Calcio em blocos definidos
Observar a tabela de classificação do Campeonato Italiano 2003-04 pode causar estranhamento. A diferença de pontos entre os blocos é fora dos padrões dos italianos, acostumados a ver times pequenos tirarem muitos pontos dos grandes. Com isso, não parece haver muitas possibilidades de a divisão de forças atual se modificar muito no segundo turno.
Porém isso não quer dizer que não haverá emoção na Lega Calcio. A distribuição de pontos muito desigual permite equilíbrio entre clubes que estão no mesmo pelotão da tabela. Como conseqüência, há brigas extremamente definidas e pontuais até o fim das 34 rodadas.
Na frente, Roma, Milan e Juventus estão destacados na luta pelo título. Os romanos surpreendem, já que eram vistos como decadentes antes de a temporada começar. Com um futebol seguro e consistente – os giallorossi têm 42 pontos em 51 possíveis (índice inédito para um primeiro turno na Bota) –, a Roma tem jeito de time campeão. Não perdeu pontos bobos contra os pequenos e Totti (foto) está imparável no meio-campo e no ataque, Mancini é uma agradabilíssima surpresa e Chivu têm se mostrado um ótimo reforço para a zaga. O problema é que a Roma não tem um elenco farto como seus principais adversários, o que pode ser decisivo nas rodadas finais.
Logo atrás dos romanos vem o Milan. Para ser preciso na matemática, os milanistas são “meio-líderes”. Estão com 3 pontos a menos que a Roma, mas têm uma partida adiada a realizar, em casa contra o Siena. A vitória e a co-liderança são iminentes. Os destaques rossoneri são Kaká e Shevchenko, ambos em grande fase e fatais no ataque. A favor do Milan está a possibilidade de outros foras-de-série como Rui Costa e, principalmente, Filippo Inzaghi repetirem as atuações da temporada passada e os bons resultados nos clássicos (vitória contra Roma e Internazionale, empate com Juventus). No entanto, a luta pelo bicampeonato da Liga dos Campeões pode desgastar em excesso os milaneses.
O último dos postulantes ao título é a Juventus. Os bianconeri começaram a campanha com jeito de campeões, vencendo com autoridade quase todos os jogos e ensaiando uma fuga na liderança. No entanto, uma instabilidade no meio do turno, com duas derrotas seguidas (Internazionale e Lazio), foi suficiente para ultrapassagens de Roma e Milan. Agora, os piemonteses estão a apenas 3 pontos da líder. Diferença ínfima se Del Piero se recuperar totalmente de uma contusão e se a saída do volante holandês Davids – praticamente dado ao Barcelona – realmente melhorar o clima no clube. Se isso acontecer, a Juventus é, para mim, favorita.
O segundo pelotão está a mais de 10 pontos da líder. Assim, deve apenas brigar pela 4ª vaga italiana na Liga dos Campeões. E deve ser uma disputa bastante interessante pela falta de estabilidade das equipes envolvidas. A Internazionale trocou de treinador e ensaiou uma reação. Conseguiu 6 vitórias seguidas e se aproximou do trio da frente. Mas perdeu 3 das últimas 4 partidas e deve ter mudados seus objetivos. A Inter já sente a estiagem de 15 anos sem títulos nacionais. Assim, qualquer bobagem é suficiente para desestabilizar o ambiente no clube. Em campo, o último a ter problemas foi Vieri (foto), que se negou a disputar uma partida pela Copa da Itália e foi afastado pelo técnico Alberto Zaccheroni. Mas a bomba veio essa semana, com a demissão de Massimo Moratti da presidência do clube. Não é a primeira vez que o proprietário do clube sai da diretoria (na outra vez, em 1999, ele voltou), mas é sinal da fragilidade institucional do clube.
Para a sorte da Inter, os dois outros clubes não sabem se têm como objetivo principal a vaga na Liga dos Campeões ou a sobrevivência financeira. A Lazio, endividada após as extravagâncias do ex-presidente Sergio Cragnotti, está se resolvendo financeiramente. Mas procura cortar gastos, vendendo seus jogadores mais custosos e, conseqüentemente, enfraquecendo o elenco. O Parma já foi bastante falado aqui.
O bloco intermediário é formado por clubes que pouco incomodaram os líderes, mas conseguiram se destacar da mediocridade do fundo da tabela. São os casos da constante Udinese, da renascida Sampdoria, do cada vez menos empolgante e mais simpático Chievo, do Modena, da irregular Reggina e da zebra da vez, o Siena de Taddei. Nas últimas rodadas, Bologna e Brescia se recuperaram e também parecem fugir da rabeira.
Os quatro que devem lutar contra o rebaixamento parecem bem definidos. O Lecce não mostra força para reagir, ao contrário do Empoli, que está muito mal, mas venceu as duas últimas partidas e, por hora, é o integrante desse grupo com melhores possibilidades. O Perugia do inteligente e carismático técnico Serse Cosmi (foto) e do tolo e antipático presidente Luciano Gaucci está com uma campanha ridícula, com 10 empates e 7 derrotas, algo raro para o normalmente perigoso time umbro. Na rabeira está o Ancona, que conseguiu ser pior que o Perugia: empatou 5 e perdeu 12 jogos. Sem vitória alguma e contando com o oportunista mas decadente Jardel no ataque, o time do Adriático deve cair.
