Tudo por causa da pouco inteligente decisão da Federação Paulista de aumentar o preço dos ingressos para R$ 20 (tema que trataremos na próxima semana). Medida, inclusive, cuja legalidade é analisada pelo Ministério Público. Pressionada pelas organizadas, a entidade resolveu negociar. Para pagar apenas R$ 10, os “uniformizados” teriam de passar o cadastro de seus associados para a polícia. Apenas a Mancha aceitou.
Antes de tudo, o acordo tem sérias questões jurídicas por resolver. Afinal, não estamos mais nos anos 70, quando qualquer cidadão podia ser fichado na polícia sem sua autorização ou em troca de algum benefício? O mais estranho são autoridades públicas incentivarem essa medida.
Além disso, o assunto levanta outras questões mais antigas: o papel das torcidas organizadas para o espetáculo. Acusadas (com razão) de incitação e promoção de violência, essas agremiações teriam um papel que ignoram solenemente, que é de promover o esporte, unir a torcida e trazer beleza ao produto futebol.
Até hoje, torcedores “comuns” se perguntam se os “uniformizados” representam a si próprios ou ao time para o qual torcem, fato motivado por gritos de guerra que não mais são estímulo ao time, mas sim, um exercício de glorificação da própria torcida. Do outro lado, “organizados” tendem a pensar que são melhores torcedores do que os “comuns”, que acompanham mais o time, que são mais dedicados e outras coisas. Não faz sentido, pois, no máximo, vão em grupos maiores. Até porque não há nada que afirme que o fato de alguém ser membro de torcida organizada sirva como atestado de amor pelo time.
A partir de agora, será que esta torcida tem moral para questionar atitudes da federação ou do atual presidente do Palmeiras? Em tese, o torcedor deveria se preocupar apenas em apoiar a equipe, não em tirar vantagens de situações. Para o Palmeiras, em tese, seria melhor que todos os torcedores tivessem de pagar apenas R$ 10. Por essa medida as organizadas não brigaram. Pensaram apenas nos próprio benefícios, não vendo a torcida (soma de “uniformizados” com “comuns”) como uma coisa só. Vale lembrar que a Mancha (Alvi)Verde se absteve durante os protestos contra a reeleição de Mustafá Contursi. A preocupação não é com o Palmeiras, mas com a Mancha.
Claro, a Mancha ficou mais exposta, mas não é o caso único. Muitos corintianos, por exemplo, não se vêem na Gaviões da Fiel e não se importaram muito com o rebaixamento da escola de samba mantida pela uniformizada. O curioso é que a Mancha estava em um bom momento perante parte da torcida palmeirense, tudo resultado ainda da empolgação pós-título da Série B.
Rodrigo Leme
Imagem: Pelé.net