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17/03/04

O mundo não é uma bola...

Será a vez dos clubes franceses?

Bayern 1x2 Lyon 2003.jpg

Há dois clubes franceses entre os 8 melhores da Liga dos Campeões, um fato inédito, e outros três estão entre os 16 sobreviventes das diversas fases da Copa da Uefa. Apenas um outro país europeu está com um retrospecto melhor até agora nas competições continentais (a Espanha conta com seis equipes, sendo também duas no torneio mais importante). Será que, finalmente, os clubes gauleses se estabelecerão entre os grandes da Europa?

Ainda é difícil dizer, mas o momento histórico é propício para que isso efetivamente ocorra. Após décadas à deriva no aspecto clubístico, parece que o futebol francês finalmente encontra suas referências. Alguém que possa ser considerado por todos (principalmente pelos adversários) como um dos grandes do futebol francês e se projete em direção à Europa. Porém, antes de falar diretamente nesse fenômeno, é importante analisar o porquê de os clubes da terceira maior economia da Europa (quase empatada com o Reino Unido) nunca se impuseram em competições continentais.

No final do século XIX, o futebol se estabelecia na maior parte dos países europeus. Isso acontecia também na França, mas com um problema grave: o rúgbi já conquistara seu espaço e era o esporte com maior aceitação popular. Assim, o país não conseguia estruturar internamente seu futebol, já que o esporte estava dividido em 5 federações. Apenas em 1918 a Féderation Française de Football foi criada, unificando o poder no futebol gaulês.

O que não significa que os problemas estivessem eliminados. Na década de 20, a FFF até contribuiu na consolidação da Fifa, mas, internamente, organizava apenas a Copa da França. O Campeonato Francês propriamente dito só surgiu em 1933, com, pelo menos, três décadas de atraso em relação a nações como Itália, Holanda e Inglaterra. Um tempo considerável.

Para piorar, Paris não conseguia firmar um clube na elite, o que dificultava ainda mais o surgimento de uma potência francesa na capital do país. A “responsabilidade” recaía sobre os times de cidades menores. E surgiu um candidato a grande nos anos 50, o Stade de Reims. Com dois vice-campeonatos europeus, o Reims era base da seleção gaulesa semifinalista da Copa de 1958. Mas o clube perdeu apoio financeiro e entrou em decadência nas décadas seguintes.

Foi um período muito ruim para os clubes franceses. Boa parte do público não estava convencida de que valia a pena seguir o esporte, o que levou o futebol do país a uma séria crise financeira. Nos anos 70, o Saint-Etiénne até conseguiu bons resultados com uma promissora geração (comandada por Michel Platini), mas não era suficiente. Inglaterra, Espanha, Itália e Alemanha já estavam um nível acima. Nem no segundo escalão a França se destacava, tanto que, até hoje, só tem dois títulos continentais de clubes (um posteriormente cassado), ambos nos anos 90. Para se ter uma idéia, esse retrospecto é pior que o de Portugal e Holanda, e igual ao de União Soviética, Escócia, ex-Iugoslávia, Bélgica e Suécia.

Havia uma grande flutuação na hegemonia local, com diversos clubes dividindo as conquistas desde a decadência do Saint-Etiénne na segunda metade da década de 70. Mesmo assim, o futebol já era o esporte mais popular do país. O que despertou o interesse de grupos econômicos. Bordeaux, Olympique Marseille e Paris Saint-Germain cresceram. O OM até conquistou a Liga dos Campeões de 1993, título cassado por suspeita de suborno de jogadores na liga francesa. O problema é que o processo não tinha base econômica justificável e até causou o rebaixamento de Bordeaux e Olympique após a descoberta de irregularidades administrativas.

Parecia que o futebol francês não teria muitas opções para reagir. Além da falta de apoio irrestrito dos torcedores, as leis do país também contribuíam para esse cenário, pois previam (como ainda prevêem) o pagamento de mais impostos trabalhistas que na Espanha ou na Inglaterra. Por fim, parte dos recursos dos clubes da Ligue 1 é destinada ao subsídio de clubes de divisões inferiores e até amadores. Como resultado, os franceses tinham menor competitividade financeira.

