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26/01/04

Histórias

O futebol está escondido na cidade de 450 anos

A São Paulo de 450 anos parece rejeitar o futebol. A cidade que se orgulha de ter tamanho para receber tudo chega ao seu 450º aniversário sem saber onde estão as raízes de seu futebol. As tradicionais referências ficam cada vez mais desfocadas, provocando uma uniformização crescente na “sociedade futebolística” da maior cidade do país. E nada tão paulistano quanto esse fenômeno.

Falar em origens do futebol paulistano é voltar muito no tempo, pelo menos no padrão temporal da sempre recente história brasileira. À parte algumas partidas informais disputadas por marinheiros ingleses em portos do país, o futebol surgiu, oficial e formalmente, na capital paulista. Vendo com os olhos de hoje, parece meio lógico que um esporte seja implantado na principal cidade de um país. Mas, na época, a relação de grandeza e importância entre os municípios brasileiros era diferente.

Na década de 90 do século XIX, São Paulo ainda era um emergente centro regional, cuja impulsão econômica e populacional se devia a cultura do café no interior da província. No máximo, era a cidade onde D. Pedro I proclamara a Independência da nação cerca de 70 anos antes. Mas nada que ameaçasse a supremacia, poder e população do Rio de Janeiro, então a capital da recém-proclamada República.

Por isso, não se pode dizer que é natural o fato de o futebol brasileiro surgir em São Paulo. Claro que há razões históricas, como a presença dos ingleses por toda a província na construção de estradas de ferro que ligassem porto de Santos às fazendas de café. Ainda assim, o mais normal seria o pioneirismo carioca.

Na medida em que o football caía no gosto do paulistano, surgiam clubes. E não foram poucos. Em uma cidade com tamanha diversidade cultural, com tanta gente diferente, tantas colônias de imigrantes, cada grupo tratou de criar sua equipe. Ver a relação de clubes disputando os torneios de futebol dava um perfeito retrato da sociedade paulistana da época (veja destaque no final do texto).

Essa relação futebol + sociedade sempre existiu em São Paulo. Talvez sempre tenha existido no mundo todo, mas a cidade que faz aniversário é São Paulo e por isso seguiremos falando da capital paulista. Das dezenas de clubes paulistanos do início do século XX, apenas um punhado sobreviveu ao profissionalismo (implementado em 1933) ou à concorrência por mais de 15 anos. Assim, era de se esperar que o futebol da cidade ficasse com Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Portuguesa, Juventus, Nacional, Comercial e Ypiranga (depois ainda viria o Guapira).

Mas nunca se pode esperar estabilidade em uma cidade como São Paulo. A cidade nasceu como uma vila provinciana, mas, a partir no momento que começou a se desenvolver, assumiu para si uma missão de crescer sempre, passando por cima de muitas coisas em nome de um pretenso progresso. Poucas tradições justificariam a interrupção ou frenagem desse processo.

A São Paulo de hoje começou a se desenhar de forma mais consistente nos anos 50, quando o crescimento não se limitava mais à cultura cafeeira, mas também à incipiente indústria. Já não era um centro econômico apenas, pois se tornava uma capital cosmopolita, misturando todos aqueles imigrantes para dar um novo perfil à cidade.

Por isso, não é total coincidência que, naquela década (justamente quando os paulistanos pararam para festejar o IV Centenário de fundação da cidade), houvesse uma grande transformação no perfil dos clubes da capital paulista. Afinal, quem não tivesse força para se estabelecer seria esquecido. Como tudo na cidade.

Um caubói com profundidade filosófica mais rasa que uma piscininha infantil definiria São Paulo como “uma cidade que não é para os fracos”. É bobagem, mas foi mais ou menos isso que aconteceu com o futebol. Afinal, os clubes pequenos foram sufocados pela cidade. O paulistano típico dificilmente deixará de apoiar um grande para se apegar ao clube de seu bairro ou de sua comunidade. Não faz parte do perfil local de valorizar o forte, o conquistador.

Por isso, o Comercial e o Ypiranga fecharam seus departamentos de futebol profissional. O Guapira, o Leão da Zona Norte, foi pelo mesmo caminho há dois anos. O mesmo só não aconteceu com o Juventus porque ainda há alguns abnegados que mantém os grenás. O Nacional ainda consegue viver da venda de jogadores que cria. Aliás, até a Portuguesa, um meio-grande, teve de terceirizar seu futebol. Faltava dinheiro e não há tantos torcedores da lusa para dar melhores perspectivas para o clube.

