É quase senso comum de que a Espanha, por mais que se esforce, nunca monta seleções vencedoras. Pior, quando a equipe é boa, cede às pressões do favoritismo e da responsabilidade. Mas, há exatamente 20 anos, os espanhóis conseguiram fazer o que muitos consideravam impossível, buscando um resultado dos mais improváveis. E foi um feito tão inesperado que suscitou dúvidas – até justificáveis – a respeito da lisura do resultado.
Tudo aconteceu em 21 de dezembro de 1983. Mas, para entender essa história, é necessário voltar um pouco mais no tempo, a 5 de junho de 1982. A Copa da Espanha nem começara, mas Malta a Islândia já haviam aberto o Grupo 7 das Eliminatórias para a Eurocopa de 1984, a ser realizada na França. Com gols de Spiteri-Gonzi e Fabri, os malteses surpreenderam e vencem por 2 x 1 (Geirsson descontou para os escandinavos).
Como os outros integrantes do grupo eram Holanda, Espanha e Irlanda, e apenas uma seleção teria vaga no torneio continental, estava claro que aquele jogo não teria maiores conseqüências. Na partida seguinte, ainda havia espaço para mais surpresas, quando a Islândia empatou em um gol com a Holanda. Mas parou por aí. De resto, o que se viu foi um domínio de espanhóis e holandeses, com os irlandeses tentando acompanhar sem muito sucesso. Assim, a Holanda bateu a Irlanda, que empatou com a Espanha em um emocionante 3 x 3 em Dublin e passou pela Islândia. Os ibéricos também venceram os escandinavos.
Foi quando começaram os fatos fora do programado. Malta receberia a Holanda, mas estava proibida de mandar essa partida em seu território pois o único estádio internacional do país, o Ta’Qali, estava em reformas. Por proximidade geográfica, os insulares pretendiam levar a partida para o sul da Itália continental ou para a Sicília. Os holandeses aproveitaram a oportunidade e ofereceram £ 20 mil (em valores da época) para que o jogo fosse realizado mais ao norte, onde a torcida laranja poderia comparecer. Os malteses aceitaram e levaram a peleja para Aachen, na Alemanha Ocidental.
Foi um massacre e o placar final – 6 x 0 para os laranjas – só não foi mais largo porque o goleiro maltês Bonello fez diversas defesas extraordinárias. Quem não gostou disso foi a Espanha, que se sentiu prejudicada. Os ibéricos protestaram na Uefa, pedindo a anulação da partida ou, então, que seu jogo como visitante contra Malta também tivesse o local convenientemente alterado. Em vão.
Com essa vitória, a Holanda começava a se destacar no grupo, com um saldo de gols bastante avantajado. Na partida seguinte, a Holanda foi a Sevilha com 6 jogadores de características defensivas, em busca de um empate precioso com a Espanha. Mas não funcionou e, com um gol de pênalti de Señor, os ibéricos alcançaram os laranjas na liderança do grupo.

A Irlanda ainda daria um último suspiro ao vencer Malta, mas uma derrota para a Espanha deixava os verdes fora da briga. Depois, foi a vez de os espanhóis irem a Malta. O estádio Ta’Qali (na foto como está hoje, após novas reformas) continuava em más condições, o que motivou mais reclamações da Espanha. Mesmo assim, o jogo foi realizado. Malta surpreendeu e chegou a fazer 2 x 1, mas a Espanha ainda conseguiu virar para um suado 3x2, com o gol da vitória marcado por Gordillo aos 40 minutos do segundo tempo.
A Espanha disparava na liderança, mas a Holanda estava com várias partidas a menos. Os laranjas se recuperaram, vencendo a Islândia e a Irlanda em Dublin. E novamente os dois líderes se enfrentam. Em Roterdã, Houtman pôs a Holanda na frente, mas Santillana empatou. No segundo tempo, Gullit fez o gol da vitória da Holanda, que igualava os pontos espanhóis, mas estava com clara vantagem no saldo de gols, por conta, principalmente, dos 6 x 0 sobre Malta.
Faltavam apenas 3 jogos para definir o grupo, todos com Malta como visitante. Em um jogo de eliminados, a Irlanda fez 8 x 0 em Malta. A seguir, a Holanda quase repetiu a goleada de Aachen ao fazer 5 x 0. Os holandeses comemoraram a classificação, pois abriam dois pontos e 11 gols de saldo de vantagem em relação à Espanha, que receberia os malteses em Sevilha no jogo decisivo.
