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23/01/04

Histórias

O centenário do Campeonato Baiano

Eram 15h em Salvador (16h em Brasília) quando Palmeiras Nordeste, Juazeiro, Cruzeiro e Itabuna deram início ao Campeonato Baiano 2004. Uma competição que – como os demais estaduais – perde força, ainda mais quando seu mais tradicional clube (o Bahia) vive uma crise que o relegou à Série B do Brasileiro há apenas um mês. Mesmo assim, o fanático torcedor baiano tem motivo para celebrar (como se baiano precisasse de motivo para uma festa): esse é o 100º Estadual da Bahia, que, ao contrário do que muitos pensam, é o segundo mais antigo do país, à frente inclusive do Rio de Janeiro.

Oficialmente, tudo começou com uma vitória de 3x1 do Club Internacional de Cricket sobre o Vitória em 9 de abril de 1905. Além desses dois, apenas outras duas equipes participaram daquele torneio, o São Salvador e o Bahiano. A fórmula era simples, com pontos corridos em dois turnos (isso em 1905). O Internacional venceu todos os 6 jogos e foi o primeiro campeão da Bahia.

O curioso é que o Internacional não defendeu seu título até o fim do campeonato seguinte. Em 1906, o clube até entrou na disputa. Porém, depois de 3 partidas (uma vitória e duas derrotas), o time se retirou. Só voltaria anos depois.

Durante quase meio século, o Campeonato Baiano foi, na realidade, um Campeonato Soteropolitano. Entre 1905 e 1953, apenas clubes da capital participavam do torneio. Nesse período, vários clubes disputavam a hegemonia local, que não se limitava ao atual dueto Bahia-Vitória. O rubro-negro, inclusive, era até um concorrente menor. Estava no torneio de 1905, mas deixou de disputar vários campeonatos nessas décadas e ficou sem o mesmo destaque de Galícia, Botafogo, Ypiranga e do Esporte Clube Bahia.

Esse último era um caçula no grupo, mas nasceu arrasando. Foi campeão no ano de sua fundação (1931) e, em poucos anos, já dominava o futebol baiano (ou soteropolitano). Entre os anos 30 e 50, o tricolor levou 6 títulos por década. Para os olhos do Sul-Sudeste, pode parecer pouco. Mas, em 1959, o Bahia foi o primeiro clube a vencer alguma competição de abrangência nacional, a Taça Brasil.


O torneio era uma espécie de Copa do Brasil, pois reunia os campeões estaduais em mata-matas até sair o campeão. Na final, os baianos bateram o Santos de Pelé (3x2 Santos na Vila Belmiro, 2x0 Bahia em Salvador e 3x1 tricolor na partida desempate disputada no Maracanã). Esse título fez do Bahia o representante brasileiro na primeira edição da Taça Libertadores da América.

Com todas essas conquistas, seus rivais foram perdendo força. E aí surgia o atual rival. O Vitória, na verdade, ressurgiu e, com os títulos de 53, 55, 57, 64 e 65 se estabelecia como o único adversário real para o tricolor.

Assim, os clubes de fora da capital chegaram com um cenário já definido e tiveram poucas chances de serem concorrentes de peso. O pioneiro do interior baiano foi o Fluminense de Feira de Santana, até hoje o único time não-soteropolitano a ser campeão da Bahia (em teoria, não é exatamente assim. Veja explicações adiante). Mesmo porque ele foi o único por mais de uma década. “Colegas” do interior só apareceram em 1967, com Bahia de Feira de Santana, Colo-Colo de Ilhéus, Conquista de Vitória da Conquista, Flamengo de Ilhéus, Itabuna da cidade homônima e Vitória de Ilhéus.

Na década de 70, o Bahia conseguiu ampliar ainda mais sua hegemonia. O tricolor obteve um inédito hepta-campeonato entre 1973 e 1979, ajudando a montar a segunda maior coleção de campeonatos estaduais de qualquer clube brasileiro (são 43, 4 a menos que o ABC de Natal, fundado em 1915). Era a época do Campeonato Brasileiro inchado, em que todos os Estaduais eram classificatórios para o Nacional.


A dupla Ba-Vi era presença quase garantida. Foi quando a rivalidade entre tricolores e rubro-negros realmente se solidificou. E não é uma rivalidade pequena. O torcedor baiano adora lotar estádio e brincar, mas também sabe como torcer contra. Tanto que o rebaixamento do Bahia nos Brasileiro de 97 é até hoje lembrado com festa pelos rubro-negros. Talvez deixe de ser, pois o tricolor repetiu o feito negativo em 2003. Do ponto de vista do torcedor do Vitória, há uma piada nova.

