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9/01/04

Histórias

Lodigiani, Europa, Tennis Borussia, Tranmere...

Muitas vezes um clássico é a representação das relações sócio-culturais da cidade em questão. Assim é, para dar dois exemplos já batidos, com os católicos do Celtic enfrentando os protestantes do Rangers e o povo (Flamengo) contra a elite (Fluminense) carioca. Por isso, os grandes clubes são símbolos da cidade, principalmente para quem é de fora. Mas, isso não impede que vários pequenos ou minúsculos clubes vivem do que sobra, mesmo tendo representatividade praticamente nula e fama próxima a zero. Pois é, mas eles existem.

Quase todas as capitais futebolísticas regionais têm o seu. Por isso, vamos falar apenas de alguns que merecem destaque. Uns já foram grandes ou tiveram momentos ilustres, outros são completamente desconhecidos. A divisão vai por países.

Itália
O torcedor brasileiro se acostumou a ver cada cidade italiana normal com um clube. As grandes teriam dois. E só. Assim, Roma (Roma e Lazio), Milão (Milan e Internazionale), Turim (Juventus e Torino) e Gênova (Genoa e Sampdoria) seriam as únicas cidades italianas com clássicos locais. as demais teriam apenas um representante, se tanto. E muitos viram o calcio dessa foram por vários anos.

Até que o pequeno Chievo surgiu como um segundo time de Verona e surpreendeu muitos. Não apenas pela campanha brilhante, mas também pela simples existência de um segundo clube em Verona. Hoje, o Chievo (na Série A) está mais bem posicionado que o tradicional Hellas (lutando para não cair para a Série C1). Mas não é do clube do distrito de Chievo que vamos falar. Já é óbvio. Também não falaremos da AlbinoLeffe, clube bergamasco que está no mesmo nível do seu vizinho maior, a Atalanta. Ainda há o Citadella, rival local do Padova, e o Mestre, equipe da parte continental de Veneza que amarga a Série D (equivalente à 5ª Divisão italiana).

Não, o clube italiano mais ofuscado pelos vizinhos é o Lodigiani Calcio. Afinal, quantos sabem que, além de Roma e Lazio, a capital italiana tem um terceiro clube de futebol profissional? A sensação de inferioridade dos biancorrossi só não é maior porque o Lodigiani nasceu despretensiosamente. Para que seus funcionários pudessem participar de campeonatos amadores, a construtora Lodigiani criou um grêmio interno. Em 1972, a instituição se transformou em um clube profissional.

O clube manda seus jogos no estádio do subúrbio de Tre Fontane. Nas poucas vezes em que o Lodigiani chegou a fases mais avançadas da Copa da Itália, mandou as partidas no estádio Flamínio – antigo estádio Del Partido Fascista Italiano, sede da final da Copa de 34 –, com capacidade para 24 mil pessoas e que é usado principalmente pela seleção italiana de rúgbi.

Os biancorrossi não têm sonhos de grandeza. O maior objetivo do clube – atualmente na Série C1 (3ª Divisão), lutando para não cair para a C2 – é lançar jogadores para as principais equipes do país. Até agora, as mais importantes revelações da equipe foram o defensor Apolloni (ex-Parma) e o volante Onorati (ex-Genoa). Dos 27 jogadores do elenco de hoje, 15 nasceram em Roma.

Espanha
Tradicionalmente, os maiores clubes espanhóis são Real Madrid, Barcelona, Athletic Bilbao e Atlético Madrid. Nos últimos anos, o Valencia tem se destacado, com um título nacional e dois vices continentais. Mas dois pequeninos merecem destaque no meio das potências da terra de Antoni Gaudí, Pablo Picasso e Miguel Induráin.

Se você logo pensou no Rayo Vallecano de Madri e no Espanyol de Barcelona, errou. Afinal, esses dois clubes já estão acostumados a freqüentar a elite espanhola e falar deles não é novidade. Por isso, o primeiro destaque vai para um clube em crescimento, o Levante Unión Deportiva de Valência.

O clube surgiu na região costeira da cidade na primeira década do século XX e, depois da Guerra Civil Espanhola e a fusão com o Gimnástic, adotou as cores azul e grená. Os levantinos passaram boa parte de sua história nas divisões menores, sem ameaçar a supremacia do Valencia na região.

