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8/12/03

Variedades

Times de época


Muitas vezes, em mesas de bares, na própria residência com amigos, em escolas, faculdades e ambiente de trabalho surgem discussões sobre certos times serem considerados de época. É muito difícil discutir isso, pois, sob vários critérios que são subjetivos na maioria das vezes, é possível criar uma polêmica enorme sem que se alcance um veredicto.

Pois bem, um time de época é aquele que faz um estardalhaço num certo período de tempo (pode ser até uma década), conquista títulos e depois some ou aparece esporadicamente. É importante lembrar que ser clube de época não significa necessariamente ser pequeno, pois, para ser grande, há outros aspectos a serem considerados, como o tamanho da torcida o patrimônio do clube e a infra-estrutura. Porém, clubes mais regulares são mais vitoriosos se formos analisar friamente. Em nenhum momento há detrimento destas equipes grandes com a tradição que ostentam no futebol brasileiro e mundial, nem menosprezo com as glórias obtidas. Muito pelo contrário.

Dentro dos times de época há algumas subdivisões. O primeiro, exemplo clássico, é do clube que montou um esquadrão, conquistou títulos inimagináveis por sua torcida, ganhou fama e voltou a ser coadjuvante ou, no máximo, um protagonista esporádico.

É o caso dos argentinos do Estudiantes de La Plata. Os pinchas tiveram um crescimento esplêndido no final dos anos 60 quando a equipe dirigida por Osvaldo Zubeldía e que contava com Juan Ramón “la Bruja” Verón (pai de Juan Sebastián), Pachamé e Carlos Bilardo foi tricampeã da Libertadores, coisa que o Santos de Pelé, o River Plate, o Boca Juniors e o Peñarol não conseguiram. Aliás, só o Independiente fez melhor, com um tetracampeonato nos anos 70.

Mas foi só. No máximo, o Estudiantes teve um pequeno impulso no início dos anos 80, quando Bilardo já era o treinador da equipe. Hoje, é uma equipe média, com uma torcida exigente e fanática e que dificilmente irá ascender novamente, mesmo no cenário local.

No Brasil, um clube que já foi acusado pelos rivais de se encaixar nesse perfil é o Santos. O peixe teve seu momento na chamada era Pelé, entre 1958 e 1974. Após esse período, teve equipes de baixo nível não condizentes com a tradição do alvinegro, com raros momentos de exceção. Somente agora, com a talentosa geração de Diego, Elano, Robinho, Renato e Alex, formou um time que vem dando espetáculos ao gosto daqueles que prezam um bom futebol. Mas o santista deve estar atento, pois, se o alvinegro praiano voltar a ser um participante secundário dos campeonatos, a fama de “viver de passado” pode ressurgir.

Outros exemplos brasileiros são de clubes do interior que pleitearam a grandeza por anos, mesmo tendo conseguido poucos títulos. O Bragantino viveu um período frutífero de 1989 a meados da década passada, quando incomodava os grandes times da capital paulista e, principalmente, os cariocas. Hoje está na Série C do brasileiro e na A-2 do Paulista.

A Ponte também pode ser considerado um time de época. A macaca brilhou no final da década de 70 com estrelas como Dicá, Oscar e Carlos, todos reconhecidos como grandes jogadores. Foi quatro vezes vice-campeã paulista e semifinalista do Brasileiro de 81. Depois, os campineiros foram perdendo força até ressurgirem em meados dos anos 90. Merecem respeito, mas já não ameaçam o poderio dos grandes. Um candidato a entrar no grupo de clubes de época é o São Caetano. Mas como o clube do ABC ainda vive seu momento, é cedo para dizer onde isso parará.

Clubes de passado
O segundo grupo de times de época é composto por clubes que foram grandes por várias gerações, conquistaram títulos, torcedores e protagonizaram clássicos, mas que perderam força e se tornaram médios ou pequenos. Três exemplos evidentes desse processo vêm da Itália.

O mais antigo é o Genoa, o quarto maior campeão do calcio até hoje, com 9 scudetti. Os rossoblu foram grandes entre os anos 90 do século XIX e a década de 20 do século passado. Depois, virou um clube mediano. É assíduo freqüentador da Serie A, mas só empolgou de verdade uma vez, em 1991, quando ficou em 4º lugar. No mais, luta para não cair. Luta que nem sempre é bem-sucedida, tanto que os genoveses só não estão na Série C1 porque o calcio também adotou o procedimento da virada de mesa.

Mesmo sendo um membro da Serie A, o Bologna é outro caso típico de time de passado. Os emilianos foram por 7 vezes os melhores da Itália, mas a última vez foi em 1964, após uma vitória sobre a Internazionale em um jogo-desempate. Em situação parecida está o Torino, historicamente o rival da Juventus, mas que não encontra regularidade no topo há décadas.

