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19/03/04

Histórias

Os clubes mais boreais do mundo

Siga em direção ao norte da Noruega. Vá pela costa, se embrenhando pelos infindáveis fiordes do litoral oeste da península escandinava e passe pelo Círculo Polar Ártico como se ele nada significasse. Quando a sensação é de que o mundo acabou, lá está Tromsø, sede do clube mais setentrional do mundo, o Tromsø Idrettslag.

Em comparação com a cidade norueguesa de 60 mil habitantes, os números de Dunedin, Ivercargill e Comodoro Rivadávia, sedes dos clubes mais austrais do mundo, são desprezíveis. Tromsø está a 69º42’ norte, a apenas 2,1 mil km do Pólo Norte. Na média, em apenas 14 dias do ano o termômetro marca mais de 18ºC e em 100 marca mais de 10ºC. A temperatura máxima já registrada foi de 25ºC em junho e a mínima chegou a –19ºC em janeiro.

Seria impossível manter um clube de futebol profissional se não houvesse algumas condições especiais. Na Noruega, o frio impede que o futebol seja praticado nos meses de inverno. Por isso, a temporada segue o calendário solar, como o hemisfério sul. Os jogos começam em abril e terminam em outubro. Em julho, um pequeno recesso para que os jogadores possam descansar durante o verão. Essa regra também é adotada em países como Rússia, Suécia, Finlândia, Ilhas Faroe e Islândia.


Além do frio excessivo até para os padrões escandinavos, o Tromsø sofre com a dificuldade em se destacar na liga local. Os clubes do sul, como Rosenborg, Viking, Lillestrøm, Lyn e Odd dominam o futebol norueguês. O Rosenborg, inclusive, conquistou as últimas 12 edições do Campeonato norueguês.

Sobrou pouco para os alvirrubros do norte. Utilizando muitos jogadores revelados na região, o Tromsø conseguiu somente um vice-campeonato, em 1990. Na Copa, um torneio mais afeito a surpresas pela fórmula de mata-mata, os nortistas têm retrospecto melhor, com dois títulos (86 e 96). Inclusive, a final do segundo foi o clássico regional contra o Bodø-Glimt, outro acima do Círculo Polar.

Para piorar, as últimas temporadas foram especialmente difíceis para a torcida alvirrubra. Mesmo não sendo uma potência nacional, o Tromsø tradicionalmente é uma equipe da Primeira Divisão desde que lá aportou, nos anos 30. Porém, em 2001, o time fez uma campanha medíocre (16 pontos em 26 jogos) e foi rebaixado. Venceu a Segunda Divisão em 2002, mas, em 2003, voltou a jogar mal.

Chegou na última rodada dependendo de um milagre. Precisava vencer o campeão antecipado Rosenborg em Trondheim. O 0x0 se arrastou até os 49 do segundo tempo, quando Arne Vidar Møn fez o gol da vitória dos nortistas , que foram a 29 pontos, um a mais que o rebaixado Aalesund. Pior ainda, o rival Bodø-Glimt foi vice-campeão, deixando claro quem é o melhor clube do norte da Noruega.


Assim, Tromsø tem mais orgulho do sol da meia-noite, da aurora boreal, de seu porto e da forte presença de estrangeiros, o que deu um perfil cosmopolita à cidade. Os costumes modernos em comparação com o interior da Noruega, a moda e até algumas expressões francesas que se incorpraram no sotaque local valeram ao local o apelido de “Paris do Norte”.

No futebol, fica de destaque o atacante Sigurd Rushfeldt, nascido na cidade, revelado pelo clube e integrante da seleção norueguesa nas Copas de 94 e 98. E o fato de ter o clube profissional mais ao setentrional do mundo. Mas será mesmo?

Como no caso dos clubes austrais, é possível criar uma discussão. Se for levado ao detalhismo absoluto, a equipe de futebol mais próxima do Pólo Norte é o Hammerfest Fotball Klubb, de Hammerfest, cidade a 240 km ao norte de Tromsø e que tem como símbolo (adotado também pelo time) um urso polar. O que complica um pouco a causa do HFK é o fato de o time ser absolutamente amador, militando no Grupo 4 da Terceira Divisão Norueguesa.


Veja no mapa porque o Hammerfest pode se considerar o clube mais setentrinal do mundo

Ubiratan Leal

Imagens: Tromsø e Destinajon Tromsø

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