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10/02/04

Fique de olho

Para ele, Portugal é pouco


Preocupados com a disputa entre Zidane e Nedved pelo posto de melhor jogador de 2003, poucos pararam para ver as indicações que vinham de outras categorias. A revista World Soccer, por exemplo, além de dar ao tcheco o prêmio de melhor do mundo no ano passado, também homenageou o Milan e seu treinador, Carlo Ancelotti, como time e técnico de 2003. Nada demais, se não fosse o terceiro colocado na votação dos treinadores: o português José Mourinho. O mesmo que, semanas depois, seria eleito o melhor treinador da temporada pela Uefa.


É claro que essas votações são suspeitíssimas, sobretudo a da entidade européia, realizada via internet. Analisando os resultados, há uma sensação forte de que os torcedores do Porto participaram em massa dessa eleição, inflando o resultado dos indicados dragões. Afinal, quem acha que Paulo Ferreira foi o melhor lateral-direito da Europa em 2003, com mais de 37% dos votos e à frente de Lilian Thuram? Pior, Ricardo Carvalho ficou como terceiro melhor zagueiro do Velho Continente (14,63%, pouco menos que Nesta e Maldini), Deco foi o segundo melhor meia ofensivo (38,55%, atrás apenas de Zidane) e Derlei foi considerado o quarto melhor atacante da Europa (12,61%), perdendo para Henry, Van Nistelrooy e Makaay – mas vencendo Ronaldo e Shevchenko.

Vendo por esse lado, os 64,3% de José Mourinho – índice menor apenas que o de Nedved – perdem parte do mérito. Mas o mesmo não se pode dizer na votação da revista inglesa, feita entre os leitores (a maioria do Reino Unido). É significativo o fato de Mourinho perder apenas de Ancelotti e Marcello Lippi (Juventus), ficando imediatamente à frente de Alex Ferguson (Manchester United), Martin O’Neill (Celtic), Carlos Bianchi (Boca Juniors) e Raynald Denoueix (Real Sociedad).

Assim, não seria exagero considerá-lo um dos treinadores europeus com maior potencial para os próximos 10 anos. E o comandante portista tem consciência disso. Até demais. Em suas declarações e nas medidas tomadas, é indisfarçável uma dose acentuada de arrogância. Auto-declarado melhor treinador de Portugal, não colheu grandes amigos entre os colegas de profissão.

Inclusive, uma bela mostra disso foi dada em uma entrevista – que se 5 brasileiros a acompanharam foi muito – concedida pelo técnico à equipe da RTP (Rádio e Televisão Portuguesa) há duas semanas. Ficou claro que se trata de uma pessoa extremamente inteligente. Respondia de forma objetiva e convicta a todas as perguntas, raramente fugindo da resposta. Auto-suficiente, não se importava em desagradar alguém com as declarações. Assim, criticou a diretoria do Porto em alguns aspectos, principalmente os equívocos na inauguração precipitada do estádio do Dragão.

Também disse que teria dificuldades em trabalhar com Ronaldo, pois não suportaria insubordinações como a ida do atacante para a Inglaterra no dia de folga para assistir a uma partida do Chelsea. Inclusive, fez uma crítica velada ao seu compatriota Carlos Queiroz (atual comandante do Real Madrid). Mourinho afirmou que não é possível dar tanta liberdade a um grupo sem que se perca o controle. Por aí já se nota que o portista é adepto de comandos centralizadores.

E os resultados acabam dando alguma razão ao treinador. Sob seu comando, o Porto foi campeão português em 2002-03 com um domínio assustador. Na atual temporada, os dragões estão invictos após 20 rodadas e lideram com 7 pontos de vantagem sobre o Sporting. Porém, os melhores resultados do Porto de Mourinho vieram em competições continentais. Na temporada passada, os portistas fizeram uma campanha brilhante e conquistaram a Copa da Uefa pela primeira vez. Agora, os campeões portugueses já estão nas oitavas-de-final da Liga dos Campeões, passando pelo perigoso Olympique Marseille na primeira fase.

Tudo isso com um futebol ofensivo, com marcação pressão e movimentação permanente de todos os jogadores. O preparo físico é fundamental para executar seu esquema. Aliás, na cartilha de Mourinho, não há espaço para improvisações demais. Dentro do possível, tudo deve estar planejado. Por isso, exige esforço e concentração total de jogadores e direção inclusive nos treinos.

Para entender como ele montou esse time do Porto, é bom voltarmos ao início da carreira do treinador. Mourinho nunca jogou futebol profissionalmente. Só não pode ser rotulado de 100% estudioso porque cresceu no meio do futebol, já que seu pai Félix foi goleiro e técnico. Ainda assim, seu início de carreira foi estranho. Professor de educação física, fez curso de técnico com Andy Roxburgh (comandante da Escócia na Copa de 90). Andou por pequenos clubes, mas só teve chance em um grande – o Sporting, em 1992 – de forma inusitada: como tradutor do inglês Bobby Robson, então técnico dos leões.

