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26/02/04

E se...

E se os clubes usassem o auxílio-doença?

Não se trata de nenhum clube de nome estranho de algum país desconhecido. A própria política corintiana de levar os jogadores ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) pode fazer com que o clube perca uma de suas principais contratações para 2004. Marcelo Ramos não aceita ver seu atual salário, que beira os R$ 40 mil, reduzido a menos que o atual teto da previdência social, R$ 2,4 mil.

A polêmica teve início na última quinta-feira, quando o advogado corintiano João Zanforlin se dirigiu ao departamento médico do clube para pedir que Marcelo Ramos assinasse uma procuração com fins de representá-lo junto ao INSS para o requerimento de benefício. O jogador, assustado, não entendeu do que se tratava. Quando explicado, ficou inconformado e saiu do Parque São Jorge sem nem ao menos terminar seu tratamento.

Marcelo Ramos se contundiu no dia 8 de fevereiro durante a derrota para a Portuguesa no Morumbi. No domingo de carnaval, o afastamento completou quinze dias e, segundo a lei que rege as relações de trabalho e os benefícios do INSS, acaba a obrigação do Corinthians de pagar o salário. A partir do décimo sexto dia, o jogador tem direito ao Auxílio-Doença, pago pelo INSS.

“Eu não sabia dessa política do clube”, disse o atacante em entrevista coletiva convocada pelo procurador do jogador. “Eu tenho todo um nível de vida que faço com base nos meus salários atuais, não posso vê-lo reduzido dessa forma para pouco mais de R$ 1,9 mil. Assim eu não consigo me manter em dia com as contas.”

Não o animou a explicação de que, por se tratar de acidente de trabalho, o jogador teria um ano de estabilidade no Corinthians após seu retorno. “Eu tenho contrato até o final do ano. Quem garante que eu vou querer continuar aqui no ano que vem? Aliás, não sei nem se vou continuar aqui nessa segunda-feira.”

Marcelo Ramos não é o primeiro
Antônio Roque Citadini, por sua vez, diz que a política do clube não é novidade nenhuma, já está consolidada e não vai abrir exceções para quem “chorar na imprensa”. “Já fizemos isso com outros jogadores, por que não vamos mais fazer isso? O Corinthians é um dos únicos clubes do Brasil que paga o INSS em dia, pra que gastar todo esse dinheiro se não vamos poder usar de volta?”, indaga o dirigente.

A política corintiana de levar os jogadores ao INSS é mais antiga do que parece. Ela foi anunciada pelo clube em junho do ano passado e pode ter sido a responsável pelo êxodo dos jogadores que o levou à crise. Leandro, um dos que saíram no meio do Campeonato Brasileiro de 2002, foi o único que assumiu publicamente ter sido esse medo fundamental na decisão de trocar o clube paulistano pela fria e longínqua Rússia. “Eu sei lá se ia ficar sem receber, se ia ter que pegar fila de madrugada... Para mim, isso foi decisivo, mas não posso falar por outros jogadores. Agora que isso deve ter pesado muito para eles, sem dúvida.”

Outros jogadores do alvinegro já tiveram que recorrer ao INSS. O caso mais notório foi de Vampeta, que também criou uma briga com o clube e tentou, sem sucesso, uma ação judicial. O jogador recebeu normalmente seus salários até outubro, quando não compareceu ao clube durante um mês para fazer tratamento. Irritada com a displicência do meio-campista, a diretoria cortou-lhe todos os salários, entregou-lhe uma Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) e um requerimento de afastamento do clube. Sem entender o que se passava, quando se reapresentou ao Corinthians, Zanforlin apenas lhe explicou que o clube o estava afastando e o mandou procurar uma agência da previdência social para que desse entrada no pedido de auxílio-doença.


Inconformado, Vampeta procurou Gisleine Nunes, conhecida advogada do meio esportivo, para que conseguisse a rescisão contratual. A tentativa foi infrutífera. A Justiça do Trabalho indeferiu o pedido alegando que, se um contrato pode ser rescindido com base na legislação trabalhista por falta de pagamento dos direitos de imagens, uma vez que integram o salário, não fazia sentido que o clube fosse obrigado a pagá-lo se o afastamento ocorreu de acordo com a mesma lei.

Assim, Vampeta não teve outra alternativa a não ser entrar em auxílio-doença e logo teve alta para voltar a jogar futebol. Como seu benefício foi acidentário, teria direito a um ano de estabilidade no Corinthians, mas entrou em acordo para que houvesse uma rescisão consensual de seu contrato.

Já Gil e Coelho passam por dramas causados pela greve dos médicos do INSS, iniciada em dezembro e com fim previsto para a última sexta-feira. O atacante está em auxílio-doença desde outubro do ano passado, mas não conseguiu realizar a perícia que lhe daria alta e o permitiria voltar a jogar. Com permissão do departamento médico do clube, Gil retornou aos gramados, mas ainda recebe o salário de benefício da previdência, aproximadamente 35 vezes menor que sua remuneração. Um companheiro de clube, que não quis se identificar, diz ser esse desânimo a causa do mau rendimento do jogador. Ciente dessa possibilidade, segundo essa mesma fonte, Citadini teria proibido Gil de jogar até ter alta dada pelo perito. O dirigente e o atacante negam esses boatos.