Outra característica paulistana é a miscigenação. Achar que os corintianos estão na periferia, os são-paulinos nos bairros da elite e os palmeirenses nas cantinas e pizzarias é estereotipar precipitadamente. Há são-paulinos em todas as partes, inclusive nas favelas. Da mesma, forma, há corintianos italianos e em bairros de alto padrão. Não há preconceitos, não há apego a origens remotas.

Ainda assim, a capital paulista parece ter vocação para ser hostil (sempre, principalmente com seu cidadão comum no dia-a-dia). Hoje, não são apenas os pequenos clubes da cidade que sofrem. Os grandes também padecem com a falta de interesse do torcedor nos últimos anos. De exigente, a torcida paulistana se tornou meio blasé. Ver futebol deixou de ser programa há anos, até porque o trânsito, o tratamento tosco que o torcedor recebe no estádio e a possibilidade de alguma torcida organizada cruzar em seu caminho não colaboram. Agora, estado só para jogo muito importante. No mais, não vale a pena. Uma exceção mais do que bem-vinda foi o Palmeiras na Série B do brasileiro de 2003.

De qualquer forma, a impressão que dá é que o futebol, como tantos outros produtos paulistanos, tem dificuldade em encontrar seu lugar na cidade. Há espaço, mas esse deve ser redefinido. São Paulo mudou como sempre, mas os conceitos que regem o futebol paulistano, não. Foram feitos para uma cidade que já não existe mais.

*

Veja todos os clubes paulistanos que já se passaram por alguma divisão do campeonato estadual:
Clubes de colônias: ingleses – São Paulo Athletic Club, Scottish Wanderers e Britannia; italianos – Palestra Itália/Palmeiras, Juventus, Ítalo, Ruggerone, Humberto Primo, Ítalo-Brasileiro e Itália; portugueses – Portuguesa (uma fusão de Sport Club Luzitano, Marquês de Pombal, Lusíadas, Portugal Marinhense e Cinco de Outubro), União Vasco da Gama, Luso-Brasileiro e Luzitano Futebol Clube; alemães – Germânia/Pinheiros; vários – Internacional e Ítalo Luzitano; sírio-libaneses – Syrio e Libanês; húngaros – Húngaro República, Húngaro Ipiranga e Húngaros Paulistanos; e japoneses – Japão Foot Ball Club.
Clubes de bairros: Jaçanã – Guapira; Ipiranga – Ypiranga, Independência e Flor do Ypiranga; Santo Amaro – Progresso e Santo Amaro; Barra Funda – Barra Funda; Campos Elíseos – Campos Elíseos; Saúde – Estrela da Saúde; Lapa – Lapeaninho, União Lapa e Lapa; Brás – Minas Gerais (depois Braz, Auto, Auto-Audax e Americano) e Castellões; Mooca – Parque da Mooca, Vila Mariana – Paysandu; Cambuci – Cambucy; Pari – Estrela; Belém – Flor do Belém; Vila Esperança – União; Vila Clementino – Vila Clementino; Vila Mazzei – Vila Mazzei
Clubes de classes sociais: trabalhadores – Corinthians, Nacional (ex-São Paulo Railway), Nitro-Química, Sílex (depois América), Antarctica, Santa Marina, Cama Patente, Orion, Ramenzoni, Franco-Brasileiro, Gráphica, Light & Power, Paulista de Aniagens, Tramway Cantareira e União Operários; elite – Paulistano, AA das Palmeiras, São Paulo, São Paulo da Floresta; e estudantes – Mackenzie, Estudantes e Estudantes Paulista.
Outros clubes: Albion, Alfa, Alumni, Americano, Comercial, Jardim América, maranhão, Minister, Ordem e Progresso, Paulista, RepúblicaSão bento, São Paulo Alpargatas, Tremembé, Vicentino, 5 de Outubro, Colombo, Commercial, Concórdia, Dante Alighieri, Democrático, Éden liberdade, Estrela de Ouro, Guanabara, Helvetia, Horoe de Chamas, Indianópolis, Juta Belém, Juta Sant’Anna, Liberdade, Desportiva, Oriental, Olympica, Oriente, Palmeiras FC, EC Paulisa, Paulistana, Ponte Grande, Progresso, Republicano paulista, Rio Branco, Roma Sampaio Moreira, Sant’Anna, Sampson, São Geraldo, Saturno, Scarpa, Sul América, Territorial Paulista, Tiradentes, União Belém, Touring, União Brasil, União Fluminense, Vila Deodoro e Voluntários da Pátria.

*

A lista acima foi retirada do Almanaque do Futebol Paulista 2001, publicado pela editora Panini.

Ubiratan Leal

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