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5/03/04

Cultura & Mídia

Por que perder tempo com a lista do Pelé?

A lista de jogadores fornecida por Pelé para a comemoração do centenário da Fifa é ridícula. Disso não há dúvidas, pois escolhas discutíveis são aceitáveis, mas nada justifica a presença de metade dos jogadores relacionados para a tal homenagem. O que intriga é porque a imprensa perde tanto tempo repercutindo algo tão irrelevante e claramente comercial. E, pior, o faz usando argumentos estapafúrdios e contraditórios, o que só serve para lhe tirar parte da razão nas críticas.

Primeiro, é importante ter bem claro o que representa essa tal lista da Fifa. A entidade vai organizar uma festa em comemoração de seu centenário. Para isso, pediu para Pelé selecionar 120 jogadores de uma lista de 200 pré-selecionados pela própria Fifa. Dos escolhidos, metade deve estar em atividade e todos devem estar vivos.

A lista saiu cheia de equívocos. E qual a importância disso? Ela não tem importância histórica e referencial alguma. Em dois anos, quem for relacionar os 120 maiores jogadores do mundo não usará essa relação como base, pois cada um terá seus critérios. Até porque não se pode levar a sério uma lista histórica que simplesmente desconsidere quem já morreu.

Além disso, acusar Pelé pela escolha dos jogadores é ridículo. Qualquer um que não tenha como principal intenção inflamar os ânimos do brasileiro perceberá que o ex-craque não participou efetivamente desse trabalho. Prova disso é que o próprio Pelé já declarou que admirava muito o futebol de Pedro Rocha, o que torna a ausência do uruguaio estranha. Sem contar que o ex-ministro dos esportes não tem perfil de quem acompanha o futebol com profundidade suficiente para identificar um talento pouco reconhecido no turco Emre (que na imprensa brasileira apareceu com o sobrenome Belezoglu).

Por isso, fica evidente que a seleção se baseou em outros aspectos, como o interesse comercial de empresas e da própria Fifa. Por exemplo, a indicação de duas mulheres – as únicas de todos os 120 nomes – dos Estados Unidos parece ser uma desculpa para não deixar o país mais rico do mundo fora da festa. Essa é a mesma explicação para a inclusão do sul-coreano Hong Myung-Bo e do japonês Hidetoshi Nakata.


Assim, fica claro que Pelé só deu sua “grife” para a lista. E, por esse motivo, mereceria críticas, pois não se dá um – ainda – respeitado nome a algo tão tolo. Até porque Pelé não precisa dessas coisas, que só servem para comprometer ainda mais sua imagem. Mas isso é uma coisa que a imprensa preferiu deixar em segundo plano, enfatizando as incoerências da relação de nomes com argumentos facilmente rebatidos. Veja abaixo os principais.

1) Faltou Nilton Santos, Garrincha, Gérson, Tostão e Rivellino
Realmente, esses jogadores estão entre os melhores de todos os tempos. Tanto que, de forma esquisita, Nilton Santos e Rivellino foram acrescentados de última hora. Quanto a Garrincha, ele não poderia – por causa dos critérios – estar na relação, pois morreu há 21 anos. Aliás, Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Yashin, Kocsis e Schiaffino também na foram lembrados. Talvez por já terem falecido.

2) O atacante holandês Van Basten não foi lembrado, ao contrário de seu compatriota Van Nistelrooy
Van Basten foi melhor, mas já encerou a carreira. Assim, concorria entre os 60 maiores da história, enquanto Van Nistelrooy tinha uma vaga entre os 60 melhores da atualidade. De qualquer forma, o ex-centroavante do Milan também foi “lembrado” em uma segunda lista.

3) A França de 98 tem mais jogadores que o Brasil de 70
Não dá para comparar os dois times, é de uma covardia desnecessária. Mas muitos dos franceses ainda jogam, disputando espaço entre os nomes da atualidade, enquanto a seleção brasileira de 70 teve de dividir espaço com os futebolistas de todos os tempos.

4) Comparar o número de títulos entre os países
A quantidade de títulos nunca foi parâmetro para dizer quantos craques cada país já teve. O Brasil criou craques como nenhum outro país, mas não é a estatística que diz isso e sim, a observação do jogo praticado pelo mundo.

Claro, há vários pontos pouco justificáveis na seleção feita (oficialmente) por Pelé. Dalglish e Zamorano não foram melhores que Jairzinho e Tostão. Uruguai e Hungria mereciam mais espaço, enquanto que a Holanda está superdimensionada. Mas, pelos motivos não-técnicos já citados, era importante ter um escocês, o chileno – ainda uma referência no mercado latino-americano – e uma legião da seleção laranja.

Entrar mais fundo nisso é perder tempo. O pecado do ex-craque foi ter assinado a lista de outra pessoa. Uma seleção que nada tem a ver com a capacidade técnica dos nomeados. Se a imprensa vê até a política interna do Santos como motivo da escolha de Pelé, é porque tenta apenas criar caso ou um levante patriótico entre os torcedores.


Será que Pelé realmente considera Hong Myung-Bo um dos 60 melhores jogadores ainda em atividade?

*
Como se já não houvesse muita bobagem falada em um só fato, Ricardo Teixeira ainda tenta capitalizar. O presidente da CBF quis se mostrar influente no comando da Fifa ao convencer a entidade que era necessário revisar a lista e acrescentar alguns nomes, o suficiente para colocar o Brasil como país com mais indicados.

*
Só para terminar. Se a valorização do futebol nacional depende de uma lista como essa da Fifa, o Brasil está com sérios problemas de auto-estima.

Mais informações
Quem quiser ver a lista de jogadores homenageados no centenário da Fifa, clique aqui ou aqui (atenção para os erros crassos em todo o site, principalmente nas equipes brasileiras).

Ubiratan Leal

Imagens: Simpsons site não-oficial, La Opinion e Soccerage

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