Mais do mesmo na Espanha
Na Espanha o returno já começou. Mas os resultados da 20ª rodada apenas confirmaram as tendências indicadas pela primeira metade do torneio. Assim, Real Madrid, Valencia e Deportivo La Coruña devem lutar pelo título. O Barcelona decepciona, o Atlético continua crescendo, o Athletic está na luta por uma vaga na Copa da Uefa. Excetuando uma ou outra surpresa, é mais ou menos como tem sido nos últimos anos.
Apesar de estar na vice-liderança, não dá para tirar o favoritismo do Real Madrid. O problema dos madridistas é que a saída de Makelele acentuou ainda mais o desnível técnico entre defesa e ataque. Assim, colapsos como os ocorridos no primeiro tempo na derrota de 4x1 para o Sevilla podem acontecer novamente. Além disso, a estratégia de jogo dos merengues é mais baseada nos talentos do que em táticas elaboradas. Nada contra, já que o nível técnico do time permite esses luxos. Mas, quando o adversário está bem montado e preparado para anular o Real, não há nada a fazer além de torcer por lances individuais.
Essa é a chance do Valencia. Os alvinegros têm uma campanha absurdamente constante e sólida. Não é à toa, já que o time tem bons jogadores como o talentosíssimo meia-atacante argentino Aimar, o bom atacante Mista, o eficiente volante Baraja e o experiente Cañizares no gol. O Real Madrid dava show na liderança e, no primeiro mal resultado, se viu ultrapassado pelos valencianos. E essa tendência deve continuar no segundo turno, a não ser que a Liga dos Campeões tire muitas energias do atual ponteiro.
Vendo a briga um pouco de trás, mas ainda com esperanças, o La Coruña peca por perder pontos pouco justificáveis, como no empate para o Santander e na derrota para o Villarreal, ambos na Galícia. Além disso, o Depor não tem um time tão forte quanto os seus adversários.
O quarto colocado é uma agradável surpresa. O Atlético de Madri começou muito mal o campeonato, mas ganhou ritmo e mostra um futebol merecedor de uma vaga na Liga dos Campeões. O principal destaque colchonero é o jovem atacante Fernando Torres, de apenas 18 anos. Um ponto atrás está o Villarreal, outra surpresa. O clube auri-azul soube contratar (trouxe Riquelme e Sonny Anderson, além de manter o regular Victor) e, como os atleticanos, ganharam embalo nas últimas rodadas. A última surpresa positiva está em 6º lugar. O Osasuna ficou em 4º em quase todas as rodadas, mas vem sentindo a falta de elenco (em bom português, o time é fraco no papel). Mesmo assim, o clube de Navarra já se dá por feliz com campanha tão positiva.
No miolo, 9 clubes estão divididos por 5 pontos. O Barcelona já nem decepciona mais, pois os fracassos têm se tornado comum nas últimas edições da liga espanhola. Decepção mesmo é da Real Sociedad, que flertou com a zona de rebaixamento, mas venceu as três últimas partidas e parece ainda pensar em uma vaga na Europa para 2004-05. Se jogar metade do que jogou na temporada passada, quando perdeu o título por 2 pontos, os donostiarras têm motivos para esperar um bom segundo turno. O restante do bloco é composto pelos clubes de sempre, como Athletic Bilbao, Racing Santander, Valladolid, Sevilla, Mallorca, Betis e Málaga.
Pensando na Segunda Divisão estão Albacete, Celta e Zaragoza. A distância desse grupo para o intermediário não é grande (os dois primeiros da relação estão a um par de pontos do Betis) e há possibilidade de mudanças. Principalmente por parte do Celta, com elenco bom o suficiente para brigar pela Copa da Uefa.
Se os três clubes acima apenas pensam na Segunda Divisão, Espanyol e Murcia já parecem considerar essa uma realidade. Confusos em campo e fora e sem perspectivas de melhora, os dois times estão a 5 e 6 pontos do mais próximo adversário (Zaragoza). Em teoria, o Espanyol até tem alguns jogadores bons, como De la Peña, Tamudo e Pochettino. Mas não é suficiente para tirar o clube adotado pela comunidade andaluz de Barcelona o zona de rebaixamento.
Portugal é do Porto
Com o Boavista aparentemente voltando à categoria de time comum, é difícil esperar alguma grande surpresa na Superliga portuguesa. Assim, é desnecessário enfatizar o fato de que Porto, Sporting e Benfica foram praticamente as únicas equipes a mostrar que o campeonato luso poderia despertar algum interesse. No entanto, mesmo os dois grandes lisboetas ficaram um pouco de fora e a maior parte do primeiro turno foi um monólogo dragão.
