O certo seria usar o ranking apenas como diversão. Para criar um fato meia-boca que permita que um torcedor se divirta às custas do amigo enquanto toma uma cerveja na sexta-feira à noite. Ótimo. É mais um argumento tendencioso que entra na forma mais saudável de lidar com o futebol, na brincadeira.
O problema é que há muita gente que leva essa história de ranking a sério. A primeira a fazer isso é a imprensa, que não se cansa de repetir a mais que manjada manchete “Brasil mantém a liderança do ranking de seleções da Fifa”. E daí? O que o Brasil ganha com isso? Todo mês é assim desde a conquista da Copa de 1994, salvo em um período entre a Copa das Confederações de 2001 e o Mundial de 2002, quando a liderança foi francesa.
Há casos piores, como os que o próprio veículo desenvolve rankings para gerar matérias, como a supracitada Folha de São Paulo. O diário divulga anualmente a pontuação dos melhores clubes do Brasil na história (o Palmeiras lidera) e um similar só contando competições internacional (o Real Madrid está no topo). Outra lista conhecida é a da Placar para os Campeonatos Brasileiros, que tem a vantagem de ser mais realista que a da CBF (o que não significa muito).
O mais triste é que entidades como Fifa, Uefa, Conmebol e CBF usam esses levantamentos como critério para selecionar cabeças-de-chave em sorteios de Eliminatórias e até na escolha de participantes de uma competição (nesse caso, o uso do ranking é bastante suspeito). O máximo que seria admitido desses dados puramente estatísticos (sem nenhuma base técnica) é na definição de quantos clubes cada país tem direito em Ligas dos Campeões, Libertadores, Copa Sul-Americana e Copa da Uefa.
Tudo isso porque não há ranking com critério perfeito. As listagens históricas sempre esbarrarão nas diferenças de cada época. Por exemplo, o Campeonato Paulista hoje deveria ter menos valor que nos anos 70, pois a importância do torneio (e o empenho dos clubes em ganhá-lo) caiu muito. Mas nenhum ranking considera isso. E talvez ele se inviabilizasse se fosse ponderar cada pequena situação.
As que se baseiam nos resultados recentes nunca conseguem balancear uma vitória sobre um adversário forte outra sobre um fraco. Quando o faz, é de forma equivocada. E aparecem fenômenos como a seleção da Colômbia entre os 5 primeiros para a Fifa, mas sem forças para conseguir uma das vagas sul-americanas para a Copa.
E é muito fácil perceber como isso é claro. Uma listagem recente coloca o Santos como 3º melhor clube do mundo, à frente do Boca Juniors. O Santos é, com o Cruzeiro, o melhor time do Brasil. Mas está longe de estar em um hipotético pódio mundial. Da mesma forma como o Brasil se manteve na ponta do ranking da Fifa mesmo tendo resultados muito piores que os da França.
É simples: independentemente do critério, o ranking reflete a realidade a que se propõe? Quase nenhum o faz. E por isso só são interessantes para uma conversa despretensiosa e que não pretende ter um fim.
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Ah, e como poderiam ser definidos os cabeças-de-chave se os rankings fossem desconsiderados. Simples, use algum critério mais objetivo. Pode ser injusto, mas, ao menos, é mais claro. Como, por exemplo, usar o desempenho na última edição da competição.
Ubiratan Leal
Imagem: Fifa