Comecemos por baixo. Se formos levar a estatística às últimas conseqüências, o pior time de primeira divisão da Europa nunca poderá ser conhecido. Afinal, não há campeonatos continentais que apurem as piores equipes. Talvez, então, seja interessante verificar o último colocado das piores ligas nacionais do Velho Continente.
Se tomarmos o pouco confiável ranking da Fifa como parâmetro, os piores europeus são San Marino, Luxemburgo, Liechtenstein e Andorra. Liechtenstein não tem liga (o Vaduz, principal time do país, joga na Challenge League, a Segunda Divisão da Suíça). Em Luxemburgo, os dois últimos após metade do campeonato, Rumelange e Mondercange, têm campanhas ruins, mas normais. São 14 pontos em 18 partidas.
No entanto, não faltam histórias interessantes nos dois outros países. Casos como o dos samarineses do Montevito, que fizeram apenas 2 pontos em 14 jogos pelo Grupo B da primeira fase do campeonato local. No trajeto, derrotas em casa por 5x0 para o Murata e 6x1 para o Juvenes.
Porém, a campanha mas bizarra é a do Engordany, último colocado da Primeira Divisão de Andorra. O clube até tem aproveitamento melhor que o Montevito, pois juntou 4 pontos nos mesmos 14 jogos. Mas é difícil defender uma equipe que perde em casa de 9x0 para o Don Pernil Santa Coloma e do Sant Juliá, 8x0 do Encamp e 5x1 do Ranger’s Pizzeria Venecia. E, fora de casa, leva 7x1 do Principat e 10x0 do Sant Juliá. Por fora de casa e em casa entenda-se o mando, já que quase todos os jogos da liga andorrana são disputados no estádio Aixovall, em Sant Juliá.
Saindo das excentricidades e mirando campeonatos com um mínimo de profissionalismo e competitividade, a pior campanha é a do Ancona. Afinal, o clube italiano pode até ser melhor que o último colocado de Israel ou da Romênia, mas não dá para comparar a estrutura e orçamento dos biancorossi com o Maccabi Ahi Nazareth ou o Petrolul Ploiesti.
Após 21 rodadas, os anconitanos empataram 6 e perderam 15. Nenhuma vitória. Como a liga italiana não está em sua fase mais brilhante e com abundância financeira, uma campanha dessas não se justifica. Até porque, no papel, há alguns jogadores de razoável capacidade no time, como o meia sueco Daniel Andersson e o dinamarquês Jorgensen, além dos – geralmente – eficientes atacantes Ganz e Hubner.
Não deu certo. O clube paga pela instabilidade e falta de padrão de jogo. Luigi Simoni, técnico que levou o Ancona à Serie A, foi substituído pelo inexperiente Leonardo Menichini. Com 19 jogadores novos, o time não se encontrou, colecionando derrotas. Para piorar, a diretoria resolveu trocar de treinador duas vezes até fevereiro, o que ajudou a desconstruir ainda mais o pouco de esquema dos biancorossi. Por enquanto, o comandante é Giovanni Galeone, que estava inativo há dois anos e meio e tem fama de ser uma versão italiana do “rei do acesso”.
No final do primeiro turno, o Ancona estava com 5 pontos, metade do penúltimo colocado (o Perugia, que também não venceu até agora, mas ainda que conseguiu mais empates). Por isso, resolveu investir. Chegaram ao clube da região de Marche o meia Dino Baggio, o goleiro Hedman (titular da Suécia na Copa de 2002) e o artilheiro brasileiro Jardel.
Os resultados não são bons. Em 4 partidas pelo returno, apenas 1 ponto. Se serve de consolo, esse empate foi conquistado contra a Roma, vice-líder da liga. Mas é necessário dizer que os romanos estavam bastante desfalcados e fizeram uma partida terrível (o que também não é desculpa). Há problemas em todos os setores. A defesa é a mais vazada, com 39 gols (mesmo patamar do Perugia). O ataque, mesmo com os veteranos artilheiros, marcou apenas 8 vezes, mesmo atuando em um teoricamente ofensivo 4-3-3. Por isso, a chance de o Ancona manter-se na elite é mínima. Faltam 13 rodadas e o time está 16 pontos atrás da linha de salvação.
O outro extremo
Em tese, o melhor time da Europa é definido pela Liga dos Campeões. Se alguém considera a fórmula – com mata-mata – passível de injustiças, pode escolher entre os melhores nas ligas nacionais, como Real Madrid, Arsenal, Manchester United ou Milan. No entanto, não vem de nenhum desses clubes a campanha mais espetacular da margem leste do Atlântico Norte.
O exemplo de infalibilidade vem do Celtic. Afinal, o clube escocês venceu 23 de suas 24 partidas, um aproveitamento de 95,8%. O curioso é que o único empate veio logo na partida de estréia, um 0x0 na casa do Dunfermline. Depois, nem os dois clássicos já disputados com o Rangers foram suficientes para reduzir o ritmo de vitórias do clube dos católicos de Glasgow.
