O Fluminense de hoje está à deriva em relação a planejamento. Para sorte da torcida tricolor, isso ainda não prejudicou o time como no final da década passada. Naquela época, empresários colocavam jogadores no clube. Em 1995 deu certo, com o título Estadual e o quarto lugar no Brasileiro. Mas, no ano seguinte, a sorte não foi a mesma e a seqüência de rebaixamentos teve início.
A situação atual não parece tão grave. Economicamente a pindaíba é praticamente a mesma. Tanto que, ao invés de empresários de jogadores, o clube agora é dependente de seu patrocinador, que tem bancado as principais contratações da equipe. Tal cenário nem seria tão ruim se, na falta de um projeto por parte da diretoria tricolor, a Unimed apresentasse um. Mas não é o que acontece.
Prova disso é que há sérias dúvidas se os jogadores trazidos pela empresa do setor de saúde acrescentam algo ao futebol do Fluminense. Romário, Ramón, Edmundo, Roger, André Luiz e até Odvan e Danrlei já tiveram seus momentos, mas estão, na melhor das hipóteses, em um logo período de instabilidade. Talvez a chega de um ou outro desses nomes fosse extremamente saudável ao clube das Laranjeiras, mas todos ao mesmo tempo não é uma solução viável.
Para o patrocinador está ótimo. São estrelas que recebem bastante atenção da mídia. A marca da empresa é mostrada em jornais e televisões todo dia, sem que se compre o espaço publicitário (dependendo do horário e veículo, mais caro que o salário desses atletas). O retorno é mais ou menos assegurado.
O problema fica para o clube. O que fazer com esses jogadores? Em campo, o rendimento não é proporcional à atenção que recebem. Taticamente é um desafio montar uma equipe com os contratados sem sacrificar alguns setores. E só não é pior porque dificilmente todos jogarão ao mesmo tempo.
No início da década passada, a Parmalat investiu e contratou muitos jogadores para o Palmeiras. Mas era uma situação diferente. Em princípio, a empresa de laticínios italiana comprava esses atletas e podia revende-los depois. Além disso, só trazia jogadores que pudessem ajudar na formação de um esquadrão com a camisa alviverde. Agora, há suspeitas que a Parmalat lavou dinheiro nas operações financeiras envolvendo o futebol, o que não influi no fato de que as contratações eram tecnicamente bem feitas.
Para o Fluminense, é mais triste ainda pensar que o clube conta com uma excelente equipe de jovens. Ainda como resultado da estruturação promovida na época em que foi para a Terceira Divisão, o tricolor montou um invejável centro de formação na Baixada Fluminense. De lá saíram jogadores como Carlos Alberto, hoje no Porto, de Portugal.
Era a oportunidade de o clube reformular o elenco, com bons jogadores a baixo custo. Com um ou outro veterano (poderiam até ser algumas das atuais “estrelas”), comporiam um grupo sólido. Os resultados poderiam demorar uns anos, mas viriam. Em médio prazo, o ganho com a venda de algum desses atletas reduziria o rombo financeiro do clube.
Mas não. O Fluminense preferiu atender às necessidades imediatistas de seu patrocinador. Os jovens ganham poucas oportunidades e, quando podem, têm sido decisivos. Mas o time-base, até segunda ordem, conta com Ramón, Roger, Edmundo, Odvan e Romário. As revelações podem nunca vir por passar do tempo de aparecer ou até por desencanto pela falta de oportunidade.
Por enquanto, o clube tem sobrevivido no Estadual e na Copa do Brasil com certa desenvoltura. Mas, no Brasileiro, um planejamento equivocado é escancarado. Prova disso é que o Fluminense foi o único grande que não venceu nenhum clássico no Estadual do Rio. Pior, empatar já foi difícil. Perdeu duas para o Flamengo (3x4 e 2x3), uma para o Vasco (0x4, foto) e só então fez ponto, contra o Botafogo (0x0).
Por isso, o tricolor precisa saber logo qual seu projeto. Montar pseudo-esquadrões e botar em risco sua condição financeira e técnica ou investir na base que, afinal, já está lá nas Laranjeiras.
Ubiratan Leal
Imagem: Pelé.net e Léo Corrêa/O Dia