Mesmo assim, o Levante já esteve na elite. Foram apenas duas temporadas, 1963-64 e 1964-65. Na primeira, os azulgranas fizeram uma campanha digna, terminando em 10º lugar. Na segunda, a equipe do Poblado Marítimo bateu o Barcelona por 5x1, venceu o clássico com o Valencia por 2x1 e arrancou um empate em 1x1 em Bilbao, mas foi rebaixado após perder para o Málaga na repescagem.

Depois de um bom tempo na Segundona, (com uma passagem pela Terceira Divisão), o Levante começou a temporada 1980-81 disposto a investir na promoção à elite. Por isso, contratou o já veterano holandês Johann Cruijff. O estádio Ciutat de Valencia lotou em quase todos os jogos, mas os azulgranas não subiram. Pior, o clube não pôde arcar com a extravagância financeira e foi rebaixado para a Tercera División (equivalente à Quarta, pois havia a Segunda División A e B) por determinação da federação. Depois de se reestruturar, os levantinos voltariam à Segunda A, com eventuais visitas à Segunda B.

Na temporada passada, o Levante só não disputou a Segunda B porque o Burgos foi rebaixado administrativamente. Empolgados com o não-rebaixamento inesperado, os dirigentes investiram na contratação de jogadores de nome como o atacante iugoslavo Mijatovic (ex-Valencia, Real Madrid e Fiorentina, hoje aposentado). Quase deu certo. O time ficou em 4º, mas só 3 subiam para a elite.

Mas o segundo clube valenciano tem grandes chances de subir nessa temporada e reeditar o clássico da cidade na próxima temporada. Os azulgranas são líderes com 35 pontos, um a mais que o Numancia e 4 à frente do Sporting Gijón. Nessa semana, o Poblado Marítimo também comemorou um feito pela Copa do Rei. O Levante venceu o Barcelona por 1x0 na partida de ida das oitavas-de-final.

Se o Levante está em um bom momento, o mesmo não se pode dizer do Club Esportiu Europa, o terceiro clube de Barcelona. Fundado em 5 de junho de 1907 – resultado da fusão do Madrid com o Provençal, dois clubes da capital catalã – com o castelhano nome de Club Deportivo Europa, os escapularis tiveram seus momentos mais gloriosos na primeira metade do século passado.

Em 1923, o time venceu o Barcelona e conquistou a Copa Catalunha. Na mesma temporada, o Europa chegou à final da Copa do Rei contra o Athletic Bilbao. Sem aceitar a derrota na copa regional, a torcida do Barça foi ao estádio apoiar o lado basco, iniciando uma rivalidade grande entre as duas equipes catalãs. Sinal da força do Europa na época, reforçada pela participação do clube na fundação da Liga Espanhola.

Após disputar as três primeiras edições do campeonato nacional, o Europa foi rebaixado. Foi o início de um processo decadencial que quase resultou no desaparecimento do clube. Na realidade, o Europa chegou a perecer após a fusão com o Grácia, criando o FC Catalunya. No entanto, a equipe de futebol foi mantida com as cores e o nome do Europa, mesmo que disputando apenas as ligas amadores da cidade. Depois os escapularis se remontaram, voltando ao profissionalismo. Desde então, milita nas divisões menores do futebol espanhol, com uma melhora significativa – e temporária – nos anos 60, quando alcaçaram a Segunda Divisão. Hoje está em 13º lugar no Grupo 5 da Tercera División (equivalente à Quarta).

Mas duas das maiores glórias do Europa são recentes: o bi-campeonato da Copa Catalunha em 97 e 98, ambas com vitórias sobre o Barcelona na final. O outro grande feito do clube do estádio Nou Sardenya é a vitória de 1x0 sobre a seleção uruguaia em 1931. Segundo os escapularis, foi a única vez que um clube venceu a seleção que detinha o título da Copa do Mundo.

Alemanha
Na Alemanha, são notáveis o caso do St. Pauli (segundo time de Hamburgo), do Stuttgarter Kickers (de Stuttgart) e do Fortuna Köln (de Colônia). Mas o maior cenário de clubes esquecidos é Berlim. Na verdade, até hoje falta uma referência no futebol da maior cidade da Alemanha. O Hertha é a equipe que mais se aproxima disso, já sendo uma figura constante na Bundesliga e até já conseguindo lugar na Liga dos Campeões. Mas o último título nacional do clube foi conquistado em 1931, antes da divisão da atual capital em duas.

Aliás, boa parte dos problemas do futebol de Berlim ainda é conseqüência da Guerra Fria. Os times do lado capitalista padeceram com o isolamento geográfico (além de se ressentirem do fato de muitos de seus seguidores estarem do outro lado do muro que dividiu a cidade) e não se estabeleciam entre os grandes da Alemanha Ocidental.

