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8/01/04

Cultura & Mídia

Todos se perdem no meio de tanto boato

Os campeonatos estão parados e os clubes se preparam para a próxima temporada. Assim, o que preenche o noticiário futebolístico brasileiro, além da reduzida e tradicional cobertura da Copa São Paulo de Juniores, são as possíveis contratações. O problema é que, se todas as informações divulgadas forem levadas a sério, vai haver jogador se clonando para jogar em três times ao mesmo tempo. Claro, tudo resultado de uma rede de boatos da qual poucos conseguem (ou querem) se desvencilhar.

O diagnóstico do torcedor comum é simples e direto: com as férias dos campeonatos, a imprensa fica sem ter sobre o que falar e inventa notícias para vender jornal e ganhar pontos no Ibope. Em alguns momentos, há um pouco de verdade. Mas é um equívoco generalizar e crucificar toda a imprensa em um momento como esse. No fundo, todos os agentes têm uma parcela de responsabilidade.

Os dirigentes, para mostrar serviço para a torcida, prometem jogadores que eles sabem que nunca serão contratados. Mas plantam uma semente de boato nos jornais. Os empresários e clubes, ávidos por valorizar um atleta, não são veementes ao negar a informação, pois querem promover um leilão que, na verdade, nunca existiu. Há também os casos em que o empresário ou o clube é que dizem que há gente interessada pelo jogador, sendo que ninguém foi procurado por ninguém.

O tiroteio vem de todos os lados e a imprensa cai. Na verdade, a mídia não parece – e aí mora sua parte na culpa – interessada em investigar as informações a fundo. Um caso claro foi o do goleiro Fábio Costa. Alguns sites deram como certa sua ida para o Corinthians quando a diretoria do Santos afirmou ter renovado o contrato do baiano. Foi o suficiente para os jornais saírem com a notícia de que o jogador permaneceria na parte de baixo da Serra do Mar. Foi, como se diz no meio jornalístico, uma enorme “barriga”, pois o goleiro não tinha renovado contrato algum, seguiu negociando por vários dias até, enfim, acertar com o Corinthians. Será que esse erro não era evitável?

Porém, o torcedor também é culpado. Afinal, ele sabe que há muito boato travestido de notícia nessa época, mas prefere ser ingênuo e acreditar que, realmente, seu clube tem tudo para ameaçar a supremacia do Real Madrid no ano que está por vir. O que alimenta a imprensa, que incentiva os empresários e clubes. Por fim, todo esse ciclo acaba tendo uma lógica em que a informação fica em segundo plano.


Claro que há coisa que se salva, e o torcedor que não quer se frustrar com o elenco que seu time apresentar na estréia deve estar atento a isso. Primeiro, em geral, a negociação verdadeira muitas vezes não tem informações liberadas para não atrapalhar as negociações, mas o que respinga para o torcedor quase sempre tem base em números ou, ao menos, em confirmações convincentes das duas partes. Outro aspecto importante é que dirigente que promete contratar demais ou jogador que se diz muito procurado estão, no mínimo, exagerando um pouco a realidade.

O que poderia melhorar
Ao contrário do que pensam alguns mais precipitados, a cobertura das movimentações do mercado não é descartável ou jornalisticamente menor. Na Europa, há revistas dedicadas EXCLUSIVAMENTE a contratações e, no verão de lá, os principais veículos esportivos criam um esquema especial apenas para tratar desse assunto. E, claro, toda essa dedicação não deixa os europeus livres das especulações e das bobagens clássicas.

Mas há dois elementos sutis na abordagem européia que poderiam eliminar alguns dos equívocos comuns na cobertura brasileira. Lá, pelo maior rigor da lei sobre as finanças dos clubes, há menos espaço para fórmulas financeiras mirabolantes (como a que levaria Rivaldo para o Botafogo). Assim, a verba da contratação deve sair do caixa do clube ou, ao menos, alguém tem de aparecer com uma garantia financeira. E essas informações são divulgadas nas principais negociações. No Brasil, ninguém sabe de onde vem o dinheiro, até porque nem sempre ele existe.

Outro aspecto é que o torcedor está mais preocupado em saber que grande astro se clube vai contratar, mas poucos param para analisar como ficaria, em campo, o time. Onde cada jogador se encaixaria dentro do esquema que o treinador prefere usar. Afinal, o importante não é – ou não deveria ser – comprar jogadores, mas montar uma equipe forte.

Nesse aspecto, um trabalho interessante é o do jornal Lance. Inspirado em veículos europeus, o diário montou uma tabela enorme mostrando todos os jogadores que estão saindo e entrando em cada clube, além da escalação provável para 2004. Para complementar, o colunista especialista em táticas Paulo Vinícius Coelho mostra como ficaria a disposição dos jogadores nos principais times. Essa cobertura permite uma visão geral do mercado e, apesar de ter muita especulação no meio, desembaça um pouco a visão do torcedor.

Ubiratan Leal

Imagens: Marcelo Ferrelli/Gazeta Esportiva e César Trópia/Cruzeiro

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