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4/12/03

O mundo não é uma bola...

Uma viagem ao futebol portenho


Nos restaurantes, pessoas conversam de forma mais do que empolgada sobre futebol, em qualquer canto livre há crianças batendo uma bola, uma enxurrada de camisas decora lojas em todo o centro da cidade e todas as pessoas com quem você conversa têm seu time. E tudo pára quando é dia de jogo. Você se vê cercado por futebol em uma intensidade inimaginável para uma capital brasileira. Parece até o cenário de uma cidade vivendo o clima de uma Copa do Mundo, mas apenas é Buenos Aires em um dia comum. E como é legal poder conhecer esse lado boleiro da capital argentina.

É o que dá para se chamar de turismo de futebol. O brasileiro se considera muito fanático pelo esporte, mas, em geral, só olha para o próprio umbigo. Na Europa, esse tipo de viagem é relativamente comum e diversas empresas têm programação especial para torcedores. Mas, como dito no parágrafo anterior, não precisamos ir tão longe para sentir o futebol de forma diferente.

Buenos Aires por si só já é uma cidade maravilhosa, charmosa até não poder mais. Arborizada, urbanizada, com belíssimos parques em estilo francês e com clima de tango pelas ruas. É verdade que está espiritualmente ressentida pela crise econômica, mas ainda sobra no portenho aquele orgulho próprio que muitas vezes interpretamos como arrogância. Não é à toa que a capital argentina merece entrar na lista de qualquer viajante. Agora imagine isso com futebol.

O argentino é fanático. Mas por fanático entenda-se algo doentio como o brasileiro só é em época de Copa do Mundo. Aqui, algumas pessoas ainda vêem o fanatismo pelo futebol como algo menor, que deva ser escondido quando estiver em público. O argentino não. Ele faz questão de mostrar para que time torce, não importa a fase. Em sua capital, o orgulho das raízes vale mais que os títulos. Até por isso a cidade consegue manter o assustador contingente de 30 clubes profissionais, além de outros 24 sediados na região metropolitana (veja lista no final do texto).

A convivência de tantos clubes fez dos argentinos provocadores crônicos. Eles cutucam o rival, usam palavras muito pouco abonadoras e consideram isso normal. Por isso, não esquente a cabeça e entre na brincadeira. Eles adoram. É bem verdade que, no caso de Brasil x Argentina, muitos argentinos usam argumentos racistas dispensáveis, o que não é justificável nunca. De qualquer forma, eles fazem o mesmo entre eles. Os millonarios (torcedores do River Plate) chamam os boquenses de bosteros. Os boquenses retrucam com gallinas. Os centralinos (do Rosario Central) apelidaram os simpatizantes do Newell’s Old Boys de leprosos e tiveram um canallas em troca. Depois de um tempo, as torcidas adotaram o próprio xingamento. É como se os corintianos passassem a se chamar de “gambás” ou os são-paulinos admitissem o “bambi”.

Aliás, um bom termômetro do envolvimento dos nativos com o futebol pode ser visto no domingo à noite, nos programas de TV que mostram os gols do fim-de-semana na cidade. São uns 15 jogos (quase um por bairro), sempre com uma torcida razoável fazendo barulho. Mesmo em time de 5ª divisão.

Abaixo, vai uma lista de locais imperdíveis para o torcedor. Mas o principal de uma viagem de futebol em Buenos Aires é se envolver nesse clima. Andar nas ruas, sentir o dia-a-dia do portenho. É obrigatório nas noites de sexta, sábado e domingo ir a um restaurante ou a um bar para ver futebol. Raros os que não deixam monitores de televisão no jogo do dia, já que o risco de perder clientes seria grande. Fique lá, não tenha vergonha de demorar duas horas para jantar. Todo mundo está fazendo o mesmo. Uma boa pedida são os bares ligados a clubes, ponto de encontro de torcedores na hora do jogo, ou o “Locos X el Fútbol”, bar temático com 4 unidades na região metropolitana de Buenos Aires.

Se você quiser mesmo testar o fanatismo dos portenhos, vá a um restaurante de segunda-feira, dia de jogo da segunda divisão. É lógico que o ânimo é menor, mas sempre há alguém torcendo como se aquele fosse um jogo decisivo da Libertadores.

Outra situação obrigatória é andar nas ruas com uma camisa. Mas aí há requintes. Primeiro, escolha um time argentino, de preferência algum que fuja dos batidos Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo. Pegue um daqueles times de bairro ou dos subúrbios. Compre uma camisa (elas são bonitas, vale a pena) e ande pelas movimentadas avenidas de Mayo, 9 de Julio, Corrientes, Córdoba ou Santa Fé, além dos calçadões Lavalle e Florida.

