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12/03/04

Histórias

Os clubes mais austrais do mundo

“Se os pingüins gostassem de futebol, para que time torceriam?” Foi a partir dessa brincadeira surreal, nonsense e despretensiosa – para não dizer idiota – que o Balípodo resolveu encontrar o clube mais austral do mundo. O que mais está próximo do Pólo Sul e, para qualquer eventualidade, pode ganhar a popularidade das aves de fraque caso essas queiram ir à arquibancada ver humanos jogando bola.

Difícil imaginar quais parâmetros os pingüins utilizariam, mas, para os humanos, não é fácil definir qual a equipe mais ao sul do planeta. Afinal, dependendo dos critérios, três clubes podem reivindicar tal título. Vamos começar pelo que o faz oficialmente.

Quem pegar a tabela da Nacional B, a Segunda Divisão do futebol argentino, verá um time de nome CAI e nem saberá que esse é um clube diferente. A Comisión de Actividades Infantiles foi fundada em 1984 para ajudar garotos da Patagônia argentina a desenvolverem sua técnica e, se possível, encaminhá-los para os principais centros do país, como Buenos Aires e Rosário.

Nos primeiros anos, o clube só contava com equipes de futsal. Até que, em 1989, montou seus primeiros times infantis de futebol de campo. Mais cinco anos e a primeira formação adulta já disputava ligas amadoras regionais. Teve uma subida rápida e chegou ao segundo nível do país em 2002-03.

A CAI tem sua sede principal em Comodoro Rivadávia, conhecida por ter as principais reservas de petróleo do país. Com latitude de 45º50’ Sul, a capital da província de Chubut está quase tão distante de Buenos Aires quanto São Paulo. Mas o clube-entidade se espalhou por toda a região, montando filiais em Villa Regina, San Carlos de Bariloche, Puerto Madryn, Trelew, Esquel, Sarmiento, Calota Olívia, Perito Moreno, Pico Truncado e El Calafato (essa última quase na Terra do Fogo) para melhorar sua capacidade de descobrir garotos e encaminhá-los para Comodoro Rivadavia.


Por mais que os interesses competitivos atrapalhem e a contratação de atletas mais experientes se faça necessária, a CAI ainda mantém seus princípios. Dos 26 jogadores de seu atual elenco, 14 nasceram em Chubut, Río Negro ou Santa Cruz, províncias que formam a Patagônia. Todos tentam ter a mesma sorte de Sixto Peralta, Nestor Silvera e Mario Santana, revelados em Comodoro Rivadávia e hoje no México (os dois primeiros) e na Itália.

Hoje, a CAI está em boa fase. Começou a temporada já ameaçada de rebaixamento (na Argentina caem os times com piores médias nos últimos 3 anos), porém, liderou boa parte do Torneo Apertura 2003 e quase garantiu uma vaga na final do Nacional B. Acabou em 5º, mas revelou o oportunista Bevacqua, artilheiro do Apertura com 13 gols.

De fato, nenhum clube profissional está tão ao sul quanto a CAI. No entanto, nem toda equipe amadora pode ser ignorada. Algumas têm filiação a federações nacionais e disputam competições regulares reconhecidas pela Fifa e só não são profissionais pelo baixo desenvolvimento do futebol no país.

E, aí, surgem dois times mais próximos ao Pólo Sul do que os garotos de Comodoro Rivadavia. Na Nova Zelândia, a primeira divisão de 2003 contava com dois representantes de Dunedin. Os argentinos perdem por 30 minutos (lembre-se das aulas de geometria e geografia: minuto não é apenas unidade de medida de tempo, mas também uma subdivisão do grau), pois a cidade neozelandesa está a 45º80’ da linha do Equador.


Na competição interna, o Dunedin Technicals perde por ter sede no centro da cidade, enquanto o Caversham está e um distrito industrial ao sul. Fundado em 1931, o Caversham Football Club era mais um anônimo no obscuro futebol da Nova Zelândia, tanto que é mais conhecido pela equipe de futebol feminino que possui. Até que, em 2000, iniciou uma reestruturação e alcançou a Liga Nacional em 2003. Sem força para concorrer com os grandes clubes do norte, sobretudo os de Wellington e Auckland, quase foi rebaixado (foi 8º entre 10 competidores, caía apenas o último colocado).

Porém, a federação neozelandesa decidiu reestruturar o futebol do país e mudou um pouco o cenário. Em 2005, será criada uma liga baseada em franquias, como nos esportes profissionais norte-americanos. Com isso, a Liga Nacional foi desfeita e, em 2004, o campeonato de transição contará com grupos regionais. Os melhores de cada torneio devem integrar a Liga de 2005 e disputar, em mata-mata, o título de 2004.

Isso aumentou a quantidade de clubes na principal divisão da Nova Zelândia para esse ano, o que deu espaço para o surgimento do Southland Spirit. O clube tem sede em Invercargill, capital da província de Southland e a 46º25’ Sul. Na realidade, a cidade tem outros dois clubes, o tradicional Invercargill Thistle e o desconhecido Old Boys.

O Thistle dominou o sul da Nova Zelândia nos anos 60, mas entrou em decadência e hoje praticamente inexiste, só aparecendo com mais destaque durante a Chatham Cup, a Copa da Nova Zelândia, que conta com clubes de todas as divisões do país.

A primeira rodada da região Sul do Campeonato Neozelandês de 2004 só está programada para 3 e 4 de abril. Com isso, o Caversham ainda é o time de liga mais austral do mundo. Posto que em breve será do Southland Spirit. E a CAI tem de se contentar com o fato de participar de um torneio futebolisticamente mais relevante e de manter uma estrutura profissional, com filiais mais austrais do que qualquer cidade da Nova Zelândia.


O Southland Spirit se tornará em abril o clube de liga a mandar os jogos mais próximo ao Pólo Sul

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E quanto ao frio? Realmente, Comodoro Rivadavia, Dunedin e Invercargill não contam com o calor tropical do Rio de Janeiro. Em Invercargill, apenas 29 dias por ano, em média, ficam com temperaturas abaixo de 0ºC. Em Dunedin, a temperatura média anual é de 10ºC. E, em Comodoro Rivadavia, apenas em 5 dias por ano, em média, o termômetro passa dos 32ºC.

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Semana que vem falaremos do clube mais setentrional do mundo.

Ubiratan Leal

Imagens: CAI e Soccer Otago

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