Desde a criação da Bundesliga, há 41 anos, apenas três clubes de Berlim, além do Hertha, chegaram a dar as caras. Para se ter uma idéia, o mais bem-sucedido desses foi o Tennis Borussia, que só disputou duas edições da Liga Alemã. O clube violeta apareceu pela primeira vez em 1974-75. Fez uma campanha pífia (5 vitórias, 6 empates e 23 derrotas) e terminou em 17º lugar, caindo para a Segundona. Mas o time do estádio Mommsen insistiu e estava de volta em 1976-77. Outra campanha medíocre (6 vitórias, 10 empates e 18 derrotas) e, de novo, a 17ª colocação final. Depois disso o Tennis Borussia vagou pelos porões do futebol alemão. Em 1998-99, o clube quase subiu para a elite. Mas falhou nas rodadas finais. Hoje, está na Oberliga Nordost-Nord (4ª Divisão).

Sorte, por incrível que pareça, melhor que a do Tasmania 1900. Afinal, o time azul é, até hoje, responsável pela pior campanha da história da Bundesliga. Foi em 65-66. A equipe berlinense conseguiu 2 vitórias, 4 empates e 28 derrotas, marcando 15 gols e sofrendo 108. Após o vexame, o clube se afundou nas divisões da Alemanha Ocidental até chegar ao Grupo Berlim da 5ª Divisão, onde está hoje. Nesse nível, inclusive, há vários clubes amadores, mas poucos com perspectivas de escalarem no futebol alemão.

Porém, há uma exceção. Com a grande quantidade de imigrantes em Berlim, surgiram na cidade diversos clubes de colônias. E um já se destaca: o Türkiyemspor. Disputando a Oberliga Nordost-Nord (junto com o Tennis Borussia), a equipe dos turcos tem seu estádio, o Katzbach, localizado exatamente onde passava o Muro de Berlim.

O que nos leva ao lado que ficara com os comunistas por décadas. Pouco restou, por diversos motivos. O primeiro é que o futebol nunca foi uma prioridade no governo da finada República Democrática da Alemanha, que preferia as conquistas olímpicas em esportes como atletismo, natação e ginástica artística. Além disso, os torcedores nunca tiveram muita simpatia pelos favorecimentos a determinados clubes de acordo com a instituição que o mantinha.

O primeiro time a dominar a parte Oeste foi o Vorwärts, clube do exército alemão-oriental e detentor de 6 títulos nacionais entre 1958 e 1969. Depois disso, o exército perdeu poder político e o clube foi transferido para Frankfurt-an-der-Oder (não é Frankfurt, oficialmente chamada Frankfurt-am-Main) em 1971, onde está atualmente disputando ligas amadoras.

O domínio futebolístico foi para o Dynamo Berlin, mantido pela Stasi (polícia secreta) e decacampeão nacional entre 1979 e 1988. Mas o clube não resistiu à onda democrática e teve de se desvincular de uma das instituições mais odiadas do governo comunista. Com o novo nome de Berliner, o time tenta ressurgir na 5ª Divisão, mas perdeu muito de sua popularidade.

Com a credibilidade do campeonato nacional no chão, os torcedores orientais foram para um clube mais popular e desvinculado das instituições governamentais. Por isso, o Union Berlin manteve um número considerável de seguidores mesmo tendo poucos títulos (na verdade, só tem um: a Copa da Alemanha Oriental de 68). Isso deu um certo fôlego ao clube após a reunificação. Atualmente na 2.Bundesliga (Segunda Divisão), o Union é o único berlinense-oriental que reúne condições reais de crescer. Em 2001, os vermelhos quase fizeram história, ao chegar à final da Copa da Alemanha (foram derrotados pelo Schalke 04).

Inglaterra
Na Inglaterra, é muito comum cada comunidade ter seu time de futebol, quase todos pequenos, restritos ao bairro e bastante tradicionais. Assim, há muitos clubes ofuscados que mereceriam atenção. Para não ser injusto, vamos apenas citá-los.

