O maior motivo de interesse é o equilíbrio. No continente, a instabilidade dos países mais fortes muitas vezes permite que surpresas aconteçam. Sem contar o choque de estilos entre a África negra e o Magreb, a região árabe do continente. Bem, a competição começou nesse fim-de-semana e alguns jogos já foram realizados. Mesmo assim, vamos a uma rápida análise das seleções participantes da 24ª edição da Copa Africana de Nações (CAN).
Grupo A
A Tunísia parte como favorita. As Águias de Cartago têm a vantagem de atuar em casa e conta com a experiência do treinador francês Roger Lemèrre, comandante de seu país na Copa de 2002. Em campo, os destaques são o atacante brasileiro naturalizado Francileudo Santos, do Sochaux da França, e o lateral-direito Trabelsi, do Ajax da Holanda. Além disso, a seleção conta com franceses filhos de tunisianos naturalizados, como Chedli, do Sochaux. Os amistosos de preparação aumentaram o otimismo da torcida, como as vitórias sobre Suécia, Camarões e Senegal. O maior problema dos tunisianos é suportar a pressão da torcida, já que a seleção local nunca venceu uma Copa Africana.
O principal candidato à segunda vaga do grupo é a República Democrática do Congo (também chamado de Congo-Kinshasa, o antigo Zaire). O país ainda sofre as conseqüências da guerra civil que tirou o ditador Mobutu Sese Seko do poder e provocou a mudança de nome na nação. Ainda assim, pode-se dizer que a RD Congo está em evolução e pode complicar a caminhada de alguns favoritos. Os principais destaques são Lomana Lua Lua, do Newcastle da Inglaterra, e Sinda, do Eintracht Braunschweig da Alemanha. Provavelmente os Simbas sentirão a ausência do melhor jogador do país, Shabani Nonda, do Monaco. O atacante se contundiu gravemente no início da temporada européia e ainda não se recuperou totalmente.
Guiné também tenta se recuperar de problemas internos. Em 2001, Abdelkader Sanghare, o ministro dos esportes local, interveio na federação de futebol local. A medida causou a suspensão do país pela Fifa, o que estagnou o futebol guineense. Ainda assim, há talento na seleção para buscar uma vaga nas quartas-de-final. As maiores esperanças estão em Titi Camara, do Al-Sailiya do Catar, e Balde, defensor do Celtic.
O azarão é Ruanda. O país estréia em competições internacionais e a maior parte de seus jogadores joga no campeonato local. Por isso, a falta de experiência deve pesar contra. O maior destaque da seleção está fora do campo. O treinador sérvio-montenegrino Ratomir Dujkovic responsável por remontar uma equipe do desastre da guerra civil entre tutsis e hutus. Nessa primeira fase, Ruanda espera um resultado positivo no clássico regional com a RD Congo. Até porque a interferência do então Zaire foi fundamental na desestabilização do país que provocou a tal guerra civil em Ruanda. De resto, só a esperança de repetir a surpresa das eliminatórias, quando deixaram Gana de fora da CAN.
Grupo B
Depois da campanha na Copa de 2002, quando ficou em sétimo lugar, é difícil não colocar Senegal entre os favoritos. A base é a mesma de dois anos atrás, com Diouf, Coly, Sylva, Cissé, Henry Camara e Bouba Diop. O treinador mudou: saiu o carismático Bruno Metsu e entrou Guy Stephan, ex-auxiliar de Roger Lemèrre na seleção francesa. No entanto, a fase não é das melhores para os senegaleses. Em 2003, o time perdeu para Marrocos, Tunísia e Egito em amistosos. Pode ser uma surpresa negativa.
Se Senegal não se cuidar, pode até ficar atrás do vizinho Mali na primeira fase. As Águias são vistas como uma das seleções com maior potencial no continente, já que fizeram um bom Mundial sub-17 em 1999 e, na condição de país-sede, foram semifinalistas na CAN 2002 (foto). Os principais jogadores da equipe são Diarra (do Lyon), Sissoko (Valencia) e Kanoute (Tottenham).