Como exemplo, vesti uma camisa do Estudiantes de La Plata, um clube de uma cidade a 50 km de Buenos Aires e com pouca torcida local. Em teoria. Alguém puxava papo a cada 3 quarteirões. Um provocava, dizendo que o Gimnasia La Plata era melhor enquanto outro saudava "Narigón Bilardo" (Carlos Bilardo, aquele mesmo da seleção argentina de 86, atual diretor-técnico dos Estudiantes). Isso sem contar o batalhão de pessoas que apenas davam um “hola” se dizendo “hincha de Estudiantes”. Um mais empolgado (também estava com a camisa do clube) me comprimentou, perguntou se eu ia para o estádio naquele fim-de-semana, essas coisas.

Já de volta, trouxe uma camisa do Quilmes. Andando pelas ruas de São Paulo, já fui parado por dois argentinos. Ambos só falavam: “¡no puedo creer! Un hincha de Quilmes... en Brasil”. A felicidade de um torcedor de time de bairro ao ver um “colega” é indescritível e estimulante.

Veja abaixo as principais atrações, dicas e situações de uma viagem futebolística a Buenos Aires.

La Bombonera
Parada inicial. Escolha um fim-de-semana com jogo do Boca em casa e vá! Muito já se falou sobre a sensação de ver uma partida naquele estádio, que a proximidade do gramado e a conseqüente pressão da torcida são muito grandes. Balela. Ver futebol em La Bombonera é muito mais intenso do que qualquer um já descreveu. E não serei eu o autor de um texto definitivo sobre a visão de jogo no estádio em formato de bombonière. De qualquer forma, é importante dizer que o torcedor fica literalmente sobre o gramado. Para se ter uma idéia, no último degrau do alto, se vê tudo de perto. E isso equivale a uma altura de uns 4 ou 5 andares. Para ver o que ocorre logo a frente, é necessário olhar para baixo.

Dicas. Chegar lá não é difícil. Há diversos ônibus que levam ao turístico bairro da Boca. Caso você não queira arriscar, pegue um táxi na estação de metrô Constitución ou no centro da cidade mesmo. É possível ir à pé, mas a caminhada leva mais de uma hora do centro. Tente chegar cerca de duas horas e meia antes da partida começar e vá direto para a fila. Tome cuidado com eventuais batedores de carteira, que podem se aproveitar do tumulto e da multidão. Mas não é nada muito assustador. O ingresso mais barato custa R$ 10. A violência de torcidas na Argentina é pior que aqui. Por isso, evite usar camisa de time nesse dia e ficar perto (dentro e fora do estádio) de torcedores organizados, principalmente se a partida envolver outro clube portenho. Se seu objetivo é ver um superclásico (Boca x River) vá comprar o ingresso com dias de antecedência. E prepare-se para pegar uma fila quilométrica.

La Bombonera, os bastidores
Em um dia que não tiver jogo, vale a pena voltar ao bairro da Boca para fazer uma visita guiada ao estádio. Por dentro, há pontos mal-cuidados, principalmente na parte de acabamentos. Nada sério, mas não é a assepsia de um estádio europeu. Outra coisa que merece atenção é como a arquitetura do estádio é feita de forma que o clube visitante se sinta enclausurado e pressionado. Passeando pelo gramado e pelas arquibancadas com liberdade, é possível ver como a arquibancada se ergue imponente sobre os jogadores. Para arrematar, o visitante também é levado para a sala de imprensa, onde se realizam as entrevistas coletivas após as partidas.

Museo de la Pasión Boquense
É pequeno se comparado com o de grandes clubes europeus, mas faz jus a um “espetacular”. Para entender o espírito do local, atente-se ao nome: não é um “museu do Boca Juniors”, é um “museu da paixão pelo Boca Juniors”. Assim, o foco é no torcedor e no fanatismo do boquense. Lá dentro, um vídeo homenageia os maiores jogadores da história do Boca (atualizado até o Martin Palermo). Muito bem feito e sem pieguices. Outro cinema, esse em 360º, transforma o espectador em um jogador do Boca, mostrando toda sua trajetória. Começa no bate-bola nas ruas do bairro portuário, seguindo com o teste para entrar nas categorias jovens, a estréia no La Bombonera (em um jogo de aspirantes), a integração ao grupo de profissionais e a estréia no time principal. Muito bem feito. Além dos cinemas, há uma maquete do bairro da Boca na época de fundação do clube, uma sala de troféus algo decepcionante (só estão lá os torneios menos importantes), um paredão com camisas de várias épocas e uma outra parede mostrando cenas dos principais títulos do Boca (uma TV para cada título. Abaixo, um painel mostra a campanha do time no respectivo torneio). Por fim, há uma parte interativa na qual o visitante escolhe o vídeo dos gols mais importantes da história do Boca, alguns até com várias opções de narração. Pena que a lista de lances disponíveis (que começa em 1943) termine em 1994.