E daí voltamos ao 21 de dezembro de 1983. Atuando em casa, a Espanha tem de vencer por improváveis 11 gols de diferença para se classificar à Eurocopa. Por isso, começam pressionando e, logo aos 3 minutos, conseguem um pênalti. Señor perde. O 0 x 0 permaneceria no marcador até o 16º minuto, quando Santillana põe a Espanha na frente. O problema é que, aos 24, Degiorgio empata para Malta. Os espanhóis teriam pouco mais de 60 minutos para marcar 11 gols.
Só conseguiram fazer mais dois no primeiro tempo, sempre com Santillana. Aos 4 do segundo tempo, Rincón faz o 4º gol espanhol. O goleiro maltês Bonello reclama que é alvo de mísseis atirados pela da torcida da casa, a ponto de levar um cartão amarelo. Com isso, não só ele, mas toda a defesa de Malta se enerva e a seleção alvirrubra leva 4 gols – dois de Rincón e outros dois de Maceda – em apenas 7 minutos (dos 12 aos 19 da segunda metade da partida).
A 15 minutos do fim, os ibéricos ainda precisavam de 4 gols para eliminar a Holanda. Santillana diminuiu o déficit espanhol marcando seu 4º gol na partida. Logo depois, o atacante maltês Degiorgio é expulso por fazer cera em uma cobrança de lateral. Malta acabou naquele momento. Rincón também fez seu 4º na partida e Sarabia, aos 35, deixou a Espanha a um gol da façanha histórica. E esse gol veio aos 41, com Señor, o mesmo que perdera um pênalti logo no início da partida. Com esse 12 x 1, a Espanha chegava a 13 pontos e saldo de 16 gols, os mesmo números da Holanda. Mas como os espanhóis haviam marcado 24 gols – dois a mais que o holandeses – garantiram a vaga.
Foi a vez de a Holanda protestar na Uefa. Muitos acharam estranho o resultado da partida de Sevilha, insinuando que o teria sido combinado. A entidade européia analisou o vídeo-teipe do jogo e manteve o placar e a classificação espanhola.
FICHA TÉCNICA
Espanha 12 x 1 Malta
Eliminatórias da Eurocopa de 1984
Local: Estádio Sánchez Pizjuan (Sevilha-ESP)
Público: 25 mil
Árbitro: Erkan Göksel (TUR)
Espanha: Buyo; Señor, Goicoechea e Camacho; Victor, Maceda e Gordillo; Rincón (Marcos Alonso), Sarabia, Santillana e Carrasco
Malta: Bonello; E. Farrugia, Tortell, Holland e Azzopardi; Buttigieg, Demanuelle, Fabri e R. Farrugia (M. Farrugia); Degiorgio e Spiter-Gonzi
Gols: Santillana (16/1º), Degiorgio (24/1º), Santillana (26 e 29/1º), Rincón (2 e 12/2º), Maceda (17 e 18/2º), Rincón (19/2º), Santillana (31/2º), Rincón (33/2º), Sarabia (35/2º) e Señor (41/2º)
Expulsão: Degiorgio (32/2º)
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Entre os argumentos que colocavam e dúvida a honestidade daquele 12x1, foi lembrado o fato de que os espanhóis não venciam por mais de 5 gols de diferença desde 1978.
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A foto lá no alto é de Santillana, um dos maiores responsáveis pela classificação da Espanha.
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Independentemente da lisura ou não da partida que garantiu sua classificação, a Espanha, ao menos, fez uma ótima campanha da Eurocopa de 1984. Na primeira fase, após empatar com Romênia e Portugal (ambos 1 x 1), os espanhóis venceram a então vice-campeã mundial Alemanha Ocidental por 1 x 0 (gol de Maceda aos 44 do segundo tempo) e ficaram em primeiro no grupo, desclassificando os alemães (o segundo colocado foi Portugal). Nas semifinais, os espanhóis enfrentaram a surpreendente Dinamarca e venceram por 5 x 4 na disputa de pênaltis, após outro empate em um gol. Na final contra a equipe da casa, os espanhóis não resistiram a melhor técnica da seleção comandada por Platini e perderam por 2 x 0. É bem verdade que o primeiro gol francês veio após uma falha histórica de Arconada e o segundo foi resultado de um contra-ataque, já nos descontos.
Ubiratan Leal
Imagem: World Stadiums