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2/04/04

O mundo não é uma bola...

5x0, 1x4, 2x1, 3x3 e 0x3. Esse Uruguai é festa!


O técnico Juan Ramón Carrasco assumiu o comando da seleção uruguaia e logo anunciou que deixaria o jogo viril de lado, buscando o ataque. Os amantes do futebol saudaram a declaração, pois era difícil ver a pancadaria que muitas vezes o Uruguai promovia quando se via em dificuldades. E, realmente, Carrasco botou a Celeste Olímpica para frente. Até demais.

O pensamento do treinador – que ganhou projeção em seu país ao levar o pequeno e fraco Fénix à Libertadores de 2003 – é coerente, já que aproveitava o fato de os melhores jogadores do futebol cisplatino de hoje atuarem do meio-campo para frente. A estréia deu razão a Carrasco. Com grande atuação de Chavantón, os charruas foram insinuantes e envolventes, goleando a Bolívia por 5x0 no estádio Centenário.

Meia semana depois, o Uruguai foi a Assunção. Como o Paraguai se transformou em uma espécie de asa negra dos cisplatinos, Carrasco colocou uma formação um pouco mais cautelosa. Não dava para saber se os 4x1 pró-guaranis era resultado do recuo do time celeste, da sorte que os paraguaios davam contra os orientais ou de alguma fragilidade tática da equipe de Carrasco.

Na terceira rodada, um equilibrado e não tão empolgante jogo contra o Chile. A vitória dos charruas por 2x1 não deu espaço para muitas conclusões. Mas veio a jogo contra o Brasil em Curitiba. Essa partida merece ser lembrada como uma das mais nonsense dos últimos anos.

Primeiro, Carrasco ousa e deixa uma defesa escancarada e um meio-campo frágil já que Recoba fora poupado por voltar de contusão. O Brasil domina e faz dois gols antes do intervalo. Na volta, o Uruguai está com Recoba e Chevantón. Precipitadamente, a imprensa brasileira já dizia que o técnico uruguaio estava louco, pois expunha ainda mais sua equipe. Engano. O Uruguai ganhou consistência, dominou o segundo tempo e virou. O Brasil só escapou da derrota com um gol de Ronaldo no final.

Depois desses resultados, já dava para colocar o Uruguai realmente como uma das quatro forças da América do Sul para essas Eliminatórias. Então, como explicar a humilhante derrota para a Venezuela em Montevidéu?

A resposta simplista é dizer que o Uruguai é instável. Não estaria errado, mas chegar a uma explicação algo mais profunda não faz mal a ninguém. É importante analisar o que aconteceu no histórico gramado do Centenário, não apenas ver o resultado. A seleção vinotinto fechou sua defesa, mas soube sair tocando, sem imprimir uma correria louca (que favoreceria o jogo de lançamentos do Uruguai). Os charruas não se achavam.

Daí, Carrasco decidiu levar sua filosofia às últimas instâncias. Botou quase todo mundo na frente e deixou a defesa abandonada. No segundo gol venezuelano, os dois atacantes (González e Rondón) estavam sozinhos diante do arqueiro Munúa. Em diversos outros lances o coitado do goleiro oriental esteve na mesma situação, o que dá até para pensar que podiam ser mais de 3 gols dos vinotintos (e podiam mesmo).

O Uruguai é instável, sim. O motivo, porém, não são os tradicionais, como excesso de jogadores temperamentais, falta de entrosamento ou muitas mudanças de escalação por contusão ou suspensão. É fragilidade tática. Quando enfrenta uma defesa fraca como a da Bolívia ou um time ofensivo como o Brasil, o talento dos atacantes uruguaios e a ousadia de Carrasco são bem-vindos. Quando o adversário sabe se fechar, a Celeste Olímpica se perde. Não sabe jogar sem ser agredindo e acaba exposta de forma assustadora na defesa.

Para piorar, as cobranças no Uruguai são impressionantes. Não é errado dizer que um país que conta com jogadores como Recoba, Forlán, Chevantón e Pandiani está entre as mais talentosas da América do Sul. Mas não se pode equipará-la a Brasil e Argentina. Pois é isso o que acontece no futebol uruguaio. Torcedores, dirigentes e imprensa exigem o futebol de uma seleção bicampeã mundial, esquecendo-se que o último grande resultado dos cisplatinos foi o 4º lugar no Mundial de 1970.

Por isso, já se cobra muito de Carrasco. Os 0x3 diante da Venezuela vão repercutir por muito tempo nas ruas da pacata e gostosa Montevidéu. Talvez o ex-meia do São Paulo não sobreviva por muito tempo à frente da seleção uruguaia. Seria uma pena. Além de merecer crédito por se dar ao direito de ousar (mesmo que exageradamente) e ser um pouco louco, proporciona jogos muito divertidos para os espectadores.

Ubiratan Leal

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