Foi a grande sorte de o português. No ano seguinte, estava como assistente de Robson no Porto. Após 3 anos no clube das Antas, foi secundar o inglês no comando do Barcelona. Em 1997, Robson foi promovido a diretor técnico e o setubalense permaneceu como assistente, agora de Louis van Gaal. E assim foi até 2000 quando o holandês saiu do banco do Camp Nou.

Foi quando Mourinho decidiu se tornar treinador “titular”. Começou em alta, logo no Benfica. O clube encarnado estava – como sempre – em grave crise técnica e institucional. Mas o trabalho começou muito bem. O setubalense reergueu a equipe, colocando-a de volta à disputa do título. O auge foi a vitória por 3x0 sobre o Sporting no clássico lisboeta.

Mas a queda foi repentina. Mais do que se pode imaginar. Dois dias após a goleada sobre os leões, Mourinho pediu uma reforma no contrato para a diretoria benfiquista. Foi demitido. O motivo, claro, não foi apenas a requisição do treinador, mas também o fato de o grupo que administrava o clube da Luz já estar comprometido com Toni para a temporada seguinte.

Acabou completando a temporada na União Leiria. O que acabou sendo bom. Os leirienses, sob o comando de Mourinho, ganharam ritmo e terminaram a Superliga em 5º lugar (atrás de Sporting, Boavista e Porto), a melhor da história. O Benfica, que afundou depois da saída do setubalense, terminou em uma patética 6ª posição. Ao final da temporada, Mourinho desafiou e disse que, se pegasse o Benfica e acrescentasse alguns jogadores da União Leiria, levaria os encarnados ao título.

Acertou com o Porto e, para manter a coerência, levou alguns jogadores da União Leiria. Assim, chegaram às Antas o atacante brasileiro Derlei, Nuno Valente e Tiago, além de Maniche, esquecido na equipe B do Benfica. A primeira temporada foi de adaptação, com o título sportinguista. Os portistas tiveram de se contentar com a 3ª posição e uma vaga na Copa da Uefa.

Com o grupo definido, o treinador buscou passar sua autoconfiança para os jogadores. Deu certo, tanto que o Porto não sofre em momentos decisivos como as equipes portuguesas costumam fazer. Mourinho procura defender bastante seus comandados, o que contribui para manter a respeitabilidade no grupo. O problema é que seu ego cresce e não se sabe até quando isso não terá reflexo em campo.

No último dia de janeiro, o Sporting empatou em casa (1x1) com o Porto em um jogo que pode ter sido decisivo para o bicampeonato do clube nortista. Ao final da partida, Mourinho se disse desgostoso com a atitude de jogadores do Sporting, que estariam mais preocupados em simular faltas e tirar vantagem das situações do que em jogar futebol. A crítica era direta a Liédson, que sofreu o pênalti que resultou no gol lisboeta enquanto alguns atletas estavam preocupados com João Pinto, caído fora do campo.

Na entrevista coletiva, Mourinho disse que pedirá para sair no final da temporada (seu contrato vai até 2006), pois não suportaria mais essas situações, comuns no futebol português. Em princípio, não passa de uma manobra do técnico para, aos poucos, acelerar sua ida para além das fronteiras lusitanas. Ele nunca escondeu que pretende imigrar, já tendo, inclusive, pensado em como seguir com a educação escolar dos filhos em um país estrangeiro.
O treinador olha com carinho para Inglaterra e Itália e uma transferência para um desses países no verão europeu não é de todo descartada, apesar de ainda ser menos provável que a permanência na cidade do Porto. De qualquer forma, o sonho de Mourinho não está em terras inglesas e italianas, mas no Barcelona.

Autoconfiança e capacidade não faltam ao técnico português. Seu maior problema é, por excesso da primeira, acabar pulando alguma etapa. Além disso, ele já colecionou uma quantidade pouco recomendável de inimigos. Ainda assim, é importante observar de perto os passos mais que planejados do atual comandante do Porto.

*

Em um (suposto) raro caso de descontrole emocional, após o jogo com o Sporting, Mourinho teria invadido o vestiário adversário e rasgado uma camisa dos leões. Teria ainda dito que gostaria que o lateral Rui Jorge morresse em campo. Claro, essa é aversão sportinguista dos fatos, que estaria comprovada em vídeos. Mas o desmentido portista não foi dos mais incisivos. Por causa das confusões pós-clássico, ambos clubes romperam relações.

*

Caso você tenha ficado curioso em saber qual o time dos melhores de 2003 na eleição da Uefa, aí vai: Buffon; Paulo Ferreira, Nesta, Maldini e Roberto Carlos; Figo, Beckham, Zidane e Nedved; Henry e Van Nistelrooy.

Ubiratan Leal

Imagens: Yahoo e FC Porto

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