Monaco 8x3 La Coruna 2003.jpg

O Monaco é a única exceção. Como tem sede em outro país (um paraíso fiscal, inclusive), não está sujeito a essas regulamentações. No entanto, os monegascos têm poucos torcedores e só sobrevivem com a ajuda institucional e financeira da família real do principado.

É isso o que está mudando. As empresas voltaram a investir no futebol (dessa vez com aparente seriedade) e os clubes começaram a se estabelecer, criando uma espécie de hierarquia interna. O Marseille – por enquanto o clube mais popular do país – se estabiliza administrativamente, o Paris Saint-Germain se livra da imagem de time artificial e o Monaco se mantém com o auxílio da família Grimaldi. A esse trio se junta o Lyon, único clube da terceira maior cidade do país. Talvez esse cenário não se sustente, até porque o processo ainda é recente e não seria a primeira vez que o futebol francês sofreria um revés.

Como o futebol não estava mercadologicamente tão desenvolvido, os franceses foram menos afetados pelo recuo dos grupos de mídia (televisão) pela crise no setor de comunicação como ocorreu, por exemplo, na Alemanha. Foi justamente o contrário. Em 2001, em plena crise no setor de comunicação, a liga gaulesa conseguiu um aumento significativo do preço dos direitos de transmissão do torneio. Dos grandes, apenas o Paris Saint-Germain sofria (e sofre) mais, pois tem como acionista majoritário um grupo de mídia.

Claro que nem tudo é um paraíso para os clubes da França. Como em toda a Europa, as equipes são deficitárias e muitas correm o risco de fechar. O Monaco só não está na Ligue 2 porque o príncipe Rainier buscou investidores para ajudar o clube a saldar suas dívidas e evitar um rebaixamento administrativo. Vale lembrar que a FFF e o governo francês ainda não aprovaram (e talvez nunca o façam) a entrada de clubes de futebol na bolsa de valores de Paris. Apesar de vender ações no mercado não ser sinônimo de riqueza infinita, é uma forma para atrair investidores que não pode ser desprezada.

Olympique x Liverpool 2003.jpg

Ainda assim, os franceses já vêem referências. Pode-se ver Paris Saint-Germain, Monaco, Olympique Marseille e Lyon como os grandes do país, mesmo que os dois primeiros devido a alguns favorecimentos dos governos locais. Outros, como Bordeaux, Auxerre, Lens, Sochaux e Nantes, são forças intermediárias. O Campeonato Francês pode ficar mais previsível, mas a definição das forças é fundamental para atrair torcedores e patrocinadores. Digamos que é mais fácil entender a Ligue 1.

Pela cultura do futebol francês, dificilmente os clubes do país concorrerão com espanhóis, italianos e ingleses pelos maiores jogadores do mundo. Mas não é um absurdo imaginar os times franceses se equiparando aos alemães, com investimentos mais contidos, exportando os melhores jogadores e, ainda assim, mantendo um nível de competitividade respeitabilíssimo. Ah, e conquistando um ou outro título continental.

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Apesar da boa campanha dos clubes franceses, é provável que não ganhem nada nessa temporada. Na Liga dos Campeões, o Monaco não deve passar pelo Real Madrid e o Lyon terá sérias dificuldades com o Porto. Na Copa da Uefa, o Bordeaux deve eliminar o Brugges (foto do jogo de ida), enquanto Olympique Marseille e Auxerre têm boas chances contra Liverpool e PSV. Mas os favoritos continuam sendo Internazionale, Valencia, Roma e Barcelona.

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Os dois títulos continentais da França foram a Liga dos Campeões de 1993 do Olympique Marseille (cassada como punição ao suborno de jogadores no campeonato local) e a Recopa de 1996 do Paris Saint-Germain.

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Algumas fontes colocam Lyon como segunda maior cidade da França. Tecnicamente Marselha é maior, mas não dá para dizer que essas pessoas estão erradas. De acordo com o recenseamento populacional de 1999, a maior cidade francesa é Paris, com 9,645 milhões de habitantes. A seguir, há um “empate técnico” entre Marselha (1,350 milhão) e Lyon (1,349 milhão). Só para matar alguma eventual curiosidade, em seguida aparecem, pela ordem: Lille, Nice, Toulouse, Bordeaux e Nantes.

Ubiratan Leal

Imagens: Lyon (Bayern x Lyon) e Uefa (demais)

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