Para continuar no exterior, a Argentina tem um clube que deve tomar o cuidado para não entrar nesse processo. O Racing amargou um jejum de 34 anos entre a conquista do Mundial (1967) e do Apertura 2001. Nessa fase, montou boas equipes, mas eram ocasionais. Tanto que o clube foi rebaixado para a Segundona argentina nesse período. A decadência chegou ao ponto de o clube ter a falência decretada, o que só não foi consumado pela pressão da torcida (talvez um dos pouquíssimos patrimônios, junto com o estádio Juan Domingo Perón, que o Racing tem intacto desde aquela época). Agora, a tarefa do Racing é voltar a ser um candidato natural a títulos. O que não acontece. De novo.

No Brasil, os mais notórios clubes de passado são o América-MG e o América-RJ. No entanto, o mais importante é pensar nos atuais grandes que podem se apequenar pela redução dos títulos importantes em disputa (os estaduais cada vez mais são desconsiderados).

Como o Botafogo carioca. A Estrela Solitária sempre esteve (e ainda está) entre os grandes do Rio de Janeiro, mas não é campeão com regularidade desde o final dos anos 60, na Era Garrincha. Depois disso, títulos estaduais em 89, 90 e 97, com um Brasileirão em 95. Muito pouco para um período de 15 anos. A perspectiva só não é pior porque o Botafogo deu um passo à frente dos outros grandes do Brasil ao apostar em um dirigente que faça justiça ao passado do clube. E isso pode dar um novo fôlego ao alvinegro, evitando o apequenamento que se avizinhava.

Um processo parecido passa Internacional, Atlético-MG e Fluminense. Os três não ganham um torneio nacional há mais de uma década (o último foi a Copa do Brasil do Inter, em 92, justamente sobre o Fluminense) e já são ofuscados pelos rivais mais vitoriosos. Se não ficarem atentos, conquistarem campeonatos mais significativos e voltarem a ser temidos pelos adversários, podem se tornar coadjuvantes tradicionais no longo prazo.

Os medianos
O terceiro tipo de time de época são os clubes medianos, que nunca foram grandes e têm conquistas mais discretas, mas que, vez ou outra, montam boas equipes e marcam um período. Depois voltam ao meio da tabela à espera de uma nova luz.

Na Itália, dois clubes têm lutado para dar um passo adiante e se tornarem grandes de verdade. Roma e Lazio sempre foram inconstantes, especialmente os celestes, mais familiarizados com a Serie B. Ambos já foram campeões em décadas diferentes (a Roma levou os scudetto em 1942, 1983 e 2001, enquanto a Lazio foi a melhor da Bota em 1974 e 2000), mas nunca foram equiparados a Milan, Internazionale e Juventus.

O mesmo vale para a Fiorentina, campeã nacional em 56 e 69. Quase sempre respeitada, mas nunca candidata ao título, os violetas ainda brigaram por títulos continentais como a Copa da Uefa. Mas os sucessos dependem de um grupo de jogadores acima de sua média. Rebaixada em 2002, a Fiorentina faliu. Foi refundada com o nome de Florentia Viola e beneficiada pela mesma virada de mesa que livrou o Genoa da Serie C1.

No Brasil, dois clubes que podem ser enquadrados nessa categoria são Bahia e Guarani. Ambos já foram campeões brasileiros, vez ou outra ficam no topo da tabela, mas não raro estão lutando para não cair.

*

É possível fazer uma lista enorme de clubes internacionais que se encaixam nos 3 tipos descritos acima. No primeiro grupo, podem ser citados Borussia Mönchengladbach, Hamburg e Köln (Colônia) da Alemanha, Nottingham Forest da Inglaterra, Aberdeen da Escócia e Napoli da Itália. Os espanhóis do La Coruña e os franceses do Lyon são sérios candidatos a entrar nesse grupo se entrarem em decadência nos próximos anos. Entre os clubes de passado estão o Tottenham e o Everton da Inglaterra, o Athletic Bilbao e o Atlético Madrid da Espanha e o Saint-Etiénne da França. Por fim, no terceiro grupo estão Valencia da Espanha, Sampdoria da Itália, Bayer Leverkusen, Stuttgart, Kaiserslautern e Werder Bremen da Alemanha, Newcastle e Chelsea da Inglaterra e Auxerre, Bordeaux e Sochaux na França.

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Apesar de ser o clube mais vitorioso do futebol mundial, o Real Madrid tem algumas características de um clube de época. Sempre está entre os maiores na Espanha, mas brilhou na Europa em dois períodos de tempo relativamente bastante determinados. O primeiro foi no final dos anos 50 e o segundo começou em 1998 e dura até hoje.

Gilberto Meazza

Imagens: Estudiantes, Urbo e Racing

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