Os outros dois concorrentes não devem dar muito trabalho. Burkina Faso vem evoluindo bastante depois de se organizar política e futebolisticamente. Mas o processo ainda está em andamento e os resultados devem demorar mais uma ou duas edições da CAN. Para tirar alguma vantagem da rivalidade local com Mali e Senegal, Burkina Faso terá de contar com jogadores como Lamine Traore, do Anderlecht, e Dagano, do Guingamp.
Ainda há alguma coisa a se esperar de Burkina Faso, mas nem isso se pode dizer do Quênia. O país do oeste africano é formado por jogadores com pouca experiência internacional e não deve resistir a Senegal e Mali. No máximo, arrancar pontos de Burkina Faso. A mior estrela do time é o defensor Otieno, do Santos da África do Sul. Dennis Oliech, com apenas 19 anos e jogando pelo Al-Arabi do Catar, é a esperança no ataque.
Grupo C
O grupo mais equilibrado da CAN, já que reúne dois dos maiores campeões da competição, uma seleção que está se reestruturando e outra que cresce a cada ano. O favorito é Camarões. Atual bi-campeão africano, os Leões Indomáveis contam com jogadores experientes, com passagens pelas principais equipes da Europa. Assim, a CAN não representa um desafio inédito para Geremi, Eto’o, Mboma, Djemba-Djemba e Song. O principal desafio dos camaroneses é controlar a pressão e a responsabilidade de serem os favoritos.
Outro candidato ao título no Grupo C é o Egito. Pode parecer exagero deixar os Faraós em tal condição, mas a tradição egípcia na competição é enorme e nunca pode ser subestimada. Como em 1998, quando chegaram de surpresa na final e bateram a África do Sul. A maior virtude dos egípcios é a organização do jogo, algo ainda raro no futebol africano. Para isso ajuda o fato de a lia local ser a mais forte do continente, mantendo muitos jogadores no país – dos 21 jogadores na Tunísia, 14 atuam no Egito. O lado negativo desse fenômeno é que o intercâmbio internacional dos Faraós é menor. Os dois principais jogadores são Ahmed “Mido” Hossan, talentoso e instável atacante do Olympique Marseille, e Ahmed Hassan, meia do Besiktas, da Turquia.
A Argélia é uma incógnita. Depois da brilhante geração de Madjer e Belloumi nos anos 80, as Raposas do Deserto lutam para reencontrar seu espaço no futebol africano. Os argelinos passam por uma reestruturação e ainda não têm uma seleção pronta, apesar de haver perspectivas razoáveis para o futuro. O fato de a Argélia enfrentar um grupo fraquíssimo nas Eliminatórias da CAN (bateu Chade e Namíbia) ajudou a aumentar o ponto de interrogação que cerca a seleção. Merecem alguma atenção o francês de nascimento Yahia, defensor do Bastia, e o atacante Kraouche, do Gant (Bélgica).
A possível surpresa do grupo é o Zimbábue. Os Guerreiros estréiam na CAN, mas já tiveram bons resultados em Eliminatórias de Copa do Mundo e nas competições interclubes do continente. Bater a Argélia é uma meta factível bem como incomodar camaroneses e egípcios. Pela proximidade geográfica, é natural que muitos dos jogadores do Zimbábue estejam em clubes sul-africanos. Como o capitão e zagueiro Tembo, do Super Sport United. Além dele, os guerreiros contam com os gols de Peter Ndlovou, do Sheffield United, da Segunda Divisão inglesa.
Grupo D
Outro grupo bastante forte. A Nigéria busca reconquistar o domínio do continente, hoje nas mãos de Camarões. Pior, as Super Águias estão menos cotadas que a Tunísia e o Senegal. Com quase todos os jogadores em grandes ligas européias, experiência não falta aos nigerianos. Ainda assim, a seleção sempre peca pela instabilidade interna e excesso de confiança. Diante de adversários como Marrocos e África do Sul na primeira fase, é um luxo ao qual as Super Águias não podem se dar. Se depender apenas do talento, Kanu (Arsenal), Babayaro (Chelsea), Yobo (Everton), Okocha (Bolton Wanderers), Agali (Schalke 04) e Aghahowa (Shakhtar Donetsk, da Ucrânia), devem resolver.