Em Londres, os maiorais são Arsenal, Tottenham Hotspur, Chelsea e West Ham. Mas ainda há espaço para Fulham, Charlton Atletic, Milwall, Crystal Palace, Wimbledon, Brentford, Queen’s Park Rangers, Leyton Orient, Barnet e Watford. Mas, por falta de dinheiro e torcedores, o Wimbledon pretende se mudar para Milton Keynes. Na região de Birmingham, os mais importantes são Aston Villa, Birmingham City, Wolverhampton Wanderers e West Bromwich Albion. Mas ainda há o Walsall. Nottingham conta com o Nottingham Forest e o Notts County, o clube de futebol mais antigo do mundo. A região de Liverpool, além dos tradicionalíssimos Liverpool e Everton, conta com o Tranmere Rovers. Em volta do United e do City, Manchester ainda tem o Stockport County, o Oldham Athletic, o Rochdale, o Bury e o Bolton Wanderers.

Portugal
Lisboa é terra do Benfica, do Sporting e do Belenenses, enquanto o Porto tem o Porto, o Boavista e o Salgueiros. Não é tão simples. Na capital portuguesa há outros pequenos times, como o Atlético Lisboa, o Oriental, o Casa Pia e o Clube de Futebol Benfica (nenhuma ligação com o outro). Além disso, a região metropolitana conta com a Estrela de Amadora e o Estoril Praia. No Porto, os clubes periféricos se concentram nas cidades vizinhas, como o Leça (de Leça da Palmeira), o Maia (da cidade homônima) e o Leixões (de Matosinhos).

Holanda
A economia de Eindhoven deve muito à Philips. E não é de estranhar que o PSV (sigla para Philips Esporte Clube em holandês) acabasse dominando o futebol da cidade. Por isso, o Eindhoven (de azul e branco na foto, em partida contra o Den Haag pela Segunda Divisão neerlandesa) mal consegue aparecer, tendo um título nacional na distante temporada de 1954 e uma Copa da Holanda em 1937.

Situação parecida vive Amsterdã, onde o domínio absurdo do Ajax inibiu o crescimento de outros clubes fortes. Em 1972, três clubes locais (DWS, De Volewijckers e Blauwit) se fundiram na tentativa de criar um rival local aos alvirrubros, o Football Club Amsterdam. Funcionou por um tempo, tanto que o Amsterdam chegou a Copas Européias (em que conseguiram uma histórica vitória sobre a Internazionale no Giuseppe Meazza), mas foi rebaixado em 1982 e nunca mais voltou.

Sobrou apenas Roterdã. Na cidade portuária, há dois pequenos. O Excelsior é basicamente uma equipe de formação de jovens para o Feyenoord. Ainda assim, conseguiu ascender à Eredivisie no ano passado. O Sparta, apesar de não conseguir um título desde 1959 (obteve, no máximo, a Copa da Holanda de 62 e 66), é bastante tradicional. Apoiado pela comunidade local, o clube passou toda sua história na Primeira Divisão. Até a temporada retrasada, quando finalmente caiu.

Escócia
A realidade escocesa é parecida com a inglesa, mas se concentra em Glasgow. Assim, a capital futebolística da Escócia não vive apenas de Celtic e Rangers. Há espaço para Motherwell, Saint-Mirren, Hamilton Academical, Partick Thistle, Clyde, Clydebank Greenock Morton, Airdrieonians, Albion Rovers e Queen’s Park. Aliás, esse último merece um destaque à parte.

O Queen’s Park é o clube mais antigo de Glasgow (foi fundado em 1867) e dominou as primeiras décadas do futebol escocês, quando ainda se disputava apenas a Copa da Escócia. Entre 1874 e 1893, o time do sul da cidade ganhou 10 títulos, com dois tricampeonatos. O domínio acabou em 1894, coincidentemente quando ocorreu a primeira final entre Celtic e Rangers (o Rangers venceu por 3x1). Hoje está na Division III.

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Não falamos de Paris porque a capital francesa já teve um texto todo dedicado a ela. O mesmo vale para Buenos Aires. Clique aqui e aqui.

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Nas cidades brasileiras, a torcida tem pouco apego às raízes do bairro, o que dificulta a sobrevivência de pequenos no profissionalismo por mais de uma década. Por isso, casos como o de Madureira, Olaria, Portuguesa, Campo Grande e São Cristóvão no Rio de Janeiro e Juventus, Nacional e Guapira em São Paulo, merecem créditos. Um fenômeno mais recente na capital paulista é o desenvolvimento de clubes na região metropolitana. O Santo André sempre teve seu espaço, mas o São Caetano já rivaliza com os grandes do Brasil, sem contar o crescimento do Osasco e do Flamengo de Guarulhos.

Ubiratan Leal

Imagens: Lodigiani, ABC, Levante, Europa e Adofans

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