Acabaram as desculpas para o São Paulo. Após a derrota para o São Caetano, a diretoria do clube já admite que o time está com um crônico problema de “amarelar” nas decisões. As velhas explicações – o adversário era mais forte, o time estava em uma jornada infeliz, azar ou o juiz prejudicou – não são mais aceitas, pois a repetição de insucessos já não pode ser mais considerada um acaso.
Por isso, o clube contratou uma equipe de psicólogos para recuperar o espírito campeão dos jogadores. Cada um atuará em uma frente. “Em uma análise preliminar identificamos vários focos de abalo da confiança dos jogadores”, comenta Pablo M. Rocha, coordenador do grupo de psicólogos. “Admito que fiquei assustado quando vi que, mesmo com a boa infra-estrutura, o São Paulo tinha vários problemas que afetavam o desempenho em campo”, acrescenta.
O primeiro passo é acabar com o trauma do Corinthians. Apesar de ter vencido os últimos três confrontos diretos, ainda se teme a reação da equipe em uma partida decisiva diante dos alvinegros (as três vitórias foram em jogos de meio de campeonato). “Nesse aspecto, ter evitado o rebaixamento do Corinthians não foi muito bom, pois ver o rival na Segunda Divisão daria uma sensação de superioridade aos são-paulinos”, afirma Rocha, que, ainda assim, considera a atitude tricolor correta do ponto de vista esportivo.
Assim, os jogadores estão passando por várias seções de vídeo, em que assistem a grandes vitórias tricolores sobre o clube do Parque São Jorge. “A gente já começa a acreditar que é possível derrotar o Corinthians em uma final”, comenta o recém-chegado meia Marquinhos.
Outro aspecto que incomoda os são-paulinos é o apelido de Bâmbi, cultivado principalmente pelos corintianos. Gilberto Morais, psicólogo responsável por essa parte do tratamento, enfatiza que a idéia não é a depreciação dos homossexuais, mas tirar o caráter pejorativo do termo. “Da forma como é dito, o sentido literal do apelido se perde e fica só a idéia de diminuir o São Paulo”, conta, deixando claro que tem interesse especial no caso por ser são-paulino fanático. “Ainda não me recuperei da derrota para o Vélez na final da Libertadores de 94”, brinca. A orientação principal para os atletas é, em um primeiro momento, deixar-se chamar de Bâmbi, simplesmente ignorando o rival até que ele desista do apelido.
Mas os psicólogos também buscam causas indiretas para a falta de confiança, comenta Pablo Rocha. O excesso de confiança também atrapalha em alguns momentos. “A torcida são-paulina ainda se vê como bicampeã mundial e exige do time um desempenho semelhante ao do Real Madrid”, analisa. “Por mais que tentem evitar, os jogadores acabam acreditando um pouco nisso.” Ao se imaginar acima da média, o time cai muito nos momentos de dificuldade, pois a auto-estima não está consolidada.
Esse fenômeno explicaria derrotas como a do último domingo, frente ao São Caetano. Com a confiança de quem venceu 8 de seus 9 jogos da primeira fase, os são-paulinos entraram em campo como se fossem superiores e, ao primeiro sinal de dificuldade, sucumbiram diante das cobranças e da sensação súbita de inferioridade diante de um adversário forte e determinado.
A diretoria espera que o trabalho dos psicólogos dê resultado antes do fim da primeira fase da Copa Libertadores, aumentando as possibilidades tricolores nos mata-matas do torneio sul-americano. Os jogadores demonstram boa vontade, cansados também de tantas gozações. “Até domingo, diziam que nós e o São Caetano sempre amarelávamos. Depois do jogo, nem temos mais o consolo de não sermos os únicos”, disse um jogador que não quis se identificar.
Quem não está acreditando muito nessa medida é a torcida. Para ela, esse tipo de atitude só joga a responsabilidade nos jogadores e no coro da arquibancada, isentando os erros administrativos e a briga na política interna de culpa. “Enquanto um diretor afagar o jogador e outro criticar, enquanto uma facção defender o Cuca e outra negociar com outro técnico, é difícil de qualquer grupo trabalhar”, reclama Eduardo Ribeiro Filho, torcedor com bom trânsito nos corredores do clube do Morumbi. “Isso está assim há uns 10 anos. Não é à toa que só ganhamos Campeonatos Paulistas e um Rio-São Paulo nesse período.”
Ubiratan Leal
Imagem: Pelé.net
Obs.: Essa “reportagem” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levada a sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência.