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30/03/04

Brazil

Futebol para as massas?


A notícia foi capa dos principais cadernos de esporte do Paraná no início de março: a diretoria do Atlético-PR fixou em R$ 30 o preço mínimo do ingresso para os jogos da equipe durante o Campeonato Brasileiro, que começa em abril. Os torcedores se engasgaram com a notícia do reajuste e a chiadeira foi instantânea – em uma enquete promovida por um portal de comunicação do Paraná, mais de 70% dos participantes disseram que o preço era abusivo para os padrões brasileiros.

Representantes das torcidas organizadas (Fanáticos, Ultras, Esquadrão da Torcida Atleticana) aproveitaram a partida contra o União Bandeirantes, pelo campeonato estadual, para protestar nas arquibancadas. No Campeonato Brasileiro de 2003, o ingresso mais barato para os jogos do rubro-negro custava R$ 15, valor que na atual tabela será o da meia-entrada.

O conselho deliberativo do clube se pronunciou em seguida, alegando uma série de motivos. Um deles é que, até o início do Brasileirão, a Arena da Baixada terá somente cadeiras numeradas em função do cumprimento do Estatuto do Torcedor. Outro argumento é que, por causa da instalação de cadeiras, o torcedor que pagava R$ 60 por uma cativa vai levar o mesmo benefício pela metade do preço. Para completar, a diretoria lembrou que, quando a Arena foi inaugurada em meados de 1999, o ingresso custava o equivalente a US$ 15 – pelo câmbio de hoje, R$ 43. “Na verdade, nós baixamos o preço do ingresso”, afirmou há algumas semanas o ex-presidente Mário Celso Petraglia, atualmente no Conselho Deliberativo do clube. No mesmo dia, o rival Paraná anunciou que o preço do ingresso mais barato para ver o time no Brasileiro 2004 ficaria em R$ 10 – um estímulo à torcida, preocupada com a ameaça, na época, do rebaixamento no Estadual.

O aumento no preço dos ingressos e a colocação de cadeiras em todo o estádio é apenas parte de um processo considerado “revolucionário” para os dirigentes atleticanos, que fecharam recentemente uma parceria com o canal a cabo Clear Channel para a exploração da marca do clube e da “identidade” do estádio. A intenção é tornar o visual da Arena da Baixada em um símbolo tal como a camisa e o escudo rubro-negros – o que já pôde ser visto em outdoors espalhados por Curitiba nas últimas semanas. Além disso, o Atlético pretende, com o ingresso a R$ 30, aumentar de 8% para 26% a participação da bilheteria nos rendimentos do clube e incentivar o torcedor a comprar o pacote para toda a temporada com preços promocionais.

As reivindicações e a polêmica, contudo, não esfriaram as comemorações pelos 80 anos de existência do Atlético-PR, comemorados no dia 26 de março. Até porque o time vem bem no Campeonato Paranaense, está invicto e tem a vantagem de jogar por quatro resultados iguais para levantar a taça. Depois das bodas, os torcedores voltaram a rivalizar com a diretoria. A Esquadrão (torcida organizada do clube) chegou a procurar o Procon na tentativa de congelar o preço da entrada a R$ 15. Como contrapartida, garantiriam estádio cheio nas partidas realizadas no Joaquim Américo. Em 2003, o Atlético teve a melhor média de público entre os times da cidade na série A – cerca de 10 mil espectadores por jogo, apesar da campanha inferior à de Coritiba e Paraná. O presidente do clube, João Augusto Fleury da Rocha, negou na terça, dia 30, qualquer possibilidade de discutir a questão do “congelamento”.

Mesmo tendo se afastado da presidência, Mário Celso Petraglia é, sem dúvida, o mais lembrado pelos torcedores durante as reivindicações. Por mais que o dirigente se defenda dizendo que o valor do ingresso não foi estipulado por ele ou pelo presidente do clube, mas pelo Conselho Deliberativo a partir de uma série de estudos, a onipresença de Petraglia à frente do clube nos últimos anos o deixou no papel de vidraça.

A bem da verdade, foi em sua gestão que o Atlético remodelou seu perfil e cresceu no cenário nacional. Do time que disputava a Segundona, que vivia à margem do título de campeão brasileiro do Coritiba em 1985, que não tinha um estádio com as dimensões do Couto Pereira e que não ofereceu resistência a uma equipe recém-criada (Paraná) que enfileirou um pentacampeonato estadual (93 a 97) ao Atlético que se conhece hoje, foram passos longos em um espaço de tempo razoavelmente curto.

Depois de um tricampeonato paranaense (2000 a 2002), um título brasileiro (2001), duas participações na Taça Libertadores da América e de ter revelado jogadores de qualidade (Paulo Rink, Oséas, Adriano, Lucas, Kléberson e Dagoberto), o Atlético-PR hoje utiliza em sua defesa a decantada organização enquanto clube de futebol, que tem um centro de treinamentos completo e um dos estádios mais modernos da América Latina, para tascar um valor de R$ 30 para o seus jogos. Se é justo ou não, é um referencial relativo. Se o time começar a ganhar e ameaçar com uma campanha como a que o levou ao título em 2001, vai sair barato para a sua fanática torcida. Mas se os resultados forem como aqueles dos últimos dois Brasileiros, as cadeiras numeradas não vão perder a tinta tão cedo.

*

Antes do Atlético-PR, a Federação Paulista já havia aumentado os ingressos. No Campeonato Paulista, o torcedor tinha de pagar ao menos R$ 20 para entrar no estádio. O que criou muita confusão e revolta de torcidas organizadas. Veja mais aqui e aqui.

Fabrício Rodrigues

Imagens: Lancenet, Guia Geográfico Curitiba e Furacão.com

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