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16/02/04

Variedades

É difícil avaliar os jogos de compadre


O empate entre Vasco e Americano, pelo Campeonato Estadual do Rio, despertou mais uma vez (já se perdeu a conta) a discussão a respeito dos resultados pré-arranjados ou do chamado “jogo de compadres”. Com o sonolento 0x0, os dois alvinegros se classificaram, deixando de fora da Taça Guanabara um terceiro, o Botafogo. E voltou-se a discutir se seria legítimo dois times entrarem em campo predispostos a chegar a um resultado que os favoreçam, mesmo que prejudicando uma terceira equipe.

No caso citado, o fato de Eurico Miranda (presidente dos cruz-maltinos) e Eduardo Viana (presidente da Ferj e ligado ao clube campista) serem aliados políticos e, pior, figuras pouquíssimo agradáveis, fez do empate em São Januário ter ares pouco límpidos. Muita gente prematuramente já começou a chiar que estaria soando armação pela ligação dos dirigentes envolvidos.

Não dá para afirmar que isso efetivamente aconteceu, mas, mesmo que fosse verdade, o Botafogo ficou de fora mais pelo mérito de seus 2 adversários do que por uma suposta negociação nos bastidores. Afinal, se tivesse, ao menos, empatado com o Americano, não dependia dos outros na última rodada. Além disso, os dirigentes que aprovaram o regulamento e a tabela já deveriam prever que isso poderia acontecer.

Outro fato é que, acompanhando os melhores momentos, não pareceu que o Vasco estava totalmente desinteressado na partida. O clube carioca tomou a iniciativa, enquanto o Americano parecia mais disposto a segurar o resultado do que arriscar se a cair fora num contra-ataque. Aproximando-se do término do jogo, a própria torcida vascaína, não se conformando com a apatia do time, iniciou um coro de “marmelada” de certa forma injusta. Àquela altura, não parecia sensata a idéia de se avançar em demasia e colocar em risco a já garantida classificação.

Além disso, o não interesse em classificar o Fogão pode ser estratégico. Afinal, não seria interessante para o Vasco ter mais à frente um adversário com mais tradição e torcida que o clube de Campos. É um caso parecido com a Libertadores de 1991, quando o Boca empatou em casa contra o Oriente Petrolero só para desclassificar o River Plate. Na lógica auri-azul, ter os compatriotas fora da competição poderia facilitar o avanço do time, sobretudo nas quartas-de-final. Esse empate colocou os boquenses no caminho do Corinthians nas oitavas-de-final, já que o primeiro lugar do grupo acabou nas mãos do Bolívar. Mas evitou um superclásico argentino nas quartas.

De mais a mais, o próprio Botafogo não pode reclamar agora, pois na Série B de 2003, aliviou na hora de enfrentar o Marília no interior paulista. O 2x2 classificou ambos antecipadamente, tirando quaisquer chances de Remo e Naútico. Na época, o próprio treinador botafoguense, Levir Culpi deu declarações em favor de tirar vantagem das possibilidades oferecidas pelo regulamento.

Em 2001, o Flamengo só não foi rebaixado porque ganhou do Palmeiras na última rodada, em Juiz de Fora. Muitos reclamaram que o Palmeiras teria entregado o jogo, mas é difícil avaliar um time sem nenhum objetivo no Campeonato. Até porque, naquela mesma rodada, o Santa Cruz venceu o Guarani em Campinas, um resultado improvável pela condição técnica das equipes.

Situações parecidas com as descritas acima foram as derrotas do Corinthians para o Botafogo em 2002 e para o Grêmio em 2003, além do empate entre o ameaçado Internacional e o virtualmente eliminado Palmeiras em 1999. E a polêmica vitória do mesmo colorado em Balem contra o Paysandu na última rodada do Brasileirão de 2002.

Por isso é muito complicado julgar a ética desses casos. Todos, de alguma forma, já tiraram vantagem desse tipo de situação. Até porque é difícil comprovar onde acabou a desmotivação de um time eliminado e começam os atos imorais.

*

Um jogo com resultado supostamente arranjado foi o Grêmio x Cruzeiro na Copa Libertadores de 1997. Os mineiros haviam perdido em casa dos gaúchos e os jogos contra os peruanos do Sporting Cristal e do Alianza Lima. Estava praticamente eliminado, já que dificilmente venceriam em Porto Alegre e teriam de descontar todos os pontos em atraso nas duas partidas contra os peruanos no Mineirão. Mas, surpreendentemente, o Cruzeiro venceu no estádio Olímpico por 1x0, gol de Palhinha. Falou-se muito que o Grêmio teria facilitado o caminho cruzeirense. Se o fez, foi pouco inteligente. O Cruzeiro era claramente mais forte que os peruanos. Tanto que, nas quartas-de-final, eliminou o próprio Grêmio e foi campeão, batendo, curiosamente, o Sporting Cristal na final.

*

A única coisa realmente condenável é a compra de resultado, com o suborno de jogadores adversários ou do árbitro. Como na vitória argentina por 6x0 sobre o Peru na Copa de 78. Ou quando a combinação de resultados não traz nenhuma vantagem técnica futura a uma das equipes. Caso da Áustria, que perdeu estranhamente da Alemanha Ocidental por 1x0 na Copa de 82 para desclassificar a Argélia (a não ser que alguém ache que é mais fácil enfrentar os alemães adiante do que os argelinos).

Gilberto Meazza

Imagens: O Diário e O Globo

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