Nem bem começou o olímpico ano de 2004 e surgem as primeiras manifestações ufanistas. Afinal, essa semana começa o Pré-Olímpico de futebol e comentários com um tom “uma vaga é do Brasil” e “não dá para ficar de fora” já foram tão falados que já deve ter torcedor comprando ingresso para a final do torneio olímpico em Atenas. Realmente, o Brasil é o mais forte dos 10 concorrentes às duas vagas, mas a vaga está bem longe de estar garantida.
Se tudo ocorrer como planejado (ou perto disso), o Brasil passa sem problemas pelas Eliminatórias olímpicas. Afinal, a seleção sub-24 fez uma campanha convincente na Copa Ouro no ano passado, vencendo as seleções principais de Colômbia e Estados Unidos e a seleção júnior (que tem vários jogadores no grupo que viajou ao Chile) acabou de conquistar o mundial da categoria. Porém, mais importante que isso, é a base com o zagueiro Alex, os meias Diego, Fábio Rochemback, Dudu Cearense e Daniel Carvalho e os atacantes Nilmar e Robinho, sem contar promissores coadjuvantes como Dagoberto, Elano e Rodolfo. Nenhum país foi ao Chile com uma seleção tão forte no papel.
Posso parecer um chato, mas talvez isso tudo não seja suficiente. O Brasil não se preparou como deveria, aumentando as chances de a seleção demorar a encontrar um padrão de jogo ou a escalação ideal – algo perigoso com os adversários da primeira fase. Por isso, a estrutura montada na Copa Ouro deve continuar mais ou menos a mesma, o que também traz problemas se for considerado que Kaká e Luisão – que não foram liberados por seus clubes europeus – não estão na seleção pré-olímpica.
É verdade que as outras seleções também não se prepararam muito bem, pois os campeonatos nacionais sul-americanos estavam em disputa até poucas semanas atrás. Mas a falta de entrosamento generalizada provoca um nivelamento nesse quesito, dando mais espaço para surpresas surgirem, algo comum em Pré-Olímpicos. Em 2000, o Chile desclassificou uma fortíssima seleção argentina. Em 92, o Brasil foi desclassificado por Paraguai e Colômbia por não conseguir ganhar da Venezuela. No mesmo torneio, a Argentina ficou atrás de Chile e Uruguai na primeira fase e também não conseguiu uma vaga para os Jogos de Barcelona.
Sem contar que os adversários, ao contrário do que grande parte da imprensa esportiva chega perto de pregar, não são um amontoado de garotos que acabaram de ser apresentados a uma bola de futebol. No meio dessas seleções há jogadores de talento que nós, brasileiros, não conhecemos e, por isso, menosprezamos. Foi assim com a seleção paraguaia de 92 – que tinha Gamarra e Arce – e a chilena de 2000.
Do que se sabe, da para dizer que o maior adversário é a Argentina. A seleção treinada por Marcelo Bielsa conta com jogadores experientes para a categoria e, pior (para os brasileiros), de qualidade comprovada. São os casos do lateral-esquerdo Clemente Rodríguez (Boca Juniors), do zagueiro Burdisso (também Boca) e do centroavante Luciano Figueroa (Cruz Azul do México). Sem contar o atacante boquense Carlos Tévez (foto), talvez o maior talento que joga no futebol sul-americano (pelo menos até Rivaldo estrear pelo Cruzeiro). Com um grupo que joga mais ou menos junto desde as categorias amadoras, os argentinos são tão fortes quanto o Brasil.
O outro favorito natural é o Chile, anfitrião, detentor da última medalha de bronze olímpica e maior perigo ao Brasil na primeira fase. No entanto, a seleção da estrela solitária (é só observar a bandeira chilena para saber porque esse apelido não é exclusivo do Botafogo carioca) teve atuações pouco seguras na preparação para o torneio. O maior problema para o treinador Juvenal Olmos, até agora, está na frente. Nos últimos amistosos, as jogadas não fluíram com facilidade para a conclusão dos promissores Villanueva e Millar.
Ainda no grupo do Brasil estão duas outras seleções com tradição em categorias menores (aliás, quais foram os critérios para o sorteio?). O Uruguai conta com o meia Olivera, da Juventus de Turim, e o atacante Peralta, do Nacional de Montevidéu. Também merece atenção o inventivo técnico Juan Ramón Carrasco, um dos principais responsáveis pela montanha-russa que foi o Brasil 3x3 Uruguai nas Eliminatórias para a Copa de 2006.
A outra equipe que pode assustar o Brasil é o Paraguai. A base do time é o Guaraní, clube que surpreendeu ao tirar a terceira vaga na Libertadores 2004 do Cerro Porteño. A chave é completada pela ascendente Venezuela, responsável pela eliminação brasileira em 92 e uma das finalistas em 96. O discurso dos próprios venezuelanos é de “fazer um bom papel e estar concentrado os 90 minutos para conseguir alguma coisa”. O maior destaque da equipe é o volante Miguel Mea Vitali do Caracas.
No outro grupo, o maior adversário da Argentina, em tese, é a Colômbia. Os cafeteiros comandados por Jaime de la Pava estão com uma geração promissora. A mesma que ajudou na boa campanha dos clubes do país – Medellín, Deportivo Cáli e América de Cáli – na última Libertadores e que vem decepcionando nas Eliminatórias para a Copa de 2006. Curiosamente, o maior destaque colombiano é um jogador já bastante conhecido. O meia Johnnier Montaño (foto) apareceu como prodígio e já estava na seleção principal da Colômbia na Copa América de 99, com 16 anos. Conseguiu um contrato com o Parma, mas, após 5 anos de Europa, ainda não confirmou as expectativas. Está no Piacenza, da Serie B italiana.
As esperanças peruanas estão no Cienciano. Não que o clube de Cuzco tenha cedido vários jogadores para a seleção olímpica do país – pelo contrário, só o meia Julio García estava no time campeão da Copa Sul-Americana –, mas porque a equipe dirigida por Paulo Autuori se inspira no feito imperial para surpreender no Pré-Olímpico. A base do Peru é o Alianza Lima, atual campeão nacional.
Na Bolívia, a principal arma do técnico chileno Nelson Acosta é José Castillo, atualmente sem clube. O atacante foi um dos maiores artilheiros do mundo em 2001, quando marcou 42 pelo Oriente Petrolero na liga boliviana. Por fim, o Equador é outra seleção que vai sem grandes pretensões, confiando no atacante Mina, do Huracán da Argentina, e no meia Franklin Salas, revelação da Liga Deportiva Universitária de Quito e eleito o melhor jogador do Equador em 2003.
É possível o Brasil passar por tudo isso? Claro, mas as dificuldades podem ser semelhantes às enfrentadas nas Eliminatórias. No qualificatório para a Copa, a torcida não tem se mostrado paciente. Que o comportamento não seja o mesmo com os pré-olímpicos.
Ubiratan Leal
Imagens: Yahoo! España, Olé e Calciatori