Muitas pessoas estranham o fato de o Campeonato Brasileiro só ter sido criado em 1971. Nem a Taça Brasil, disputada entre 1959 e 68, atenua esse fato. Realmente, demorou muito para haver uma competição nacional de clubes. Além da falta de iniciativa e organização das instituições do nosso futebol, o fato de existir um Campeonato Brasileiro desde a década de 1920 contribuiu. Um Brasileirão diferente, mas que, na época, era tão importante quanto o atual.
É o que se chama hoje de “Campeonato Brasileiro de Seleções”. O torneio foi um subproduto da origem fragmentada e completamente dispersa do futebol brasileiro. Cada Estado teve um início diferente, sem que houvesse uma unificação institucional do esporte no país. Mesmo assim, em 1920, já havia campeonatos em 16 Estados.
Em 1922, o Rio de Janeiro sediaria a Copa América. Para montar uma equipe forte, a CBD decidiu organizar o Torneio de Seleções. Foi uma competição experimental, disputada por sete equipes – Bahia, Distrito Federal (apenas a cidade do Rio de Janeiro, futura Guanabara), Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro (o que hoje forma o interior do Estado), Rio Grande do Sul e São Paulo – em julho e agosto daquele ano. Com 4 vitórias no mesmo número de jogos, os paulistas foram campeões. Os cariocas (pelo Distrito Federal da época, já que Brasília não havia sido construída) ficaram em segundo e os baianos em terceiro.
Com o sucesso do torneio, a confederação decidiu oficializá-lo, criando o Campeonato Brasileiro em 1923. Os participantes foram os mesmos e, novamente, o título ficou em São Paulo, após vencer o Distrito Federal por 4x0 nas Laranjeiras. No ano seguinte, os cariocas conquistaram seu primeiro título, vencendo São Paulo por 1x0 na decisão. Essa edição marcou a primeira expansão do torneio, com a entrada de Pernambuco e Pará.
O sucesso era tão grande que, em 1925, já havia 12 Estados inscritos, o que obrigou a CBD a dividir a fase inicial em grupos regionais. Pará e Amazonas ficaram no Norte, Pernambuco, Bahia, Ceará e Paraíba representavam o Nordeste, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais eram as equipes do grupo centro e São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná jogavam pela região Sul. Novo título carioca, após vencer os paulistas em dois jogos.
Desde a primeira edição, todas as finais eram disputadas em partidas únicas na cidade do Rio de Janeiro. No caso de empate, o jogo extra também seria na então capital federal. Com o tempo, os paulistas não aceitaram mais essa situação e se negaram a jogar o Brasileirão de 1928. No ano seguinte, a final foi disputada em dois jogos. E São Paulo foi campeão.
O torneio vivia uma fase de expansão. Em 1929, já eram 18 times participando. A Revolução de 1930 impediu que o torneio fosse realizado, mas continuava havendo uma dúzia e meia de seleções estaduais na edição de 1931. Em 1932, a Revolução Constitucionalista patrocinada por São Paulo provocou outro cancelamento. Em 1934, mais problemas. Foram realizados dois torneios, um, oficial, apenas com equipes amadoras (Bahia campeã pela única vez) e outro, organizado pela Federação Brasileira de Futebol, contou com jogadores profissionais. A cisão se manteve no ano seguinte. Mas o Distrito Federal venceu entre os amadores e entre os profissionais.
A partir daí, o Campeonato Brasileiro de Seleções voltou a crescer, mesmo com uma periodicidade comprometida por alguns anos sem disputa. Chegou a 24 participantes em 1950, ano de inauguração do Maracanã e de realização da Copa do Mundo no Brasil. Havia uma febre de futebol em todo o país.
Paulistas e cariocas mantinham a hegemonia, dividindo todos os títulos. Nos anos 50, com o crescimento dos torneios interclubes como o Rio-São Paulo, a Copa dos Campeões do Nordeste e a Copa Norte-Nordeste, além dos próprios estaduais, o Campeonato Brasileiro foi perdendo força.
Na década de 50 do século passado, apenas 4 edições foram realizadas. Até que, em 1959 foi criada a Taça Brasil, o primeiro torneio nacional. Era uma espécie de Copa do Brasil, pois reunia apenas os campeões estaduais. O Bahia foi campeão, provando que já havia forças emergentes fora de Rio de Janeiro e São Paulo.
Ainda houve um Brasileiro de Seleções em 1963. Paulistas e cariocas (já representando a Guanabara) não entraram com força máxima. O que não tira o mérito do título de Minas Gerais. Os mineiros tinham como base o Cruzeiro, clube que se tornaria um dos mais fortes do Brasil nos anos seguintes.
O conceito de seleções estaduais só sobrevivia em amistosos. Até que, em 1987, a CBF decidiu recriar o torneio. Nem o relativamente expressivo número de 20 participantes (lembrando que, em 1987, a República tinha mais unidades federativas que nos anos 50 e 60) esconde o fato de que foi uma competição completamente esvaziada e extemporânea.
Os jogos eram realizados em buracos no calendário e as seleções não eram das mais fortes. Por exemplo, o Rio de Janeiro, já unificado, foi representado pelo Americano de Campos. Além disso, houve desistências pelo caminho. Mas a maior hipocrisia foi colocar Minas Gerais direto nas semifinais, por ser o então último vencedor do torneio, 24 anos antes (!).
Nas semifinais, que já avançavam no início de 1988, o Rio de Janeiro/Americano bateu os mineiros, enquanto que São Paulo passava por Goiás. Na final, pouquíssimos apostariam em um sucesso do Americano diante de uma seleção paulista, que contava com jogadores de Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Portuguesa. Na primeira partida, realizada no estádio Godofredo Cruz, em Campos, os fluminenses surpreendem e vencem por 1x0. São Paulo não aceitou a data da partida de volta e o Rio de Janeiro foi proclamado campeão. Fim patético para uma competição que teve uma importância muito grande em um determinado momento histórico, ajudando a unir o futebol dos diversos Estados do Brasil.
Estádio Godofredo Cruz, em Campos. Foi aqui que tudo terminou
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Veja a lista de seleções estaduais campeãs do Brasil: 1922 (não oficial) e 23 – São Paulo; 1924 e 25 – Distrito Federal/RJ; 1926 – São Paulo; 1927 e 28 – Distrito Federal/RJ; 1929 – São Paulo; 1931 – Distrito Federal/RJ; 1933 – São Paulo; 1934 – Bahia (CBD) e São Paulo (FBF); 1935 – Rio de Janeiro (CBD e FBF); 1936 – São Paulo; 1938 a 40 – Distrito Federal/RJ; 1941 e 42 – São Paulo; 1943 , 44, 46 e 50 – Distrito Federal/RJ; 1952, 55, 57 e 60 – São Paulo; 1963 – Minas Gerais; e 1987 – Rio de Janeiro.
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O time da foto no alto é a seleção paulista campeã brasileira de 1952.
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Para não ficar nenhuma dúvida, os atletas integravam a equipe do Estado em que jogavam, não defendendo necessariamente sua terra natal.
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O Campeonato Brasileiro de Seleções até ajuda a ver a história da federação. Por exemplo, apenas a edição de 1987 teve uma representação do Mato Grosso do Sul, criado apenas em 1977. Da mesma forma que, a partir de 1946, o território de Guaporé – atual Rondônia – teve uma equipe. E Tocantins nunca disputou, pois só se separou de Goiás com a Constituição de 1988.
Ubiratan Leal
Imagens: Site da Lusa e Templos do Futebol