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19/01/04

Brazil

Pouca gente acertou nas contratações


Depois de uma temporada em que toda a falta planejamento foi exposta, pseudo-elencos não se salvaram psicologicamente com enganadores avanços de fase e o melhor (quem diria?) foi premiado, era de se esperar que os principais clubes brasileiros aprendessem algo para 2004. Ou, para não ser muito exigente, que parte o fizesse. Mas, com alguns estaduais já em andamento e outros prestes a começar, vê-se que pouca coisa mudou, já que a regra continua sendo contratações precipitadas e políticas pouco convincentes.

Pensando bem, o cenário é ainda pior, pois os poucos que adotaram uma estratégia inteligente no mercado de começo de ano foram justamente os que planejaram bem em 2003. Portanto, não é descartada a hipótese de o Brasileirão 2004 (os Estaduais são competições curtas e simultâneas com Libertadores e Copa do Brasil, dando mais espaço para surpresas) ter um desenho parecido com o do ano passado. Aliás, pelo cenário de hoje, é provável que isso aconteça.

Antes de analisar alguns casos mais interessantes, vamos imaginar o que seria uma boa estratégia entre temporadas. Antes de tudo, o clube deve assegurar que só montará um elenco dentro das possibilidades financeiras, isso não merece nem explicações a mais de tão óbvio que é. Sempre com isso em mente, a diretoria e a comissão técnica devem visualizar o que seria um grupo adequado para atingir o objetivo traçado (dependendo do time, a meta pode ser escapar do rebaixamento).

A não ser em casos especiais, imagina-se que um elenco completo seria formado por 11 titulares homogêneos, com alguns jogadores um pouco acima da média para dar a estrutura à equipe. No banco, é recomendável pelo menos 5 reservas em condições de entrar a qualquer momento e outros que, se entrarem em campo, não provoquem uma queda acentuada no desempenho do time todo. Se a temporada anterior foi feliz, a estratégia pode se basear em manter a maior parte do elenco e buscar apenas reforços pontuais ou para deixar o banco de reservas mais abastecido.

Como os clubes não esbanjam dinheiro, nem sempre seguir todos os passos acima é possível, o que é perdoável em curto prazo (em longo prazo, deve ser feito algo para aumentar as receitas, mas isso é outro assunto). O problema é que alguns clubes não chegaram nem perto disso. Pior, alguns pareceram fazer exatamente o contrário sem apresentar argumentos válidos para isso.

Um caso muito claro é o do Corinthians. O alvinegro pareceu priorizar a quantidade, com 13 contratados até agora. Porém, a atuação do clube no mercado foi pouco criteriosa e a reação da torcida deveria ser de espera, no máximo. Além de contratar jogadores de qualidade duvidosa (e que nem ficam no grupo de revelações, pois já são experientes), houve uma superpopulação em algumas posições, enquanto outras continuam no vácuo. Assim, de nada adiantará contar com Gil, Régis, Samir, Marcelo Ramos, Dinélson, Rodrigo, Rafael Silva, Jô, Bobô, Abuda, Wilson, Adrianinho e Renato no setor ofensivo se a defesa continua dependendo dos instáveis Ânderson e Marquinhos ou Váldson. O único alívio para o corintiano é que a diretoria diz estar protegida de um eventual êxodo no meio do ano.

Outra torcida relativamente eufórica sem tantos motivos é a do Palmeiras. O time-base de hoje (Marcos; Baiano, Daniel, Leonardo e Lúcio; Marcinho Magrão, Élson e Diego Souza; Vagner Love e Edmílson) é o mesmo que levou os verdes ao título folgado na Série B. Mas deve ficar bem claro que, na elite, esse grupo pode, no máximo, lutar por posições intermediárias. Para piorar, a diretoria não mostra a menor disposição em investir, pois considera – como parte da torcida – que essa equipe pode brigar pelo título brasileiro. Pior, como São Paulo, Santos e São Caetano estarão envolvidos na Libertadores, provavelmente um bom resultado no Campeonato Paulista não deve servir de parâmetro (isso vale também para o Corinthians, especialista em se iludir com a campanha no estadual).

O São Paulo foi um dos poucos clubes que realmente mudou de tática. Inclusive, o tricolor foi contra uma tendência histórica e preteriu jogadores de nome, trauma da desafortunada passagem de Ricardinho pelo Morumbi. A filosofia é apostar em revelações já avalizadas pelo novo treinador Cuca, outra aposta em revelação. Pelo menos no papel, o time são-paulino é equilibrado, sem esquecer as referências de Luís Fabiano e Rogério Ceni. Pode dar certo.

Do Santos há pouco a se falar. A melhor coisa que a diretoria do peixe poderia fazer era manter o elenco do ano passado. Perdeu Fábio Costa para o Corinthians, o que deve ser considerado como um ponto negativo. Mas ganhou na lateral-direita, com a chegada de Paulo César (ex-Fluminense e Paris Saint-Germain) no lugar de Reginaldo Araújo. Para completar os paulistas, o São Caetano, novamente, saiu fortalecido com as chegadas de Gilberto, Ânderson Lima e Edu Sales, além da permanência de Tite e Marcinho.

Mas quem melhor trabalhou nesse período de férias foi o Cruzeiro. De novo. No fundo, apenas o ataque mudou, coma saída de Aristizábal, Mota e Márcio nobre para a entrada de Rivaldo e Guilherme. A contratação do segundo é duvidosa do ponto de vista técnico, pois faz tempo que Guilherme não é o artilheiro quase infalível de sua primeira passagem pelo Atlético-MG. Mas a chegada de Rivaldo compensa. Com Vanderlei Luxemburgo no banco, provavelmente o meia-atacante terá uma função tática que facilite seu jogo.

