Realmente, a reação do Barcelona é admirável o suficiente para os mais apressados colocarem os catalães como principais adversários do Real Madrid na Liga Espanhola. Aí há um claro exagero. Os blaugranas até têm chances de levar a taça, mas ignorar o Valencia e achar que as próximas nove rodadas serão iguais às últimas nove é ingenuidade.
Realmente, a reação do Barcelona é admirável o suficiente para os mais apressados colocarem os catalães como principais adversários do Real Madrid na Liga Espanhola. Aí há um claro exagero. Os blaugranas até têm chances de levar a taça, mas ignorar o Valencia e achar que as próximas nove rodadas serão iguais às últimas nove é ingenuidade.
O maior motivo para o relativo ceticismo é analisar os motivos para a subida repentina do Barcelona. A reação coincide basicamente com três fatores: a chegada de Davids, a excelente fase de Ronaldinho e a contusão de Kluivert. E, realmente, tudo se encaixou.
Na primeira metade da temporada, Rijkaard não conseguiu montar uma equipe. O grupo era capenga, carregando os vícios de sempre: falta de estrutura tática, dificuldade em soltar os principais talentos e, claro, desempenho geral instável. Por isso, a chegada do volante Davids foi perfeita. Não onerou o arrombado caixa do clube (o holandês estava brigado com a Juventus e chegou à capital da Catalunha de graça, desde que o Barça pagasse seu salário) e ajeitou o meio-campo. A marcação ficou mais consistente, bem como a saída de bola. As jogadas já começam com mais inteligência.
Já a saída de Kluivert tem a ver com a melhora do rendimento de Ronaldinho. Sem a companhia do holandês (que deixara há algumas temporadas de ser um centroavante fixo para buscar o jogo em alguns momentos da partida), o gaúcho teve mais liberdade de movimentação entre o meio-campo e o ataque. E daí está o mérito do brasileiro. Mostra a rara capacidade de usar sua enorme habilidade para criar jogadas efetivas, coisa que Denílson até hoje não aprendeu.
A gent blaugrana está enlouquecida. Companheiros como Luís Enrique e Gerard afirmaram que o ex-gremista é o melhor jogador do mundo hoje, opinião que tem coro em boa parte da torcida do clube. A imprensa local (representada principalmente pelo diário El Mundo Deportivo) tenta criar um apelido para o meia. Enquanto o presidente Joan Laporta, que ganhou as eleições no meio de 2003 com a promessa de trazer Beckham e teve de se contentar com o brasileiro após a ida do inglês para o Real Madrid, tenta capitalizar, distorcendo os fatos ao dizer que sua primeira opção era Ronaldinho. O “Spice Boy” seria apenas um elemento no meio-campo.
Mas é bom ir com calma. Ronaldinho está muito bem, mas chama as jogadas demais para si. Por enquanto é suficiente, mas talvez não se possa dizer o mesmo no momento em que ele entrar em má fase ou se contundir. Além disso, o ex-gremista ainda não é o armador mais indicado contra defesas eficientemente fechadas (não conta a retranca esburacada de times como o Murcia e o Albacete), pois não tem por característica organizar o ataque com paciência. Quando aprender a cadenciar o jogo, Ronaldinho pode realmente pleitear o reconhecimento ao qual se referiu Luís Enrique e Gerard.
Outro fator que quem acompanha o futebol espanhol não pode perder de vista é que, no papel, o Valencia é mais time que o Barcelona (comparar com o Real Madrid é inútil, apenas o Milan pode pensar nisso). Os catalães contam com os bons Puyol e Márquez na defesa. No meio, Xavi é uma espécie de líder, até por ser de Barcelona. O meia-atacante Luís Enrique perde muitos gols, mas é uma referência importante para as penetrações de Saviola. De Ronaldinho e Davids já falamos.
Nada mal, mas ainda é pouco para um Barcelona que se imagina dominando a Europa. O clube ainda carrega o legado de temporadas anteriores, como Reiziger, Cocu e Kluivert, jogadores cujo melhor momento já passou. A falta de planejamento também tem suas conseqüências. Para resolver o crônico problema da falta de um goleiro confiável (o último foi Zubizarreta em 1994), Laporta contratou o excelente Rüstü. Faltou alguém olhar a relação de países que formam a União Européia para perceber que um turco não é considerado comunitário. Como Márquez é mexicano, Ronaldinho nasceu no Brasil e Saviola só tem passaporte argentino, a cota de três estrangeiros em campo por time estava preenchida. Rüstü virou uma extravagância no banco enquanto o jovem e nem tão confiável Valdés tem defendido a meta blaugrana.
O Valencia é menos espetacular e mais previsível. No entanto, é mais sólido e estável. Cañizares, Ayala, Carboni e Pellegrino compõe uma defesa bastante segura, talvez a melhor da Espanha (o que não é muito difícil). O meio-campo com Baraja, Albelda, Vicente e Aimar não impressiona pela fama dos jogadores, mas é extremamente eficiente. Na frente, a revelação Mista garante os gols.
Por isso, ainda é mais prudente esperar um pouco mais para fazer um juízo definitivo desse Barcelona. Se os catalães chegarem com boas perspectivas ao superclásico com o Real, em Madri, dentro de cinco rodadas, e atuarem, com grandeza, terão mostrado que são definitivamente fortes. Mesmo que, no final, percam a partida.
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Para o próximo ano, a diretoria blaugrana afirma que Saviola já terá ser passaport comunitário. Além disso, Rüstü se beneficiaria de acordos trabalhistas entre a União Européia e países como a Turquia para entrar em campo sem contar como estrangeiro.
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A útima derrota do Barcelona foi em 22 de janeiro para o Zaragoza (0x1 em Barcelona), pela Copa do Rei. Na Liga, o derradeiro revés se deu diante do Racing, um desagradável 0x3 em Santander, em 4 de janeiro.
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No início da temporada européia, esse site afirmou que boa parte das expectativas sobre a chegada de Ronaldinho ao Barcelona era marketing. Na época, realmente era, até para diminuir a sensação de derrota para o Real Madrid na briga por Beckham. Mas devemos admitir nossos erros. Até agora, o desempenho do brasileiro justifica os euros pagos para tirá-lo do Paris Saint-Germain.
Ubiratan Leal
Imagens: As, El Mundo Deportivo e Marca