Voltando aos Brasileirões monstruosos, o Bahia aproveitava a falta de rivais locais à altura nos anos 70 e 80 e ganhava algum destaque nacional. Com a presença constante nos nacionais e uma torcida assídua e fiel, o Bahia foi o único clube fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Minas Gerais-Rio Grande do Sul a fundar o Clube dos 13, uma entidade que pretendia, na época, exercer um papel de liga, tirando um pouco o poder da CBF.

Essa nova força política se fez sentir em 1987, quando foi organizada a Copa União. Seria o fim dos Brasileiros superdimensionados, com mais de 40 clubes. Foram convidados 16 times. Os membros do Clube dos 13, mais Goiás, Coritiba e Santa Cruz. A CBF insistiu e, com alguma razão, obrigou os vencedores da Copa União a cruzarem com os finalistas do Módulo Amarelo (no qual estava o Vitória). Como Flamengo e Internacional se negaram a entrar em campo, o Sport foi proclamado oficialmente Campeão Brasileiro de 1987.

O primeiro título brasileiro do Nordeste foi para Pernambuco, o que não deixou os baianos muito felizes. Mas foi por pouco tempo. Em 1988, o Bahia de Bobô e Evaristo de Macedo fez uma campanha extremamente consistente e se classificou entre os 8 quadrifinalistas (aliás, desses 8, nenhum era paulista). Na fase final, os baianos deslancharam e passaram por Sport, Fluminense e Internacional. Até o rebaixamento em 1997, o Bahia havia disputado todas as edições do Brasileiro, feito só repetido, na época, pelos 4 maiores do Rio de Janeiro, Internacional, Cruzeiro e Atlético-MG. O Vitória teve um retrospecto um pouco mais discreto, não participando em 71, 83, 84, 85 e 92.

Se os anos 80 viram a maior glória da história tricolor, também marcaram o crescimento dos rubro-negros. Em 1985, o Vitória finalmente se tornou os segundo maior vencedor do Estado, passando o Ypiranga (que ainda se aproveitava das conquistas das primeiras décadas do século). A equipe se organizou administrativamente e apostou alto em infra-estrutura e categorias de base.

A estratégia dá resultado até hoje. O Vitória foi finalista do brasileiro em 1993, semifinalista em 2000 e espalhou jogadores pelo mundo. Dida (do Milan), Alex Alves (ex-Hertha Berlin), Júnior (Parma), Fábio Costa (Corinthians), Vampeta (ex-Corinthians), Fábio Bilica (Ancona) e Matuzalém (Brescia) são alguns exemplos. Nos últimos meses, as principais revelações do Vitória a saírem foram Nádson e Dudu Cearense, ambos vendidos para o Extremo Oriente. Assim, o Vitória é, em campo, o time com mais força na Bahia de hoje. Dos últimos 15 campeonatos baianos, os rubro-negros levaram 8 (mais um supercampeonato), os tricolores 5, um está na Justiça e outro foi para o Palmeiras Nordeste.


Porém, o Estadual perdeu muito de sua importância nos anos 90. Com o crescimento do Campeonato do Nordeste, os grandes clubes da região começaram a ver os estaduais como algo secundário. E, mesmo assim, os baianos continuaram mostrando a força. Dos 7 Nordestões organizados entre 1997 e 2003, a Bahia ficou com 5 (3 do Vitória e 2 do Bahia).

Em 2003, a CBF reestruturou o calendário nacional e procurou revalorizar os Estaduais. Não foi, claro, por motivos nobres, mas uma forma de devolver algum poder às decadentes federações estaduais e golpear as recém-criadas ligas regionais, independentes das instituições federativas.

Com tudo isso, talvez os Estaduais não durem por mais muito tempo. O que valoriza ainda mais o feito do futebol da Bahia. O de ser o segundo do Brasil a completar a 100ª edição.

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Dois esclarecimentos que se fazem necessários. A final do Estadual de 1999 (mais um Ba-Vi) estava programada para o estádio do Barradão. O Bahia havia vencido a primeira partida por 2x0 e podia perder por um gol de diferença. Por isso, o Vitória não abria mão de jogar em seu estádio. Mas uma associação ligada ao Bahia entrou na Justiça pedindo a transferência da partida para a Fonte Nova. Conseguiu. O Vitória não aceitou a decisão e foi jogar no Barradão. O Bahia apareceu na Fonte Nova. Não houve jogo (óbvio) e a Justiça até agora não decidiu quem é o campeão baiano de 1999. Como venceu a primeira partida, o Bahia se considera campeão.

