou quatro preferissem brincar de boneca e se regeneraram posteriormente), como é chamado pelos profissionais de hoje, ou simplesmente "botão", nome que vem da origem dos jogadores. E, já que nossos pais jogaram, é muito provável que seus filhos também. Ou seja, quase todo o brasileiro nascido desde 1930 ao menos já viu uma partida de futebol de botão. Meu pai conta que, após “contratar” os jogadores – o quer dizer roubar botões de sobretudos e capotes em lojas e em casa – ele e seus irmãos (que são numerosos) começavam a treiná-los para que eles entrassem em forma para os jogos – os botões eram lixados e cortados com estilete até ficarem no formato desejado pelo técnico. O futebol de botão já tinha pré-temporada muito antes do ludopédio real.

Após estar com o esquadrão completo – incluindo o goleiro, uma caixa de fósforo preenchida com chumbo ou areia – faltavam o campo, as traves e a bola. O problema do local de jogo era fácil de se resolver. Qualquer mesa razoavelmente grande ou um chão bem liso. As traves eram feitas com palito de picolé, lápis ou caixa de sapato recortada. A bola dava um pouco mais de trabalho. Podia ser de rolha, modelada com estilete à exaustão até ficar redonda, ou ainda de sabão com farinha, mas essa não subia muito. Às vezes, não se sabe se por preguiça de modelar uma esfera ou por dificuldades em achar um local totalmente nivelado, a bola não era redonda, mas tinha a forma de um pequeno disco, semelhante à usada nos jogo de hóquei no gelo... ou, para simplificar, era um botão pequeno. Mas ainda há, até os dias de hoje, um terceiro tipo de bola, menos conhecido, chamado de dadinho. Sim, a bola, no futebol de botão, pode ser quadrada.

“Dizem que o dadinho surgiu em alto-mar, com os marinheiros cariocas que jogavam nos navios. Assim a bola não deslizava de acordo com a inclinação da embarcação”, conta Rogério Kury, dono do Bazar Piá e jogador inveterado há mais de quarenta anos. Bancário aposentado, Rogério dedica seu tempo ao botão, mantendo a loja, organizando campeonatos, fazendo divulgação do esporte, viajando atrás de boas contratações para os times locais e tudo mais o que for preciso para divulgar sua paixão. “A loja não me dá lucro, mas eu ainda tenho esperança de ganhar dinheiro com futebol de botão.” Mas ele não espera ficar rico. O maior tesouro que Rogério tem, através do esporte, é o grande número de amizades feitas. “A gente conhece muita gente legal. E eu já vi crianças, que vinham aqui jogar virarem homens.” O Bazar está aberto há seis anos, e grandes negociações foram feitas nesse período.

“Já me ofereceram 100 reais num botão, mas eu não vendi”, conta Rogério. orgulhoso e consciente que, se quiser manter seu gigantesco plantel com mais de 1200 atletas de plástico, acrílico, madrepérola ou galalite, não pode ceder às tentações. Mas, para garantir, ele está transferindo boa parte do seu elenco da sua loja para a sua casa. “Se eu não fizer isso, os caras ficam insistindo e não aceitam um não como resposta. E não adianta eu botar o preço lá em cima, porque eles pagam”, diz, espantado com o assédio dos grandes empresários do futebol de botão. E nem sempre os botões mais caros são os melhores. Há alguns, segundo o dono do Bazar Piá, que não jogam nada, mas valem por sua raridade. Um exemplo são os botões de galalite, material do qual eram feitas as fichas de cassino, quando o jogo no Brasil ainda era legalizado.

“Eu conseguia dinheiro vendendo garrafas, fazendo pequenos serviços. Tudo para poder comprar um botão de galalite. O time tinha dez botões comuns e um de galalite, e eu os guardava nessa caixinha de supositórios, com flanela e talco para não arranhar.” A caixinha de supositórios é metálica e um pouco maior do que uma carteira de couro, e também tem uma história interessante. Numa entrevista dada à TV Capital, de Florianópolis, Rogério estava com outro aficionado que mostrou onde e como guardava seus botões: numa pequena caixa de supositórios, com flanela e talco para não arranhar. “Eu jogava no interior do Rio Grande do Sul, e ele, em Paranaguá. Com tantos quilômetros de distância nós fazíamos a mesma coisa!” E, em sua caixinha de supositórios, um histórico time do Grêmio aguarda uma chance para realizar um amistoso.

Entre os jogadores, um deles, o Áureo, zagueirão tricolor dos anos 60, viveu seu momento de glória ali nos balcões do bazar. “Certa vez chegou um sujeito sisudo, daqueles gaúchos bem gaúchos. Não falava quase nada, sério, com os dois filhos. E eu notei que, cada vez que ele abria a boca, falava no Grêmio. Ele comprou alguns botões e, quando foi pagar, tirou o cheque e eu vi o nome. Áureo. Perguntei se ele havia jogado no Grêmio e ele disse que não, mas que seu pai, sim.” Rogério então pediu que o sujeito esperasse e buscou a caixinha, abriu e procurou o botão do Áureo. “Aqui está o seu pai. Ele jogou no meu time.”

O filho do jogador se emocionou, abriu um largo sorriso e ficou mostrando o botão aos filhos. “Esse é o teu avô! Esse é o teu avô”, repetia, orgulhoso. “Isso é que é legal no botão, esses momentos únicos”, ressalta Rogério, que garante ter uniformes para botões de todos os times do mundo. Se ele não tem na hora, arruma em pouco tempo.
Para cada lugar, uma regra

Talvez o maior problema do futebol de botão nos dias de hoje seja a infinidade de regras diferentes. Além dos três tipos de bola, ainda há, no interior do Rio Grande do Sul, alguns loucos que jogam com grãos de milho com bola. Então existem pelo menos quatro “redondas” quase nunca redondas – a bola (que hoje em dia é de feltro), o disco, o dado e o cereal. Some-se a isso regras que incluem mexer nos jogadores – só quando for gol, quando a bola sair em lateral, quando for falta... – arrumar o goleiro – dentro da pequena área ou até a linha da grande área – e, principalmente, regras que se referem ao número de toques. Há desde a baiana, onde cada jogador tem direito a um toque por vez, revezando-se independetemente de acertar a bola ou não, até aquela de toques ilimitados por jogador. “Toda a regra é boa, menos a que não tem limite de toques”, sentencia Rogério, que justifica. “É só fazer um a zero e ficar tocando a bola indefinidamente, deixando o tempo passar.”

Por isso, os campeonatos são realizados com as diferentes categorias. Mas mesmo assim há confusão de regras. Os jogadores se adaptam àquela que mais se assemelha a sua e disputam o torneio. O próximo vai ser em Florianópolis, no mês de outubro.

E assim os dias passam no Bazar Piá, com partidas memoráveis, e nas casas de muitos jovens e marmanjos, que gastam noites disputando torneios regados a churrasco e cerveja, e não apenas no Brasil. Há futebol de botão até em Israel. Levado, é claro, por um brasileiro. E lá deve haver alguns Zicos, Pelés, Áureos e Mauros Champus (craque do Íbis) desfilando seus talentos pelos gramados de madeira e estufando as redes de filó.

Paulo de Tarso

Imagens: Liga Skimböll e Ivan Ribeiro

Obs.: Esse texto foi originalmente publicado no site Marca Diabo e até foi indicado na seção Curtas do Balípodo. Depois, nos foi gentilmente oferecido e, claro, nunca recusamos um convite para jogar botão.

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