Dicas. O Museo da la Pasión Boquense fica dentro do estádio La Bombonera. Os ingressos para a visita guiada ao estádio e para o museu podem ser comprados juntos, com desconto. No total, sai cerca de R$ 12 por pessoa.

Outros estádios
Não é todo dia que há jogo do Boca Juniors no La Bombonera. Nesse caso, é recomendável ir ao Monumental de Nuñez ver o River Plate. Para chegar lá sem correr riscos, pode-se pegar um táxi em alguma estação da Linha D do metrô entre Plaza Itália e Congreso de Tucumán. Os demais estádios são longe do centro e do metrô. Nesses casos, o melhor são táxis, ônibus ou trens metropolitanos. É importante conferir se você, sem querer, não está indo para um jogo de alto risco. Como a torcida argentina se apega muito às raízes, é importante saber que há clássicos de bairros com rivalidades semelhantes à de Boca e River. Por isso, evite Independiente x Racing, San Lorenzo x Huracán e Lanús x Banfield.

Clubes
Esses são os clubes profissionais de Buenos Aires: Boca Juniors, River Plate, San Lorenzo, Vélez Sarsfield, Huracán, Nueva Chicago, Chacarita Juniors, Argentinos Juniors, Almagro, Deportivo Español, Ferro Carril Oeste, Atlanta, Defensores de Belgrano, Deportivo Armenio, All Boys, Estudiantes Buenos Aires, San Telmo, Barracas Central, Liniers, Comunicaciones, Excursionistas, General Lamadrid, Atlas, Deportivo Paraguayo, Deportivo Riestra, Fénix, Lugano, Sacachispas, Sportivo Barracas e Yupanqui. Na região metropolitana há ainda Independiente, Racing, Lanús, Banfield, Arsenal, Platense, Quilmes, Defensa y Justicia, El Porvenir, Los Andes, Argentino de Quilmes, Deportivo Italiano, Temperley, Deportivo Morón, Berazategui, Argentino de Merlo, Deportivo Merlo, Luján, Ituzaingó, Dock Sud, Juventud Unida, Leandro Alem, Victoriano Arenas e Muñiz.

Compras
As camisas argentinas, na média, são muito mais trabalhadas que as brasileiras e pode-se encontrar produtos por preços razoáveis. As oficiais estão entre R$ 60 e 100, preço similar às brasileiras. No entanto, é possível encontrar artigos mais baratos em promoções, versões piratas e camisas de temporadas anteriores. Para um colecionador mais gastador, há camisas históricas (principalmente do Boca Juniors), como uma réplica da usada nos anos 40 (R$ 100), e uma especial comemorando a classificação do clube ao Mundial de Tóquio (com tudo escrito em japonês, sai por R$ 120). Outra versão muito comum é a oficial de 1995, a última que Maradona utilizou. Nem é cara (R$ 50) para ser uma de coleção. Mas quem não gosta do Boca também tem alternativas. Em qualquer loja encontra-se camisas de dezenas de clubes portenhos e outros importantes do futebol argentino (como Estudiantes, Gimnasia La Plata, Rosario Central, Newell’s Old Boys). Na realidade, qualquer loja de souvenir em Buenos Aires vende camisas de futebol. Isso é tão claro que é mais fácil identificar uma loja de souvenires pelas camisas do que por outros produtos. Também se encontram cachecóis, cumbucas de chimarrão, mouse pads, pôsteres e outros artigos.

Olé
O diário esportivo Olé ficou famoso aqui por provocar sempre que Brasil e Argentina se enfrentam. Mas é leitura obrigatória para um boleiro que está em Buenos Aires na segunda-feira, pois é um bom jornal. A quantidade de informação é grande e não há compromisso em enfocar apenas os grandes.

TV
O melhor é curtir o futebol no estádio, nos bares ou nos restaurantes. Mas a televisão local dá uma força para quem decidiu ficar no hotel. As 3 divisões do futebol local são transmitidas em TV aberta ou paga (a TV por assinatura é muito mais difundida na Argentina que no Brasil e qualquer hotel tem esse serviço no quarto), sem contar os noticiários e programas de debates.