Marrocos perdeu um pouco de sua força nos últimos anos, mas têm um currículo vasto o suficiente para nunca serem menosprezados. Os Leões do Atlas fizeram uma campanha perfeita nas Eliminatórias da CAN, com 10 vitórias no mesmo número de jogos, sem sofrer um gol sequer. Por isso, voltam a ser vistos como uma força no continente. As principais referências em campo são o zagueiro e capitão Naybet, do La Coruña, o meia Safri, do Coventry City, e o promissor atacante Zaïri, com apenas 21 anos e atuando no Sochaux. Mas os marroquinos também depositam esperanças no treinador. Badou Ezaki foi o goleiro da seleção na excelente campanha da Copa de 86. Com grandes defesas, se tornou ídolo nacional e aproveita essa moral como fator psicológico para a equipe.
Apesar de uma história recente com sucesso para os padrões africanos, a África do Sul é a terceira força do grupo. Não que os Bafana Bafana estejam muito abaixo dos marroquinos, por exemplo. Mas demitir o treinador na véspera do embarque para a Tunísia e não contar com atacantes como Benny McCarthy (Porto) e Fortune (Manchester United) reduzem as expectativas sobre a seleção sul-africana. O técnico April Phumo terá de agir rápido para acertar o time. Ele conta com vários jogadores no futebol... russo, como o meia Sibaya (Rubin Kazan) e o zagueiro Lekgetho (Lokomotiv Moscou). Além desses dois, os sul-africanos apostam em outro defensor, Mabizela, do Tottenham.
Com adversários tão fortes, não é muito arriscado dizer que Benin é a seleção com menos chances de classificação. Apesar de desclassificar a bem cotada Zâmbia nas Eliminatórias da CAN, os Esquilos contam com um grupo de jogadores desconhecidos ou de pouca projeção nos países em que atuam. Tanto que um de seus principais nomes, Laurent Djaffo, está sem clube desde o início da temporada, pois foi dispensado pelo Aberdeen, da Escócia. Atenção para os jovens Tchomogo, do Guingamp da França, e Latoundji, do Energie Cottbus da Segunda Divisão alemã.
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Pode parecer estranho o fato de tantos jogadores “africanos” terem nascido na França. Em 1º de janeiro desse ano, a Fifa permitiu que atletas que disputaram apenas partidas em categorias inferiores pudessem mudar de seleção quando se tornassem profissionais. Assim, diversos franceses de origem africana mudaram de seleção por não conseguirem espaço na seleção principal de seu país natal.
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Para se ter uma idéia de como a Europa está influenciando o futebol africano, dos 352 jogadores inscritos na CAN, 200 jogam no Velho Continente. Desses 200, 78 estão na França, 29 na Bélgica e 23 na Inglaterra. Mas quer saber mais sobre os clubes africanos? Clique aqui.
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Veja a lista de campeões da Copa Africana de Nações (entre parênteses, o país sede do evento):
1957 (Sudão) – Egito; 1959 (Egito) – Egito; 1962 (Etiópia) – Etiópia; 1963 – (Gana) – Gana; 1965 (Tunísia) – Gana; 1968 (Etiópia) – Congo-Kinshasa (atual RD Congo); 1970 (Sudão) – Sudão; 1972 (Camarões) – Congo; 1974 (Egito) – Zaire; 1976 (sem sede fixa) – Marrocos; 1978 (Gana) – Gana; 1980 (Nigéria) – Nigéria; 1982 (Líbia) – gana; 1984 (Costa do Marfim) – Camarões; 1986 (Egito) – Egito; 1988 (Marrocos) – Camarões; 1990 (Argélia) – Argélia; 1992 (Senegal) – Costa do marfim; 1994 (Tunísia) – Nigéria; 1996 (África do Sul) – África do Sul; 1998 (Burkina Faso) – Egito; 2000 (Gana/Nigéria) – Camarões; e 2002 (Mali) – Camarões.
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Aliás, a Copa Africana das Nações foi pioneira. A CAN 2000 foi a primeira competição internacional de relevância a ter duas sedes, Gana e Nigéria. Por alguns meses bateu a Eurocopa 2000, realizada em Holanda e Bélgica.
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Logo no início já damos à CAN o título de quarta competição interseleções mais importante do mundo. A primeira, claro, é a Copa do Mundo. A segunda é a Eurocopa e a terceira é a Copa América.
Ubiratan Leal
Imagens: BBC Sport, Football Culture e Al Ahram