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O outro esclarecimento diz respeito ao campeonato de 2002. Como o calendário quadrienal que durou um ano estabeleceu, os estaduais foram disptuados apenas pelos clubes pequenos, pois os grandes estavam nos regionais. Depois, seriam disputados supercampeonatos, juntando os grandes e os pequenos. Naquele ano, o Palmeiras Nordeste – uma filial do Palmeiras em Feira de Santana – foi oficialmente o campeão baiano. No supercampeonato, o Vitória ficou com o título.

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Nesses 100 campeonatos baianos, alguns ex-grandes clubes merecem algum destaque. O Galícia, como o nome sugere, foi fundado pela colônia espanhola de Salvador. O símbolo tem as cores da Galícia, com a cruz de Santiago no meio. O clube tem 5 títulos estaduais (sendo um tri nos anos 40), mas seu último suspiro foi o vice-campeonato de 1995. O Ypiranga só era conhecido nos últimos anos por ser o clube de Jorge Amado, até porque o último título veio em 1951. Mas nada apaga os 10 títulos estaduais do clube e os 16x0 impostos ao Democrata no campeonato de 1930, a maior goleada da história do Campeonato Baiano. Para fechar, o Botafogo, um dos maiorais na década de 20, mas que disputou a Primeira Divisão até o 1989. Esses 3 clubes ainda existem, mas estão licenciados. De qualquer forma, as inscrições para a Segunda Divisão baiana estão abertas e, de acordo com o site da Federação, esses três clubes podem, se quiser, voltar.

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Na 100ª edição, o Campeonato Baiano é disputado por Atlético (Alagoinhas), Bahia, Camaçari, Camaçariense (Camaçari), Catuense (Catu), Colo-Colo (Ilhéus), Cruzeiro (Cruz das Almas), Fluminense (Feira de Santana), Itabuna, Juazeiro, Palmeiras Nordeste Poções e Vitória. Os clubes foram divididos em 3 grupos. Cada tiem joga dentro do próprio grupo em ida e volta. Os 3 primeiros do Grupo 1 e os 2 primeiros do 2 e 3 se classificam para as quartas-de-final. A partir daí, são eliminatórias simples em dois jogos até apurar o campeão baiano.

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Aí vai a lista dos 99 campeões baianos: 1905 – Internacional; 1906 e 07 – São Salvador; 1908 e 09 – Vitória; 1910 – Santos Dumont; 1911 – SC Bahia; 1912 – Atlético; 1913 – Fluminense (Salvador); 1914 – Internacional; 1915 – Fluminense (Salvador); 1916 – República; 1917 e 18 – Ypiranga; 1919 – Botafogo; 1920 e 21 – Ypiranga; 1922 e 23 – Botafogo; 1924 – AA da Bahia; 1925 – Ypiranga; 1926 – Botafogo; 1927 – Bahiano de Tênis; 1928 e 29 – Ypiranga; 1930 – Botafogo; 1931 – Bahia; 1932 – Ypiranga; 1933 e 34 – Bahia; 1935 – Botafogo; 1936 – Bahia; 1937 – Galícia; 1938 – Bahia e Botafogo; 1939 – Ypiranga; 1940 – Bahia; 1941 a 43 – Galícia; 1944 e 45 – Bahia; 1946 – Guarani; 1947 a 50 – Bahia; 1951 – Ypiranga; 1952 – Bahia; 1953 – Vitória; 1954 – Bahia; 1955 – Vitória; 1956 – Bahia; 1957 – Vitória; 1958 a 62 – Bahia; 1963 – Fluminense (Feira de Santana); 1964 e 65 – Vitória; 1966 – Leônico; 1967 – Bahia; 1968 – Galícia; 1969 – Fluminense (Feira de Santana); 1970 e 71 – Bahia; 1972 – Vitória; 1973 a 79 – Bahia; 1980 – Vitória; 1981 a 84 – Bahia; 1985 – Vitória; 1986 a 88 – Bahia; 1989 e 90 – Vitória; 1991 – Bahia; 1992 – Vitória; 1993 e 94 – Bahia; 1995 a 97 – Vitória; 1998 – Bahia; 1999 – indefinido; 2000 – Vitória; 2001 – Bahia; 2002 – Palmeiras Nordeste e Vitória; 2003 – Vitória.

Ubiratan Leal

Imagens: Vitória, Bahia, Barradão Online e Escudettos

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