O maior mérito da equipe é ter mantido o conjunto montado pelo técnico Martin O’Neill há duas temporadas. Com isso, o Celtic não é brilhante, mas não se escora em um ou outro jogador para vencer. Mesmo a dependência dos gols do atacante sueco Henrik Larsson diminuiu, já que o inglês Chris Sutton e o galês Hartson finalizam com eficiência similar.
Claro que a fraqueza da Scottish Premier League ajuda muito. Mas não se pode desvalorizar uma equipe que vence 23 partidas consecutivas, já que ninguém consegue evitar uma má jornada, um dia de azar ou um erro de arbitragem por tanto tempo. O Rangers, por exemplo, já empatou 3 e perdeu uma partida (sem contar os clássicos da Old Firm). Por isso, os aplausos não são dirigidos à qualidade do time de Glasgow, mas à sua solidez.
Até porque a Liga dos Campeões mostrou que, fora da Escócia, o Celtic ainda tem muito a evoluir. A equipe lutou até os últimos minutos da última rodada, mas foi desclassificada na primeira fase, atrás de Lyon e Bayern Munique. Com 7 pontos, o Celtic garantiu um lugar na Copa da Uefa. Coincidentemente, o 4º colocado (também com 7 pontos, mas com pior resultado no confronto direto com os escoceses) foi o Anderlecht, outro time que prima pela campanha quase irretocável na liga nacional.
Em 22 jogos, o clube de Bruxelas venceu 20, empatou um e perdeu outro. Ao contrário do Celtic, tal retrospecto já se ensaiou no início da caminhada. Os violetas venceram os 7 primeiros jogos. Outra diferença com a campanha dos alviverdes escoceses é que os líderes da Jupiler League não passaram incólume pelos clássicos. O empate veio na 8ª rodada, em Bruxelas, com o Club Brugge. A única derrota também foi na capital belga, diante do terceiro grande do país, o Standard Liège.
Pode não parecer significativo, mas o elenco composto pelo defensor finlandês Tihinen, o problemático e talentoso meia sueco Par Zetterberg, o atacante sul-coreano Seol Ki-Hyeon e o marfinense Dindane é o mais consistente da Bélgica. O que não quer dizer que os estrangeiros fazem o Anderlecht, já que Vanderhaeghe, Baseggio e De Boeck são importantes no esquema do técnico Hugo Broos.
Na Liga dos Campeões dessa temporada, os eficientes Celtic e Anderlecht se enfrentaram. Uma vitória para cada lado, mostra de que a infalibilidade de ambos se dá apenas no âmbito doméstico
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Veja a campanha do Ancona até agora: 0x2 Milan, 1x3 lecce, 1x1 Modena, 0x3 Roma, 0x3 Udinese, 2x3 Juventus, 0x0 Reggina, 0x0 Siena, 0x3 Internazionale, 1x1 Brescia, 0x2 Sampdoria, 2x3 Bologna, 0x1 Lazio, 0x1 Chievo, 0x2 Parma, 0x2 Empoli, 0x0 Perugia, 0x5 Milan, 0x2 Lecce, 1x2 Modena e 0x0 Roma.
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Os 24 jogos invictos do Celtic: 0x0 Dunfermline, 5x0 Dundee United, 2x1 Partick Thistle, 5x1 Livingston, 1x0 Dundee, 3x0 Motherwell, 2x1 Hibernian, 1x0 Rangers, 5x0 Heart of Midlothian, 4x0 Aberdeen, 5x0 Kilmarnock, 5x0 Dunfermline, 5x1 Dundee United, 3x1 Partick Thistle, 2x0 Livingston, 3x2 Dundee, 2x0 Motherwell, 6x0 Hibernian, 3x0 Rangers, 1x0 Heart of Midlothian, 3x1 Aberdeen, 5x1 Kilmarnock, 4x1 Dunfermline e 2x1 Dundee United.
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A caminhada tranqüila do Anderlecht na Bélgica: 3x1 Antwerp, 3x1 Gent, 3x0 Sint Truiden, 1x0 Beveren, 6x0 Lokeren, 5x1 Westerlo, 4x2 Heusden-Zolder, 1x1 Club Brugge, 1x0 Charleroi, 4x0 GBA, 1x0 Excelsior Mouscron, 1x4 Standard Liège, 2x0 Mons, 2x1 Lierse, 1x0 Genk, 3x2 Cercle Brugge, 4x1 La Louvière, 2x0 Antwerp, 2x0 Gent, 3x1 Sint Truiden, 3x2 Beveren e 2x1 Lokeren.
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Em 19 partidas, o Basel, da Suíça, também está com campanha invejável (18 vitórias e um empate). Os principais jogadores do time são os irmãos Murat e Hakan Yakin, ambos suíços de família turca. Mas, em comparação com os feitos de Celtic e Anderlecht, o Basel acaba ofuscado. Até porque a campanha européia do clube da Basiléia foi mais fraca que a de escoceses e belgas.
Ubiratan Leal
Imagens: BBC Sport, Viktoria Mömlingen, La Gazzeta dello Sport e Uefa