Sem o dinheiro dos cruzeirenses, o Atlético-MG apostou certo: buscou o técnico Bonamigo (foto) no Coritiba e trouxe jogadores medianos, mas capazes de formarem um grupo relativamente competitivo. Mas a torcida do galo pode sofrer um pouco com o período de montagem desse time. Talvez o preço seja campanhas discretas no Estadual e na Copa do Brasil.

Concluindo o quinteto de brasileiros na Libertadores, o Coritiba se mostrou pouco ousado. Para uma equipe que disputará a principal competição do continente, limitar as contratações de peso a Aristizábal e Luís Mário é pouco. Os outros recém-chegados (como Reginaldo Araújo, Josafá, Capixaba e Éder) são capazes de, na melhor das hipóteses, manter o coxa no mesmo nível de 2003, o que é bom, mas longe do suficiente. Para piorar as perspectivas alviverdes, o treinador mudou. Bonamigo, maior responsável pelas boas campanhas do time nos últimos anos, foi substituído por Antônio Lopes, um técnico que dificilmente trará alguma novidade ao Alto da Glória. Muito menos uma solução para resolver a falta de jogador no meio-campo do time.

O maior rival do coxa teve uma atitude semelhante á do Corinthians. O Atlético-PR também comprou 13 jogadores. Mas os rubro-negros tiveram mais critério que os corintianos. Muitos dos recém-chegados devem reforçar o banco de reservas, enquanto os demais têm nível técnico dentro das expectativas da torcida atleticana. Ainda assim, está longe de ser a equipe campeã brasileira. O Paraná não teve tanto sucesso e se desfez de boa parte do time que fez boa campanha no Brasileirão 2003. Como os resultados do ano passado também não eram planejados, a esperança é que esse ano ocorra o mesmo. Mas parece improvável.

No Rio Grande do Sul, o Grêmio teve algumas melhoras, como o bom goleiro paraguaio Tavarelli e o sumido Fábio Pinto (foto), que, nas categorias menores, mostrava talento. Em teoria, o time titular do tricolor gaúcho é razoável. Mas o grande problema não está no gramado do Olímpico, mas nos vestiários e na sala de administração. Manter Adílson Batista foi um importante passo para resolver o problema interno no grupo. O resto depende da diretoria.

O Internacional tem méritos parecidos com o do Santos, o de sobreviver a dezembro e janeiro sem vender seus principais jovens. O único problema do colorado é de não ter jogadores mais experientes que comandem a garotada. Talvez Oséas chegue, mas o atacante terá mais importância na conclusão de jogadas do que no comando do grupo. E mesmo do ponto de vista técnico-tático essa contratação não parece ser das melhores.

Para terminar, o Rio de Janeiro. Os cariocas ficaram para o final justamente por serem os clubes que menos acertaram a mão nesse período de férias, o que já deixou de ser novidade há muitos anos. Um sinal disso é que o clube mais discreto – o Botafogo – foi o que mais acertou. Manteve praticamente todo o time vice-campeão da Série B, substituindo Leandrão pelo competente Alex Alves (ex-Portuguesa e Juventus). O maior mérito alvinegro foi o de resistir a tentações e manter um elenco dentro das possibilidades financeiras do clube, algo raro no futebol do Rio de Janeiro.

Talvez o Botafogo pague um preço por gastar o que ganha. Coisa que o Fluminense não se dispôs a fazer. O tricolor foi o carioca que mais investiu e, por isso, sai como favorito ao Estadual. Se Edmundo, Romário, Ramón, André Luiz e Rodolfo estiverem em boa fase, o Flu tem uma base melhor que a dos rivais locais. Porém, isso não quer dizer que o time das Laranjeiras foi o mais bem sucedido dos cariocas. É justamente o contrário. Um elenco desse pode até ter bons resultados para consumo imediato (o Estadual), mas está fora das possibilidades financeiras do clube, por mais que investidores ajudem a pagar os salários mais vultosos. É insistir em uma política que há anos dá errado no futebol brasileiro e que pode levar o tricolor novamente ao fundo da tabela no campeonato nacional.

O atual campeão do Rio, o Vasco, deve ter um período meio “sabático” após a saída de mais de 16 jogadores. Provavelmente Geninho levará um tempo para dar padrão a uma equipe com muitos jovens como Cadu, Claudemir e Rodrigo Souto, e veteranos com pouco a acrescentar como Beto, Donizetti e Valdir. A esperança é a segurança de Fábio no gol e os lampejos de Marcelinho Carioca.

Por fim, o Flamengo de diretoria nova, mas de (poucas) expectativas já antigas. O maior destaque foi a volta de Júnior Baiano, que deve ser insossa do ponto de vista técnico. O restante do time tem característica semelhante ao de 2003, com vários garotos, Júlio César e Felipe. É o que o Flamengo de hoje pode fazer, algo muito longe do tanto que vem prometendo Márcio Braga.

Claro que ainda há tempo de corrigir os equívocos de pré-temporada. Os campeonatos estaduais, se forem usados como um meio no processo de preparação, não como um fim, permitem uma análise adequada do potencial de cada elenco para que correções sejam feitas antes do Brasileirão. De qualquer forma, é importante lembrar que os melhores times do Campeonato Brasileiro de 2003 já estavam com a base formada no Estadual.

*

Antes que os nordestinos se revoltem, nós não nos esquecemos dos clubes baianos e pernambucanos. Só deixamos de lado para falar com mais destaque em breve.

Ubiratan Leal

Imagens: César Trópia/Cruzeiro, Paraná On Line, Rubens Chiri/São Paulo, Atlético-MG, Grêmio e Fluminense

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