Faltando doze rodadas para o final do Campeonato Alemão o Werder Bremen tem 52 pontos, sete a mais que o segundo colocado, o Bayern. Os outros times que ainda acompanhavam a cavalgada da dupla estão perdendo contato. O Stuttgart perde fôlego e está com 40, enquanto o Bayer Leverkusen empacou e até já foi ultrapassado pelo surpreendente Bochum. O Dortmund é apenas o sexto, com 34 pontos.
A campanha do Werder é respeitabilíssima, com 16 vitórias, 4 empates e apenas duas derrotas. E tudo isso não foi conquistado com dinheiro, revelações ou pressão da torcida sobre os adversários. Aliás, é um pouco difícil saber em que se baseia essa liderança dos alviverdes.
A ESPN Brasil transmitiu alguns jogos da equipe nessa temporada e, pelo menos em tais ocasiões, a equipe não teve um desempenho que justifique a posição tão confortável na tabela. Principalmente nos confrontos diretos com os seus principais adversários, Bayern de Munique e Stuttgart (empate em 1x1 e derrota por 1x3, os dois jogos em Bremen).
Claro, isso não quer dizer que o time alviverde seja uma tragédia. Por exemplo, não há como desmerecer o oportunismo do atacante brasileiro (que deve se naturalizar catariano em breve) Aílton. Rápido, já marcou 20 gols (quase um por rodada) e é a referência da equipe na frente. O pernambucano é o principal responsável pelo fato de o Werder ter o melhor ataque da Bundesliga, com 54 gols.
Ao seu lado está o croata Ivan Klasnic, de 23 anos. Na realidade, o atacante defende a seleção alvirrubra quadriculada dos Bálcãs por opção, já que seus pais são da Croácia. Ele mesmo é alemão de nascimento e começou a carreira no Sankt Pauli. É talentoso e costuma jogar como pivô, deixando o brasileiro mais livre para se movimentar pelos dois lados do campo.
O setor ofensivo é alimentado sobretudo pela inteligência do francês Johan Micoud (foto). Técnico e com passes apurados, possui grande capacidade de cadenciar e distribuir o jogo. Foi reserva da seleção francesa que fracassou na Copa de 2002 e chegou de graça a Bremen, pois seu contrato com o Parma não fora renovado. O outro meia é o alemão Fabian Ernst, menos habilidoso que o francês, mas compensa com uma melhor capacidade de marcação. Estava esquecido no Hamburg, após um início de carreira promissor, a ponto de ser chamado de “novo Beckenbauer” pelos torcedores mais otimistas.
O resto da equipe é formado por jogadores medianos, que, às vezes, passam do ponto da rispidez legítima e se tornam algo violentos. Umit Davala, Baumann, Ismaël e Krstajic não parecem ter um comprometimento tão grande em acertar a bola quando vão marcar os adversários. Anda assim, ajudam a compor o terceiro sistema defensivo mais eficiente da Bundesliga, com apenas 21 gols sofridos.
O técnico é Thomas Schaaf. E aí pode estar um dos segredos desse time montado de forma simples e sem grandes estardalhaços. Poucas pessoas se identificam tanto com o Werder quanto ele. Afinal, Schaaf foi defensor do alviverde por 17 anos – de 1978 a 1995 – e conquistou dois Campeonatos Alemães e uma Recopa européia. Com o fim da carreira, se transformou em treinador das categorias menores e depois do time B do Werder. Foi efetivado como técnico da equipe principal em 1999.
Além de ter a confiança da diretoria e da torcida, Schaaf soube como melhorar o controlar os vaivens do time. Aliás, era uma questão fundamental para o sucesso do Bremen, pois, nas duas últimas temporadas, os alviverdes terminaram o primeiro turno com vaga na Liga dos Campeões e caíram na segunda metade a ponto de não terem lugar nem na Copa da Uefa.
É nesse retrospecto recente que o Bayern aposta. Para a alegria dos torcedores de Bremen, o Werder começou bem o returno e até aumentou a distância, que era de 4 pontos até a metade do torneio. Ainda assim, uma queda repentina no final não é descartada. O mesmo já aconteceu com o Leverkusen em 2002 e o Schalke em 2001.
*
E pensar que, no início da temporada, o Werder Bremen foi desclassificado pelo pequeno Pasching, da Áustria, na Copa Intertoto.
*
Já que citamos os jovens do Stuttgart, vale dizer que, no amistoso contra a Croácia, três revelações do clube estiveram em campo pela Alemanha, Kurany, Lahm e Hinkel. A última vez que o Stuttgart havia cedido três jogadores para a seleção foi há dez anos, com Guido Buchwald, Thomas Berthold e Thomas Strunz.
*
Esse amistoso, a propósito, mostra mais uma vez como a idéia de que a Alemanha só escala veteranos é bobagem. O trio do Stuttgart, mais Lauth do München 1860, já convenceram o técnico Rudi Völler que em capacidade para substituir Bobic, Ziege e Wörns. Com a volta dos mais experientes (não veteranos, fique claro) Frings, Hamman, Nowotny, Ballack e Metzelder (apenas os 3 primeiros já se recuperaram das contusões), a Alemanha pode fazer um papel digno na Euro 2004. Melhor do que as apocalípticas previsões de muitos.
Maurício Aires
Imagens: Bundesliga e Sport 1