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4/02/04

Cultura & Mídia

Imprensa raramente vê meio-termo

Quem já vasculhou os porões desse site já deve ter visto nosso FAQ, a famosa seção de frequently asked questions*. A página está imutável desde que esse site entrou no ar em julho do ano passado (inclusive, está meio desatualizada). E uma das perguntas até hoje gera discussão. Afinal, Robinho é craque ou apenas um malabarista? Depois de tanto tempo, um vice-campeonato da Libertadores e outro brasileiro, além de um mal-sucedido Pré-Olímpico, a imprensa continua com os mesmos equívocos que motivaram a colocação daquela pergunta no nosso FAQ.

A avaliação do atacante santista é apenas um caso dentro da enorme falta de ponderação da imprensa brasileira. Como muitos comentaristas dividem o mundo do futebol em esquadrões/craques e timecos/pernas-de-pau, inevitavelmente as posições não se sustentam diante dos fatos (ninguém é absolutamente bom ou ruim). Depois de um tempo, o ouvinte/telespectador/leitor observa uma despudorada mudança de opinião por parte do jornalista.

Não há caso recente tão evidente quanto o do Pré-Olímpico. Robinho e Diego (e mais alguns outros jogadores da seleção sub-24) eram tratados por boa parte da imprensa como craques já formados, integrantes de uma das melhores seleções olímpicas que o Brasil já teve. Foi só perder para o Paraguai que um virou imaturo, o outro é arrogante e um terceiro ainda teria muito a aprender antes de se achar digno de usar a camisa da seleção. Na verdade, quem mudou não foi o jogador, mas a imprensa.

Os jovens não eram tão bons antes de começar o torneio ou não são tão ruins agora. Mais provável que nenhum dos dois. Mudar de opinião é legítimo e todos os cidadãos têm o direito de fazê-lo. O pecado da imprensa são outros: manter uma posição inicial insustentável (em bom português, é pedir para ser desmentido) e não admitir a mudança repentina de opinião. O que custaria dizer um “eu me enganei, esse jogador não é tão bom quanto eu achava”?

É mais fácil esconder os comentários passados e seguir em frente. Comentar sempre baseado no último fim-de-semana dá mais garantia de acerto. Difícil é para o torcedor, que não sabe mais o que pensa.

*
O curioso é que muito jornalista afirma que jogadores (mesmo os jovens) não podem errar quando vestem a camisa da seleção. Mas esses mesmos comentaristas cometem erros como o descrito acima e têm mais tempo de carreira do que esses atletas têm de vida. Não foi tempo suficiente para aprender? A não ser que esses jornalistas achem que, com o público, é permitido errar.

Ubiratan Leal

*O nome “frequently asked questions” é pura convenção, já que ninguém fez aquelas perguntas a algum colaborador do Balípodo. Nota mental: arranjar um nome em português para a página, acabando com esse anglicanismo mais que dispensável.

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