A tradição esportiva brasileira historicamente esteve atrelada a clubes, uma cultura importada da Europa. Assim, essas instituições não só mantinham uma equipe de futebol, mas também tinham departamentos em modalidades como basquete, remo, vôlei, tênis, atletismo, natação... Foi isso que permitiu que clubes – e há muitas linhas que não me refiro exclusivamente a São Paulo – desenvolvessem não apenas seus times de futebol, mas também seus patrimônios sociais e esportivos.
Para os mais novos (entre os quais me incluo) é difícil visualizar isso com perfeição, mas é só estudar as grandes cidades brasileiras nos aos 50 e 60 para ver o papel que os clubes tinham na sociedade. Era um local em que as pessoas, de diversas classes sociais, iam em suas horas livres. Praticantes de diversas modalidades esportivas encontravam abrigo em suas instalações. Algo muito diferente de hoje, em que penam para conquistar sócios, atingidos que foram pela crise da classe média e pelos condomínios com infra-estrutura de lazer.
Com isso, foi necessário cortar. E, como o social e o esporte amador davam prejuízo, foram “enxugados”. Muitos departamentos foram simplesmente fechados para competição de alto nível e transformados em opção para o lazer dos associados. Os que tiveram mais “sorte” continuaram na ativa, mas de forma quase que simbólica. Os esportes coletivos foram ofuscados pelos times do interior. Os individuais até conseguem se manter com mais destaque, mas sem atrair mais a atenção dos torcedores das capitais.
Aí está o problema. No basquete e no vôlei, o modelo adotado no interior é, em boa parte, baseado apenas no dinheiro do patrocinador. Algumas cidades, como Franca, Mogi das Cruzes, Ribeirão Preto, Araraquara e Rio Claro (em São Paulo), Londrina (Paraná), e Santa Cruz do Sul (Rio Grande do Sul), “adotaram” o basquete. Maringá (Paraná) e Suzano (São Paulo) mantêm o vôlei. Mas sobra pouco além disso, já que quase todos os demais times migram, fecham ou abrem de acordo com a conveniência do patrocinador.
Nas capitais, esses esportes sobrevivem apenas com o apoio de clubes com atuação marcada nessa área, como o Tijuca Tênis Clube (Rio de Janeiro), Minas Tênis Clube (Belo Horizonte) e Pinheiros e Paulistano (São Paulo). O trabalho dessas instituições é louvável, até porque praticamente não há retorno financeiro.
A primeira metade dos anos 90 viu o auge desse modelo. E muitos diziam que a solução estava na volta dos clubes de futebol – e sua massa de torcedores – a esses esportes. Foi o que ocorreu, principalmente no Rio de Janeiro. O problema é que o investimento foi feito de forma tão equivocada e forçada que é possível levantar dúvidas a respeito das intenções de quem promoveu esse processo.
Atletas foram contratados com salários altíssimos para os padrões brasileiros e supertimes foram montados, tudo baseado em uma rixa infantil entre as diretorias de Vasco e Flamengo. Ocorreu o óbvio: os salários atrasaram e tem esportista na justiça até hoje. Como conseqüência, alguns dirigentes desses esportes começaram a rejeitar a “ajuda” do futebol, alegando que o esporte mais popular do país poderia, com sua desorganização, contaminar as outras modalidades.
Bobagem. Essa reação é medo de uma mudança na estrutura desses esportes (que, de organizados, só tem a fachada), que os clubes de futebol voltem a ter importância e mudem o centro de gravidade do poder. Tomar a experiência de Flamengo e Vasco como exemplo do mal que o futebol pode fazer aos demais esportes é fugir da discussão por falta de argumentos.
Hoje, sobraram algumas dessas iniciativas. Os 4 grandes cariocas têm equipes de basquete masculino. Não com o mesmo investimento de 1999, mas sobreviveram. Em São Paulo, o handebol feminino do São Paulo (vice-campeão brasileiro) e o basquete masculino do Corinthians (atual vice-campeão paulista) só se mantêm por causa de acordos, tanto que mandam jogos em outras cidades (Guarulhos e Mogi das Cruzes, respectivamente).
Falta diálogo entre o esporte pretensamente amador (porque os atletas que os praticam não têm outra profissão) e o futebol. Os primeiros têm de entender que os clubes de futebol podem massificar outras modalidades, trazê-las de volta ao cotidiano das grandes cidades (onde está o mercado consumidor, fundamental para atrair investidores). Os últimos devem ver o esporte amador como mais uma ferramenta de atração de torcedores. Criar uma política de marketing na qual as modalidades se somem, com ingressos conjuntos, por exemplo. Levar a rivalidade para outros esportes, o que só existe, de certa forma, no Rio de Janeiro.
O modelo atual que privilegia clubes no interior e o que conta com os clubes de futebol podem perfeitamente se somar. É o que ocorre em Portugal, Espanha e Grécia, por exemplo. Nesses países, cada modalidade tem sua relação de times específicos, mas os grandes do futebol (Porto Benfica, Sporting, Belenenses, Real Madrid, Barcelona, Olympiakos, Panathinaikos, AEK e PAOK). E os ginásios recebem sempre um bom público. O mesmo do futebol.
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Nos esportes individuais, como natação, judô e remo, os clubes das capitais ainda conseguem se manter na ponta. Mas a falta de divulgação e incentivo real mina as possibilidades de tornar esses trabalhos mais conhecidos. Mesmo no tradicionalíssimo remo carioca.
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Pela relação óbvia com o futebol, o futsal é a única modalidade que continua tendo investimento de vários grandes clubes brasileiros. Seria tão bom se os outros esportes tivessem tantos times como o futsal.
Ubiratan Leal
Imagens: Tudo Paraná, Corinthians e Mitob