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7/01/04

Brazil

Os pontos corridos deram certo


As boas notícias de 2004 chegaram ainda no final de 2003. Afinal, o que mais dizer do fato de a CBF ter divulgado a estrutura básica do regulamento e a tabela do Brasileirão quatro meses antes do início do torneio? E, melhor, mantendo uma fórmula que se mostrou acertada e tendo a intenção de resolver um dos problemas detectados. Porque, apesar de vozes contrárias e de alguns problemas inegáveis, o Campeonato Brasileiro de pontos corridos foi bem-sucedido.

Demorou 44 rodadas para boa parte dos torcedores e jornalistas entenderem, mas um campeonato nacional não se limita à disputa do título. A adoção de fases eliminatórias no final maquia essa realidade, exposta pelo turno e returno direto. Por isso, a análise parte do final da 44ª rodada, exatamente quando o Cruzeiro confirmou um justíssimo e anunciado título.

O primeiro aspecto é que o fato de o Cruzeiro ter conquistado o título com duas rodadas de antecedência, ao contrário do que disseram muitos comentaristas do óbvio, não foi resultado de uma fuga absurda a ponto de tirar qualquer expectativa da corrida pelo título. A classificação final mostra 11 pontos separando os azuis de Minas Gerais e o Santos, mas, até duas semanas antes, a diferença não saía dos 6 pontos. A maioria já dava como certa a conquista cruzeirense, mas o equilíbrio técnico entre esses dois times permitiu alguma emoção.

De qualquer forma, a 44ª rodada terminou com um time dando a volta olímpica. E foi aí que torneio de pontos corridos mostrou sua maior virtude. Nem tudo tinha acabado, e isso não foi uma forçada de barra de analistas loucos para ver virtudes no torneio. A torcida entendeu isso, o que é o mais importante.

Dos 24 clubes participantes, 13 diretamente e alguns outros indiretamente entraram em campo nas últimas duas partidas ainda lutando por um dos objetivos que restaram na competição: obter uma vaga na Libertadores da América e não ser rebaixado (as vagas na Sul-Americana serão desconsideradas, pois apenas Figueirense e Paraná pareceram se importar com elas). Tanto que houve muito interesse (e público) nos jogos das 45ª e 46ª rodadas, nas quais rarearam as partidas que envolvessem duas equipes que cumpriam tabela.

Como Santos, Cruzeiro e São Paulo já estavam matematicamente classificados para a Libertadores, as outras 3 vagas estão sendo disputadas com muito afinco entre São Caetano, Coritiba, Internacional e Atlético-MG. No porão da tabela, Bahia, Grêmio, Fortaleza, Fluminense, Ponte Preta, Juventude e Paysandu ainda não sabiam se ficariam entre os grandes ou se iriam para a Série B.

Os menos otimistas podem questionar, afirmando que 11 equipes desinteressadas em um universo de 24 é um número significativo do ponto de vista estatístico. Mas esses esquecem que, com mata-mata, a realidade nunca foi muito diferente.

Outro argumento é que a média de público caiu. É verdade, mas a análise não pode ser tão simplista assim. Afinal, a média é mais baixa, mas a quantidade de partidas disputadas é muito maior. Ou seja, a arrecadação anual dos clubes cresceu, já que os Estaduais (que ocupariam o espaço do turno a mais) são disputados diante de bancadas abandonadas. Sem contar que a falta de público não é resultado das fórmulas de disputa, mas da falta de condições nos estádios, do transporte até o local ás necessidades básicas de conforto e respeito.

Insistindo no ponto de vista financeiro, o turno e returno diretos abrem espaço para trabalhar de forma ainda melhor, pois há uma previsibilidade maior de gastos e receitas, principalmente em pacotes de pay-per-view e venda de ingressos antecipados (alguém falou em carnês?).

Porém, o mais importante, porém, é que a fórmula premia os melhores. E isso é bom não apenas pelo espírito esportivo, mas porque escancara a realidade de clubes e, de certa forma, os educa para as próximas competições. Por exemplo, um mata-mata teria o Flamengo (8º colocado), o que daria uma imagem positiva à pífia campanha rubro-negra. Um sinal da valorização da campanha geral é que, entre os 7 primeiros, 4 primaram pela organização e planejamento em médio/longo prazo. Tomara que a maioria dos 24 participantes do Brasileirão 2004 tenham aprendido isso. Se isso acontecer, teremos um belo campeonato esse ano. Ratificando os acertos da manutenção da formula de disputa.

Gilberto Meazza

Imagens: César Trópia/Cruzeiro e Papada Blog

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