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1/03/04

Variedades

Dá para se perder com tantos apelidos


O nome é uma espécie de retrato de uma pessoa, lhe dá identidade e a diferencia dos demais. Os jogadores de futebol brasileiros deveriam pensar mais nisso ao adotar um “nome artístico”. Não só porque o esquema atual (padronização zero) tende mais a confundir o torcedor, mas porque elimina a própria personalidade do jogador em muitos casos.

O mais comum é ver o uso apenas do primeiro nome ou de um apelido. Desse jeito, há uma legião de atletas com “nomes artísticos” rigorosamente iguais. O que o jogador muitas vezes não percebe é que, dessa forma, criam-se dúvidas a respeito de quem ele é, a menos que atue em grandes clubes ou na seleção.

Há casos em que isso é escancarado. Como no do lateral-direito Cafu. Não o do Milan, ex-Roma, São Paulo e Palmeiras. Mas sim, o ex-Peñarol, de nome real Luciano Barbosa (foto no alto). Quem recebe a notícia que há um Cafu no auri-negro uruguaio logo percebe que não se trata do capitão da seleção de 2002, mas um outro. Um mero “clone”. Por melhor que ele seja, há uma idéia de que o jogador não tem personalidade futebolística própria. Isso porque o próprio Cafu (agora, sim, o do Milan) já tem seu nome em homenagem a outro jogador, Cafuringa ponta-direita do Fluminense nos anos 70 do século passado.

Há muitos casos de confusão, às vezes até pitorescos. O São Caetano, em 2001, contratou o centroavante Magrão revelado pelo Palmeiras anos antes. Enquanto isso, o Magrão volante formado pelo Azulão fazia sua segunda temporada no Palmeiras. Pior, quando o Magrão centroavante foi para o Japão, o clube do ABC trouxe por empréstimo o Magrão volante. Até hoje deve haver torcedores que acham que existe apenas um Magrão.

Quando dois jogadores de mesmo “nome artístico” ficam na mesma equipe, logo se busca um diferencial. Menos mal quando se acrescenta o sobrenome, como foi feito com os Rogérios (Ceni e Pinheiro) no São Paulo. Mas o mais comum é acrescentarem um adjetivo pátrio, que soa estranho. Assim, o Flamengo do 2003 era uma legião baiana, com Fernando Baiano, Fábio Baiano, André Bahia e Luciano Baiano. Isso porque o Fernando nem baiano é, pois nasceu em São Paulo. Aliás, o Mineiro do São Caetano é gaúcho.

A Folha de São Paulo tentou usar um meio diferente. No Corinthians de 1994, os Marcelinhos eram diferenciados pelos sobrenomes (Surcin e Souza). Mas os próprios jogadores preferiam o uso do gentílico (Carioca e Paulista, respectivamente).

Para o Brasil, país com tantos Josés, Joões, Silvas e Souzas, o nome composto seria muito bem-vindo, pois reduziria a chance de haver homônimos. Isso já ocorre um pouco, com o surgimento de Reginaldo Araújo, Reginaldo Nascimento, Rubens Cardoso, Fábio Simplício, Júlio Baptista, Fabiano Heller, Daniel Carvalho etc.

Esse é o padrão básico adotado em quase todo o mundo. Em Portugal e Espanha, há alguns apelidos, como Luís Filgueiras que se transformou em Luís Figo, Juan Francisco que passa para Juanfran e Jesus que é chamado de Jesuli. Mas esses são minoria e são derivados do nome real do atleta, mantendo a capacidade de identificação. Nos outros lugares, como na Argentina, os apelidos dos jogadores são informais, usados por torcedores e imprensa como forma de demonstrar intimidade.

Gilberto Meazza

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