No entanto, com a recente medida do governo de permitir a alta voluntária, isto é, a pessoa que recebe auxílio-doença pode comparecer pessoalmente ao posto da previdência e pedir sua alta para retornar ao trabalho sem a necessidade de avaliação do médico perito, Gil já deveria ter voltado a jogar. Isso não ocorreu porque, segundo fontes de dentro do INSS, o jogador esteve presente por três vezes em uma agência localizada na Zona Leste, mas não conseguiu senha para ser atendido. O novo técnico Osvaldo de Oliveira espera contar com ele para o próximo jogo.

O drama de Coelho é ainda maior. Afastado do clube em janeiro, o jogador ainda não conseguiu realizar sua primeira perícia. Desta forma, seu benefício ainda não foi concedido e, assim, está sem receber um centavo desde então. A esperança de Osvaldo de Oliveira é que, com o fim da greve, o jogador possa ser avaliado em breve no instituto, tenha alta e esteja liberado para jogar o mais rápido possível.

Os outros jogadores que se contundiram recentemente não quiseram dar entrevistas acerca da possibilidade de pararem de receber salários do Corinthians para receber o benefício. Citadini confirmou que, se eles não voltarem aos treinos em quinze dias, serão afastados. “Se o massagista e o roupeiro vão pro INSS, por que jogador de futebol não? Tem que acabar com essa mania de passar a mão na cabeça de jogador. É funcionário do clube como qualquer outro”, conclui o dirigente.

Método corintiano ou acordo paulista?
A crise não parece ter fim. Alguns amigos próximos ao preparador físico Moracy Sant’Anna dizem que o motivo pelo qual ele saiu do clube também estava ligado ao INSS. Citadini, ciente de que o Corinthians não teria como pagar salários para o amontoado de contratações feito durante a intertemporada, ainda mais com a baixa receita gerada pela irrisória renda dos jogos do campeonato paulista, teria mandado o preparador forçar bastante a parte física dos jogadores no início da temporada para que a probabilidade de que alguns viessem a se contundir fosse maior. Também seria essa a explicação para que o clube tenha abandonado os treinos no Parque São Jorge, onde se localiza todo o aparato médico. Distante dessa região, uma contusão no treino teria menor chance de ser bem tratada e o afastamento seria mais possível. O preparador, cansado de fazer parte desse joguete, teria forçado sua saída. Moracy se recusa a dar entrevistas.


Já o dirigente nega com veemência todas essas acusações e enxerga uma teoria conspiratória da imprensa contra o Corinthians. “Tudo quando é com o Corinthians tem de virar escândalo.” Citadini ainda afirma que se trata de uma decisão comuns aos grandes. “O Ricardinho saiu do São Paulo pela mesma coisa, mas ninguém fala nada, porque são os perfeitinhos do Morumbi. Na verdade, os clubes grandes de São Paulo e o Palmeiras decidiram fazer isso de comum acordo, mas é só aqui que isso gera crise”, esbraveja o vice-presidente corintiano.

Marcelo Portugal Gouveia negou que esse acordo exista e atribuiu as declarações de Citadini a uma loucura momentânea gerada pela crise no Parque São Jorge. Nenhum atleta do São Paulo se manifestou sobre o assunto, já que a cartilha do treinador Cuca os proíbe de falar sobre temas polêmicos com a imprensa. Da Inglaterra, nem Ricardinho nem seu procurador Rubens Pozzi quiseram falar sobre o assunto.

No Palmeiras, Mustafá Contursi desconversa. Apenas diz que se trata de questões de ordem interna no clube e que assim deve permanecer. No entanto, algumas pessoas ligadas à direção do time, conhecidos como “corneteiros” ou “turma do amendoim”, disseram que Edmílson teria saído por esse motivo e todo o drama na renovação do lateral Lúcio estaria relacionado ao mesmo tema – também causa para ele não ter acertado com o rival Corinthians. Nenhum dos jogadores envolvidos nesses boatos quis se manifestar.

Ninguém no Santos quis dizer qualquer coisa sobre o assunto. Leão proibiu que qualquer jogador tocasse no assunto. “Ninguém fala em INSS no Santos. Só falamos sobre futebol. De repente, vocês esqueceram do empate com o Guaraní?”. O ex-corintiano Doni, quando perguntado, apenas riu ironicamente e disse não saber de nada.

O presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais de Futebol do Estado de São Paulo, Rinaldo Martorelli, diz ainda não ter uma opinião consolidada sobre o tema, mas em breve deve distribuir um comunicado com a posição da entidade. “É uma novidade que deve ser analisada com calma”, explica o ex-jogador.

Thales Oliva

Imagens: Ministério da Previdência e Terra

Obs.: Essa “reportagem” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levada a sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência.

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