Maradona
Não adianta discutir muito, pois nada convencerá um argentino que Pelé foi melhor que Maradona. O melhor a fazer é relaxar e observar essa crença local de forma olímpica. Quem sabe se, assim, não é possível até comprar um cartão postal do meia para enviar para um amigo ou tirar foto com uma estátua dele ao lado de Eva Perón e Carlos Gardel em uma sacada no bairro da Boca. Mas se você continuar inconformado com a situação, vá a lanchonete Burger King na esquina da avenida Corrientes com a calle Florida, um dos principais cruzamentos da cidade. Na decoração do estabelecimaneot há vários quadros com referências reais: “rei dos hambúrgueres” (Burger King), “rei do rock” (Elvis Presley), “rainha de Hollywood” (Marilyn Monroe), “rei de espadas” (a carta de baralho) e “rei do futebol” (Pelé). É de lavar a alma.

Brasil
Até que se encontram camisas da seleção brasileira nas lojas. De clubes há muito pouca coisa, como flâmulas de Corinthians, Grêmio, Inter e Fluminense escondidas em uma loja, camisa do Flamengo e meias de São Paulo e Palmeiras. Onde se vê uma presença brasileira maior é em La Bombonera. Por causa do fenômeno Iarley, há uma quantidade razoável de boquenses que vão ao estádio com a camisa da seleção brasileira.

Ídolos
Não espere por Crespo, Batistuta, Cláudio López, Verón, Riquelme, Aimar ou Saviola. Os ídolos do momento são Carlos Tévez e Andrés D'Alessandro.

Crianças
Eles incentivam muito a torcida infantil. Há uma quantidade enorme de produtos de clubes para crianças. E tudo bem feito, tentando criar uma aura mística em torno do clube, o que encanta qualquer menino que começa a gostar de futebol.

Outros esportes
Um eventual torneio pode criar uma febre momentânea. Mas, em geral, a modalidade que tem mais projeção – espaço na TV, nas bancas, nas livrarias e nas lojas, além de gente usando camisas na rua – é o rúgbi. Depois vem basquete e pólo (a cavalo).

Como ir
Uma agência de turismo, a Tangol, se especializou em organizar passeios futebolísticos por Buenos Aires, incluindo visitas ao Monumental de Nuñez e a La Bombonera, além de ingresso para o jogo (de River ou Boca) que ocorrer no fim-de-semana. Mas não é difícil se virar por conta própria. E pode sair bem mais barato.

Transporte
O sistema de metrô de Buenos Aires é o mais antigo da América Latina e tem uma rede relativamente ampla, apesar de mal conservada. A passagem é barata R$ 0,70, como a dos ônibus (R$ 0,80). Mas se você for avesso a transporte coletivo, pegue um táxi. São facilmente identificáveis (pretos com teto amarelo) e passam a todo momento. As tarifas são muito mais baratas que em São Paulo, por exemplo. Para o turismo convencional, pelo centro da cidade, faça tudo a pé.

Comida
Esqueça o fast food, opção muito usada para economizar dinheiro no exterior. O McDonald’s argentino tem preços semelhantes ao brasileiro. Mas os restaurantes portenhos são muito mais baratos. Com R$ 20 duas pessoas comem muito bem, com direito a uma taça de vinho e uma outra bebida. Não volte de lá sem comer o delicioso bife de chorizo com papa souflé do Palácio de las Papas Fritas (dois endereços na calle Lavalle, bem no centro da cidade). Imperdível e barato.

Segurança
A crise econômica empobreceu muito a cidade de Buenos Aires. Mesmo no centro há uma quantidade considerável de pessoas pedindo dinheiro. Ainda assim, é em quantidade muito menor que de uma grande capital brasileira. Da mesma forma, aja de forma prudente com carteiras e bolsas. O centro de Buenos Aires é muito movimentado e iluminado à noite, o que dá uma sensação de segurança maior. Mas ainda é capital de um país de terceiro mundo.

Quanto custa
Não me atrevo a dar valores, pois há uma quantidade enorme de promoções para passar de um fim-de-semana a 10 dias na capital argentina. Com a desvalorização do peso argentino, passagem aérea e hospedagem estão muito baratos. Por isso, procure bastante.

Moeda
O peso argentino sofreu um processo de desvalorização semelhante ao do real. Os valores foram passados em reais para facilitar a leitura, sempre considerando que a taxa de conversão das moedas é de R$ 1 = 1 peso (cotação aproximada). Caso uma das duas moedas sofra uma oscilação muito grande, os números devem ser revistos.

Ubiratan Leal

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