A campanha do Porto chega a assustar. Em 18 partidas, os dragões venceram 15 e empataram 3. Nas principais ligas européias, apenas os escoceses do Celtic – 19 vitórias e 1 empate em 20 jogos – fizeram melhor nessa temporada. Deco continua em boa fase, conduzindo praticamente todo o setor ofensivo portista enquanto a dupla de frente, composta pelo brasileiro Derlei e pelo sul-africano McCarthy, tem garantido os gols do grande do norte. No banco, José Mourinho alimenta ainda mais seu ego, mas realmente dá motivos para se considerar o melhor técnico português no momento. Para o segundo turno, os torcedores lamentam a contusão que deve tirar Derlei do resto do campeonato. Mas as chegadas dos meias Sérgio Conceição e Carlos Alberto (esse último ex-Fluminense) podem dar mais força ainda ao meio campo.
Com uma campanha que daria a liderança folgada em quase todas as ligas européias, o Sporting até consegue fazer alguma sombra aos portistas. Com 43 pontos, os leões estão a 5 do rival do norte e acertaram a mão com a contratação de Liédson como companheiro de Sá Pinto no ataque. Até o meia Fábio Rochemback, emprestado pelo Barcelona, tem sido importante, não só pelas atuações, como também pelos 6 gols que o torna o vice-artilheiro do clube no campeonato. Mas a maior preocupação dos sportinguistas nem é a meia dezena de pontos, mas a instabilidade da equipe, capaz de, por exemplo, ser goleada em casa pelos turcos do Genclerbirligi na Copa da Uefa.
Porém, nenhum clube português sofre tanto com quedas de rendimento quanto o Benfica. Pouca gente no Brasil pode ter percebido, mas os encarnados se encaminham para uma década sem o título nacional, algo inédito na história do clube. Falta personalidade ao clube da Luz, parece uma equipe com receio do tamanho que tem. Afinal, o Benfica é, sem dúvida, o maior clube de Portugal. Na temporada passada, o técnico Camacho parecia ter resolvido o problema, já que conduziu as águias ao vice-campeonato com uma campanha muito boa (o problema é que o Porto, de novo, conseguiu ser melhor). Mas nem o espanhol tem conseguido dar uma feição ao Benfica nessa temporada. Talvez a chegada ainda não confirmada de Ricardinho possa dar uma força extra à equipe. Mas não parece ser suficiente.
Só para dar uma idéia, os encarnados terminaram o turno apenas dois pontos a frente do Sporting Braga e 3 do Beira-Mar. Por hora, o Arsenal do Minho e o clube de Aveiro não devem ter fôlego para seguir o Benfica de tão perto por mais 17 rodadas. Outra equipe média que merece um destaque é o Marítimo do técnico Manuel Cajuda (ex-Braga), que liderou nas primeiras rodadas e só perdeu menos que o Porto. O problema dos madeirenses é o número de empates (8), conseqüência de um ataque pouco nocivo aos adversários. Entre os que pensam na Copa da Uefa ainda está o Boavista, com um ponto menos que o Marítimo. Os enxadrezados não estão medíocres como na temporada passada (quando até correram algum risco de cair para a Liga de Honra, a Segundona de Portugal), mas já não apresentam a força e consistência da equipe campeã nacional de 2001.
No meio da tabela há pouco a se destacar, apenas uma ponta de decepção pela fraca campanha dos geralmente regulares União de Leiria e Belenenses. Mas, na luta pelo rebaixamento, a presença do Vitória de Guimarães é surpreendente. O vimaranenses costumam alocar alguma posição com classificação européia. Ou, ao menos, algo perto disso. Com 15 pontos, o Guimarães está junto com outro clube tradicional que se apequena, a Acadêmica de Coimbra. Os estudantes começaram bem e até deram esperanças de uma temporada tranqüila, sem ter de olhar muito para a parte de baixo da classificação. Mas a segunda metade do turno foi triste para a Acadêmica e a tendência, infelizmente, é de ver o Guimarães e o Paços de Ferreira ultrapassarem.
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Se, no campo, o Benfica não consegue proximidade dos rivais, pelo menos conseguiu inaugurar seu estádio sem enfrentar problemas. Após atrasos na primeira fase das obras, a nova Catedral da Luz ficou pronta antes do estádio do Dragão, nova casa portista. Melhor (para os benfiquistas), o estádio do Porto foi inaugurado sem que a grama estivesse bem enraizada. Assim, apenas uma partida (a de inauguração) foi necessária para que tufos de grama saíssem do gramado. Até agora o Porto espera para a reconstituição do gramado. Enquanto isso, continua mandando as partidas no velho estádio das Antas, tendo de indenizar os torcedores que compraram ingressos ou camarotes do novo estádio.
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O Sporting teve problemas parecidos com o novo José de Alvalade. Ainda assim, em relação a partidas de abertura, o estádio do Benfica ficou para trás. Os encarnados abriram as portas da nova casa diante do Nacional de Montevidéu, uma força já bastante decaída. Enquanto isso, o Sporting apresentava seu estádio para a torcida com um amistoso contra o Manchester United e o Porto fazia o mesmo com o Barcelona.
Ubiratan Leal
Imagens: La Gazzetta dello Sport, La Repubblica, Marca e Infordesporto