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6/02/04

Histórias

Um enclave palestino no futebol sul-americano

Ainda sem reconhecimento como nação independente, a Palestina usa o futebol como uma das formas de mostrar-se ao mundo. Afinal, a Autoridade Nacional Palestina é reconhecida pela Fifa e até tem uma seleção nacional. Por enquanto, os resultados não foram bons na Copa Árabe ou nas Eliminatórias para a Copa da Ásia. Mas, para uma seleção em formação, deu para animar. E o desenvolvimento do esporte na ANP deve muito à tradição, estrutura e influência que os palestinos sempre tiveram no futebol... chileno.


Em 20 de agosto de 1920, um grupo de palestinos que imigrou para o Chile resolveu criar o Club Deportivo Palestino. Poderia ser apenas mais um entre os 16 clubes profissionais de Santiago (veja lista no final do texto). Mas a colônia palestina do Chile cresceu, enriqueceu e se tornou influente. Para se ter uma idéia, o país transandino conta com cerca de 500 mil palestinos ou descendentes – a maior concentração fora do Oriente Médio –, alguns desses importantes empresários. Tanto que o Chile foi o primeiro país das Américas a reconhecer a ANP e a instalar uma embaixada na Faixa de Gaza.

E que fique claro que a ligação do Palestino com sua comunidade não se dá apenas nas cores e no nome (como em clubes de colônia brasileiros). Um ex-presidente do clube definiu o tricolor como “não apenas um clube esportivo, mas um representante de uma causa, de uma terra e de um país”. Assim, o Palestino se estabeleceu como um clube médio no futebol chileno. Não concorre com Universidad de Chile, Colo Colo ou Universidad Católica em popularidade, mas é o 6º clube com mais pontos em toda a história do campeonato local. Além dos três grandes, o Tino está atrás da Unión Española e do Audax Italiano, clubes com os quais protagoniza os “clássicos das colônias”.

A estréia do Palestino na elite chilena ocorreu em 1953. E foi logo mostrando força, conquistando o vice-campeonato ao lado do Audax Italiano (o campeão foi o Colo Colo). No ano seguinte, uma pequena queda (8º), antes de surpreender e conquistar o título nacional, com apenas 3 anos na elite. O domínio do tricolor foi tão grande que os seguidores mais próximos – Colo Colo, Universidad de Chile e Everton – ficaram a 9 pontos (sendo que a vitória valia apenas duas unidades na época).


Depois disso o Tino entrou em uma fase de grande instabilidade, brigando pelo título em algumas temporadas e fugindo do rebaixamento em outras. Até que, em 1970, o tricolor foi para a Segunda Divisão. Não ficou muito tempo por lá. Em 1973, estava de volta à elite para, no ano seguinte, ser vice-campeão, a apenas 2 pontos do Huachipato de Talcahuano. Os árabes (como foram apelidados os torcedores do time) estavam de volta ao topo. Em 75 e 76 o clube ficou em 5º e em 77 foi o 3º.

Em 78, o Palestino era novamente campeão chileno, conquistando ainda uma vaga para a Copa Libertadores do ano seguinte. A única jornada internacional do tricolor santiaguino não foi das piores. O clube foi o primeiro colocado de seu grupos na primeira fase garantindo uma vaga na etapa seguinte. É bem verdade, que a chave não era das mais difíceis, com O’Higgins, de Rancágua, e Portuguesa e Deportes Galícia da Venezuela. Nas semifinais, o Palestino empatou duas vezes com o Guarani (de Campinas) e perdeu outras duas para o Olímpia do Paraguai, que viria a conquistar o título continental.


Foi nesse período que o tricolor chileno teve seu maior jogador. Vindo do Internacional gaúcho, o zagueiro Elias Figueroa comandou a defesa da equipe entre 1977 e 1980. É considerado o maior jogador da história do futebol chileno e ganhou o prêmio de melhor jogador da América em 74, 75 e 76.

De novo, o clube entrou em fase negativa. Foram várias temporadas no pelotão intermediário até o rebaixamento em 1988. Nesse período, a única grande campanha tricolor foi em 1986, quando o time empatou na liderança com o Colo Colo e só perdeu o título em um jogo extra (2x0 para os albos). Não foram à Libertadores porque os estranhos critérios chilenos favoreceram o Cobreloa, terceiro colocado.

Foi apenas um ano na Segunda Divisão. Em 1990, o tricolor já terminava em 5º o Campeonato Chileno. A partir daí, apenas campanhas medianas, sem grandes riscos, mas longe do topo da tabela. Em 96, um pequeno susto com a necessidade de bater o Iquique na repescagem para não cair. O máximo que o tricolor conseguiu foi a terceira melhor campanha na primeira fase no Apertura de 2002. No entanto, a equipe caiu nas quartas-de-final para o pequeno Rangers, de Talca, nos gols fora de casa.

Mas não é apenas na torcida pelo Tino no Campeonato Chileno que a colônia Palestina relaciona futebol e raízes étnicas. Quando a ANP teve a inscrição aprovada pela Fifa, a comunidade logo se mobilizou. Aproveitando a estrutura do tricolor, os palestinos do Chile financiaram a preparação da seleção em Santiago. Além de alguns jogadores nascidos no Oriente Médio, se juntaram ao grupo americanos (quase todos chilenos) de origem palestina e o técnico Nicola Hadwa Shawhan, nascido na Faixa de Gaza, criado no Chile e também comandante do Palestino.


