Por uma conjunção astral ainda não explicada, apenas festejada, as emissoras de televisão brasileiras redescobriram que as ligas européias de futebol são opções mais que interessantes para preencher a grade de programação do fim-de-semana. O problema é que nem sempre se faz da melhor forma possível. Falar de futebol internacional não é apenas sentar diante do monitor e dizer o que se vê.
É preciso entender a mecânica do futebol praticado no país de onde vem as imagens. O comentarista que aplicar a lógica brasileira para equipes italianas, por exemplo, está fadado a errar. Na Bota, a importância tática é absurdamente maior que aqui. Portanto, comentar com base na brasileiríssima ênfase na técnica individual do jogador não faz sentido. Pode até estar certo no conceito, mas não é assim que técnicos, torcedores e jogadores italianos pensam. Por isso sobram indagações de como um jogador muito bom é reserva de outro ruim.
Mas não é só isso. Questões como rivalidades locais e históricos nos confrontos podem ter grande influência no desenvolvimento do jogo, e o comentarista não pode ignorar isso. Parece fácil, mas não é. Muitos podem achar que, pelas conquistas, o Bayern de Muique é o maior rival do Borussia Dortmund. Mas a vizinhança com a Gelsenkirchen do Schalke 04 é mais forte. Assim como muitos já falaram na inimizade entre torcedores de Verona e Chievo. Os helladini (torcedores do Verona) não morrem de amores pelos simpatizantes do Chievo, mas a maior rivalidade é com o Vicenza e o Brescia. Inclusive, os torcedores do Chievo são criticados justamente por gostarem do outro time da cidade.
Por fim, algo mais importante. O comentarista deve acompanhar de verdade as notícias da liga com a qual trabalha. Não basta decorar a escalação, mas também saber quem está em má fase (nem sempre a reserva é por birra do treinador), qual o perfil do técnico, eventual crise no clube, possíveis contratações e até situação financeira (na moda hoje). Tudo isso pode influenciar o desempenho dos times em campo e a cobertura de uma liga européia nunca conta com repórter de campo. Assim, o comentarista deve assumir o papel de provedor das informações.
O problema é que, muitas vezes, percebe-se que, por mais que o comentarista tenha corrido atrás das informações básicas, falta suporte para as opiniões ou explicações convincentes para o que ocorre durante a partida. O telespectador pode nem se dar conta, mas não recebe uma transmissão completa.
Por isso, a montagem de uma equipe de transmissão para um jogo europeu deve seguir os mesmos critérios da cobertura de esportes amadores. Afinal, não se deve colocar um jornalista que só acompanha futebol para comentar basquete (se bem que já se viu o Tostão completamente deslocado e contrariado comentando basquete feminino nas Olimpíadas de Atlanta). Quando se pretende fazer algo sério, contrata-se um jornalista que acompanha basquete ou um ex-jogador desse esporte.
Pois então, não se deve colocar qualquer comentarista de futebol para falar da Premiership ou da Liga Espanhola. E não é tão difícil. Há vários jornalistas com interesses especiais – por preferência pessoal, profissional ou étnica – em futebol inglês, alemão, italiano, espanhol e até japonês. Como Sílvio Lancelotti, Antero Greco, Cláudio Carsughi e Cassiano Gobbet com a Itália e Roberto Petri com a Argentina. É só procurar.
Ubiratan Leal
Imagem: Marca