O estereótipo do intelectual, no Brasil, é o do sujeito que se enterra em livros, come e bebe do melhor e despreza o futebol, algo popular e sem valor. Pois quem ainda vê o meio acadêmico dessa forma está cometendo um crime tão grave quanto o do sujeito descrito acima, que considera o futebol uma coisa menor. Afinal, uma quantidade muito grande de pesquisadores vê no esporte mais popular do mundo uma fonte prolífica de estudos sociais e culturais. Um exemplo disso é o do ítalo-escocês Richard Giulianotti e seu Sociologia do Futebol.
Professor de sociologia da Universidade de Aberdeen, Giulianotti já havia trabalhado em obras como “Entrando no Campo: Novas Perspectivas no Futebol Mundial”, Futebol, Violência e Identidade Social” e “Jogos sem Fronteiras: Futebol, Identidade e Modernidade” antes de se arriscar em “Sociologia do Futebol”, um estudo mais abrangente da relação sociedade e esporte.
Por ser uma abordagem pouco comum no meio editorial brasileiro (há pilhas de estudos acadêmicos em busca de alguém que os publique, mas poucos saem das bibliotecas das faculdades), o livro do britânico tem seu espaço. Mas o “Sociologia do Futebol” poderia ser melhor.
O maior problema da obra é exceder nos assuntos abordados. O autor passa pela criação do esporte, a cultura do torcedor, a forma como o dinheiro modificou o mundo do futebol, as questões sociais envolvendo os jogadores, os estádios e até pontos mais técnicos como tática e estética do jogo. O enfoque claramente dá preferência ao jogo dos britânicos, mas o resto da Europa e mesmo a América do Sul não são esquecidos. Em princípio, é ótimo, pois poderia ser uma rara obra abrangente (falar em algo completo em sociologia é inútil, pois o próprio princípio dessa ciência – como de outras – sempre deixa espaço para mais aprofundamento).
Porém, tudo isso se aperta em 220 páginas (na edição brasileira). E a dedução é imediata: o livro foi impresso com letras de corpo muito pequeno ou falou pouco de cada assunto. Infelizmente, a segunda opção é a verdadeira. Giulianotti procurou mostrar o quando a sociologia e o futebol se relacionam, mas não aprofundou em nenhum dos temas. Um novato nas análises sociológicas com certeza aprenderá muito com esse livro, mas, ao ler com mais atenção, ficará com algumas interrogações não respondidas.
Também é importante considerar que o livro tem linguagem acadêmica carregada, cheio de termos e citações típicos da sociologia. Não chega a ser um defeito, pois é uma opção estética legítima do autor. Mas o leitor menos familiarizado com esse tipo de texto pode se cansar com mais facilidade.
Um outro problema nada tem a ver com o autor ou a obra em si mas com a edição brasileira. A tradução não é das melhores, mostrando falhas claras em algumas expressões utilizadas no futebol inglês. Por exemplo, no trecho que trata da relação religião-futebol, a edição brasileira nos apresenta essa frase: “No Ocidente, a volta pós-secular às religiões alternativas é muito bem refletida pelo internacionalista e budista italiano Robert Baggio, ‘o divino homem do rabo-de-cavalo’”. O “Robert” é perdoável, pois não dá para descartar a possibilidade de ser apenas um erro de digitação. Mas o que é “internacionalista”? Em português não faz sentido algum, mas quem conhece o inglês futebolístico percebeu que foi a tradução de “international”, termo usado para dizer que um jogador já atuou por sua seleção nacional.
No mais, “Sociologia do Futebol” tem méritos pela idéia e por, mesmo que passando rápido por tudo, abordar uma quantidade muito boa de temas. Além disso, há muitos detalhes históricos sobre o futebol britânico, o que pode contentar os amantes da Premiership e da Scottish Premier League. Para o torcedor que apenas quer conhecer as dimensões sócio-culturais do futebol, a obra de Giulianotti tem o papel de ponto de partida (pois, no final das contas, dá um apanhado rápido e geral do tema). Mas um análise mais profunda requer novos estudos.
Por isso, fica uma sensação de que a melhor obra para uma sociologia brasileira do futebol pode estar empoeirada em alguma faculdade aqui mesmo no Brasil, disfarçada em forma de tese. É questão de algum editor buscá-la.
Mais informações
“Sociologia do Futebol – Dimensões históricas e sócio-culturais do esporte das multidões” foi lançado no Brasil pela editora Nova Alexandriae tem 248 páginas (sendo que 7 são de índice remissivo e 21 de bibliografia). A versão original – em inglês – tem um nome mais parecido com uma tese de sociologia: “Football – A sociology of the global game”.
Ubiratan Leal
Imagens: Siciliano e Universidade de Aberdeen