O pior de tudo isso é que muita gente defende a extinção da Copinha sempre que aparece algum problema como briga de torcidas ou a denúncia de jogadores co idade adulterada. É falta de boa vontade ou simplificação infantil das análises. Como se algo não está bom, deve ser extinto. Não é por aí, até porque a Copa São Paulo já provou – há anos, é bem verdade – que pode ser interessante e ter valor na revelação de jogadores.
Mas, antes de tudo, é preciso que quem organiza a Copinha – a Federação Paulista de Futebol – tenha vontade política e desportiva de fazer algo sério. Hoje, a intenção é contentar dirigentes de clubes para lá de periféricos dando vagas como cidade-sede. Para piorar, a organização também é bastante amigável a empresários, permitindo que diversos times de aluguel sejam montados às vésperas da competição, sem critério técnico e sem que os resultados sejam conseqüência de um trabalho decente de um clube.
Assim, algumas equipes mostram bom futebol, mas não ficam inteiras até fevereiro. Ou o Roma (agora Grêmio) Barueri aproveitou o grupo que se tornou campeão da Copinha em 2001 (foto)? O inchaço sem critério dá mais espaço para clubes/empresários aventureiros e, pior, dá mais chances para o aparecimento de jogadores com, digamos eufemisticamente, “idade otimizada”.
Talvez seja impossível acabar completamente com essas coisas, pois elas existem até no profissional e são, também, conseqüências da desorganização de todo o futebol brasileiro. Mas é possível diminuir o risco sem ter de criar uma máquina burocrática inoperável. Partindo do princípio – inexistente e utópico – de que alguém com poder de decisão quer tornar a Copa São Paulo uma competição séria para quem trabalha com o futebol e divertida para o público, é possível imaginar soluções simples e que poderiam melhorar bastante a realidade da Copinha.
Antes de tudo, a Copa São Paulo tem de incorporar de verdade o papel simbólico que ela tem há anos, o de ser uma espécie de Copa do Brasil de Juniores. Afinal, como a CBF não organiza nenhum torneio e as outras copas organizadas durante o ano (como a Copa Belo Horizonte ou a Taça Cidade de Londrina) não têm projeção suficiente, a competição paulista é – ou deveria ser – a melhor referência dos trabalhos dos principais clubes nas categorias menores. Por isso, a organização da Copa São Paulo tem, forçando um pouco, o dever esportivamente moral de fazer algo sério e que realce essa vocação.
Como o princípio é revelar jogadores, o primeiro passo seria definir um regulamento que favorecesse o aparecimento dos jogadores. Atualmente, muitos times ficam escondidos em alguns dos 20 grupos e nunca serão vistos. Ainda mais se for considerado que 75% das equipes (e dos jogadores) voltarão para casa com apenas três partidas disputadas.
Assim, o jogador precisa ter mais chance de aparecer, jogar mais. Uma forma de fazer isso é dividir a competição em grupos com 6 times cada. Assim, cada equipe disputa 5 partidas, dando mais oportunidade para os jogadores mostrarem suas virtudes e defeitos. A diminuição do número de grupos também é importante para evitar que clubes passem anônimos pelo Estado de São Paulo.
Um bom número de participantes seria 48. Com isso, é possível montar 8 grupos de 6 times. Com os dois primeiros de cada grupo passando de fase, faz-se o mata-mata. É verdade que 48 clubes parece muito, mas não é se as vagas forem distribuídas de forma justa, sempre pensando que seria como uma “Copa do Brasil Sub-21”.
As vagas seriam, por regulamento, dadas de acordo com o desempenho dos clubes em cada Estadual Sub-21. O Rio de Janeiro poderia levar os 4 primeiros colocados de seu torneio. Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia e Paraná levariam mais três equipes. Pernambuco, Goiás e Santa Catarina teriam direito a duas vagas. Outros 18 Estados – Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Sergipe e Tocantins – levariam seu campeão.
Somados, já foram 40 clubes. Os outros 8 seriam definidos pelo Campeonato Paulista da categoria. Essa supremacia numérica dos paulistas não se daria por uma eventual superioridade do Estado, mas apenas porque é a sede do evento. Esse modelo poderia tirar espaço de grandes clubes, mas valorizaria não só a Copa São Paulo, mas também os hoje esquecidos Estaduais Sub-21 e os trabalhos de médio/longo prazo, evitando times montados por empresários um mês antes do torneio.
Claro que seriam necessárias algumas adaptações. As cidades-sedes seriam definidas, em primeiro momento, pelos clubes paulistas classificados. Se fôssemos usar o Paulista Sub-21 de 2003 como exemplo, os times do Estado seriam Internacional, Paulista, São Paulo, Santos, Guarani, Ponte Preta, XV de Piracicaba e Corinthians. Assim, Limeira, Jundiaí, Campinas e Piracicaba receberiam jogos. São Paulo, Santos e Corinthians poderiam ser deslocados para outras cidades na primeira fase, pois atraem público por si só. Como haveria rodadas triplas, cada chave poderia ter uma subsede.
Outra adequação é no calendário, já que seriam necessárias 9 datas, ao invés das 8 atuais. Em último caso, pode-se classificar o primeiro colocado de cada grupo apenas, acabando com as oitavas-de-final. Ou fazer uma rodada nos últimos dias de dezembro.
É uma proposta. Outras deveriam surgir. O que não pode, na realidade, é deixar a Copinha, uma boa opção de lazer para os paulistas que gostam de futebol quando é bem organizada, como está, ao bel-prazer de dirigentes com muito pouco compromisso esportivo.
Ubiratan Leal
Imagens: Rubens Chiri/São Paulo, A Notícia e Luiz Bittar e Wander Roberto/Gazeta Esportiva