Até onde vai meu conhecimento a respeito do talento do atacante do Real Madrid, a resposta à pergunta acima é “nada” ou, no máximo, “muito pouco”. O que não é demérito dele, afinal, por mais que se aconselhe que qualquer cidadão seja bem informado sobre as nuances da política internacional, não se pode obrigar ninguém a isso. Então por que a imprensa, assim que ocorre o atentado que matou mais de duzentas pessoas em Madri, pergunta o que Ronaldo acha sobre o assunto?
A resposta inicial é óbvia: ele mora em Madri e pode falar sobre a repercussão das explosões na capital espanhola. Tudo bem, perguntar é a função do jornalista. Mas é também função do jornalista “editar” (em bom português, cortar) os trechos que nada acrescentarem à cobertura do fato. O que foi claramente o caso do atacante.
Ainda na quinta-feira do atentado, o Real Madrid orientou seus jogadores a não falarem sobre o assunto. As conseqüências na política espanhola já eram previsíveis e ainda não se sabia até que ponto o ETA não estava envolvido no ato, o que causaria um mal-estar enorme na sociedade espanhola. Para tornar a entrevista com Ronaldo menos útil ainda, um dia depois das explosões nos trens madrilenos ele estava no Brasil se recuperando de uma contusão.
Assim, ninguém pode condenar o atacante por responder com uma declaração mais padronizada que atendimento de franquias norte-americanas: “está todo mundo assustado, infelizmente o terrorismo está incontrolável”. Não se podia exigir mais dele. Ele não estava em Madri no dia seguinte ao atentado e não entende de terrorismo. Assim, diante da resposta óbvia, cabia ao repórter ou ao editor deixar esse depoimento de lado ou, na melhor das hipóteses, mencionar isso de forma rápida, sem destaque.
Talvez insatisfeitos com a resposta de Ronaldo, alguns veículos procuraram Denílson, do Bétis. O ex-são-paulino falou sobre a tensão e tristeza que se espalhava pelo país. Porém, não se pode esquecer que Sevilha está a 541 km de Madri. A informação que Denílson tem sobre o atentado é passada pela TV e por comentários dos espanhóis que o rodeiam. No máximo, ele poderia (e não o fez), contar a história de seu colega bético Alfonso Pérez (foto), que estava na estação de Atocha meia hora antes das duas explosões que ocorreram no local. Também não é culpa de Denílson.
O que fica claro é que a imprensa buscou relatos de jogadores que, além de estar na Espanha, fossem populares. Por isso, poucos (para não correr o risco de generalizar ao dizer ninguém) pensaram em perguntar para o atacante Rodrigo Fabri, artilheiro do Brasileirão de 2002 e reserva do Atlético de Madrid, sobre como a capital espanhola estava após os atentados. Como vários jogadores colchoneros deram declarações à imprensa sobre o assunto, supõe-se que não haveria impedimento para o ex-jogador da Portuguesa fazer o mesmo. Talvez ele não acrescentasse nada e desse declarações mais insossas que a de Ronaldo. Mas um jornalista não deveria ignorar essa possibilidade.
A busca pela melhor informação fica de lado. Ao invés disso, os veículos preferem insistir nos mesmos rostos, tentando ganhar alguns pontinhos no Ibope e ficar de bem com patrocinadores. Só isso justifica o fato de Milene Domingues também ter de responder a perguntas sobre o atentado, mesmo estando em Teresópolis na preparação da seleção feminina.
O pior é que isso tem se tornado um costume da imprensa brasileira, independentemente do assunto em questão. Claro que há, por exemplo, músicos mais aptos a comentar a política econômica do governo Lula que muitos economistas ou atores que conhecem mais o futebol que jogadores ou repórteres esportivos. Mas são exceções. De resto, esses casos resultam no nada ou na exposição do entrevistado ao ridículo.
Ubiratan Leal
Imagem: Terra e El Mundo