A escolha do treinador teve um teor ideológico. Em 2002, Hadwa foi demitido do La Serena por declarar-se abertamente em favor da causa palestina, o que teria causado constrangimento em parte da diretoria do clube, composta por judeus. Para reforçar ainda mais o quadro palestino, o técnico correu atrás de jogadores de projeção internacional com ascendentes na nação árabe. Os mais conhecidos são Luís Mussri (meia chileno) e Farid Mondragón (goleiro colombiano), ambos com presença na Copa de 98. Nada feito.

Porém, a colaboração sul-americana à causa palestina (ao menos no futebol) não parou aí. A Anfa (Asociación Nacional de Fútbol Amador, entidade que organiza a terceira e quarta divisões no Chile) convidou uma seleção palestina para disputar a Terceira Divisão chilena em 2003. Na realidade, é uma equipe de jovens com raízes palestinas (chilenos, norte-americanos e até israelenses, libaneses e jordanianos), considerada uma filial sul-americana da seleção palestina principal.

O curioso é que a equipe não tem ligação com nenhum clube. É chamado de “Selección Palestina” e, segundo a própria entidade, foi convidada para “se integrar a um campeonato competitivo e desenvolver o futebol em jogadores que têm em comum a descendência com a Terra Santa”. Claro, os jogos são realizados no estádio do Palestino, no bairro de Las Condes (espécie de “Centro comercial novo” de Santiago).

Na temporada de estréia, a Seleção Palestina não foi muito bem (em bom português e deixando o eufemismo de lado, foi absurdamente mal). Em 28 partidas, os palestinos venceram duas (nenhuma em casa), empataram 3 e perderam 23, marcando 14 gols e sofrendo 74. Claro, ficou em 15º (último) lugar do Grupo Norte da Terceira Divisão, 13 pontos atrás do Cristo Salva.


Mesmo assim, foi verificada uma grande evolução no futebol palestino. A seleção sub-24 fez uma campanha relativamente boa no Pré-Olímpico asiático, derrotando o Nepal na primeira eliminatória e quase passando pelo “tradicional” Kuait na segunda, o que daria uma vaga na fase final (são três vagas para a Ásia nos Jogos de Atenas). Esse time contava com 10 jogadores nascidos no Chile, Eduardo Díaz Lama, Tarek Saba, Cristobal Nazir, Guillermo Zarzar, Abraham Arbouch, Roberto Bishara, Fabián Bishara, Roberto Ketlum, Jorge Lema e Fuad Quisille. Inclusive, esse último foi revelado pela filial palestina na Terceira Divisão do Chile.

O curioso é que, enquanto a seleção palestina evolui com ajuda decisiva dos chilenos, o Palestino sofre com séria crise financeira. O clube quase foi rebaixado administrativamente para a Terceira Divisão em 2003 por não ter dinheiro para arcar com suas despesas operacionais. Conseguiu sobreviver e ainda fez uma campanha razoável (ao menos, evitou o rebaixamento). Entre os jovens que recheiam o elenco tricolor está o atacante Villanueva, um dos destaques da seleção chilena no Pré-Olímpico.

E, no caso do Palestino, investir nos jovens não é só uma forma de sobreviver financeiramente. Pode estar aí o futuro da seleção da nação que lhe dá nome. Dos 10 chilenos que defenderam as cores palestinas no pré-olímpico asiático, os irmãos Bishara e Ketlum foram revelados pelo tricolor de Santiago.


Palestino x Unión Española, um dos confrontos conhecidos pelos chilenos como “clássicos das colônias”

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Apesar de ser conhecido como tricolor, o Palestino possui 4 cores na camisa: verde, vermelho, branco e preto. Os mesmos tons da bandeira da Palestina

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Se alguém achou que uma comunidade com 500 mil integrantes não é tão grande, imagine o quanto isso representa em um país com 15 milhões de habitantes como o Chile.

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Aliás, já falamos de como há clubes por Buenos Aires. Mas Santiago não fica muito atrás. Veja os clubes que dividem a atenção dos torcedores da capital chilena: Colo Colo, Universidad de Chile, Universidad Católica, Unión Española, Palestino, Audax Italiano, Santiago Morning, Magallanes, Barnechea, Uniacc (Universidad de las Artes, Ciências y Comunicación), Seleção Palestina, Cristo Salva, Quilicura, Hosanna, Ferroviários e Luis Mussri.

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Um dos adversários do Cruzeiro na Libertadores é o Universidad Concepción. Se algum comentarista ou narrador disser que esse é o maior clube de Concepción (que ficou conhecida por abrigar o Brasil na primeira fase do Pré-Olímpico) saiba que é bobagem. Os principais times da segunda maior cidade chilena são o Deportes Concepción, o Arturo Fernández Vial e o Huachipato (esse último da vizinha Talcahuano).

Ubiratan Leal

Imagens: La Nación, La Cuarta, Colo Colo site não-oficial e Anfa

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