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30/12/03

O mundo não é uma bola...

Primeiro turno na Europa (parte 1)


Nessa virada de ano, muitas ligas européias já tiveram sua primeira metade disputada. Assim, os simbólicos campeões de inverno (ou outono) já foram definidos, surpresas já mostraram sua cara e as decepções planejam a estratégia para terminar os campeonatos de forma mais honrosa. Por isso, vamos fazer um pequeno resumo do que aconteceu em três das principais ligas nessas condições: Alemanha, Inglaterra e França.

Surpresas na Bundesliga
Depois do primeiro turno, os alemães têm muito a comemorar. Quatro clubes – algo raro no monólogo bávaro em que se torna a Bundesliga muitas vezes – disptuam o título com chances reais. Bayern de Munique, Stuttgart e Bayer Leverkusen estão empatados com 35 pontos, o que já dá uma boa idéia do equilíbrio. Mas o líder é outro, inclusive, um muito menos provável que os três citados: o Werder Bremen, com 39 pontos.

A diferença é até respeitável, mas, há duas rodadas, o líder era o Stuttgart, invicto e com apenas três gols sofridos na competição. O problema dos alvirrubros foi pegar os rivais Bayern e Leverkusen nas duas últimas rodadas. As duas derrotas jogaram o time para a quarta colocação.

Ainda assim, o Stuttgart talvez seja a melhor equipe da Alemanha no momento. Tem uma ótima defesa, a começar pelo goleiro-revelação Hildebrand. Os dois jovens laterais – Lahm e Hinkel – são muito bons tanto no apoio como na defesa. Mas ninguém é tão impotante quanto o meia belorrusso Hleb, que, com grande habilidade e toques primorosos costuma deixar o razoável Szabic e o brasileiro-panamenho-alemão Kuranyi em condições de marcar seus gols.

Mesmo assim, é só assistir um jogo do Stuttgart para perceber que o conjunto e a disciplina tática são seus pontos fortes, e aí se destaca o ex-jogador da seleção alemã e atual técnico da equipe Felix Magath. Resta saber se a energia despendida na Liga dos Campeões e falta de sorte e de camisa do time do sul da Alemanha não serão fundamentais para um eventual fracasso na luta pelo título nacional.

Quem mais reúne condições de aproveitar uma queda do Stuttgart é o Bayern de Munique. O curioso é que o clube bávaro foi a grande decepção do primeiro turno, nem tanto pela aceitável segunda colocação na tabela, mas sim, pelo pálido futebol apresentado pela equipe, que só saiu da quarta colocação nas duas últimas rodadas.

É fácil perceber os problemas da equipe. Jogadores importantes como Ballack e Zé Roberto estão muito mal, provocando a fúria do nervosinho dirigente Uli Hoeness. A defesa não se acerta, parece que nem Kuffour, Linke e Kovac conseguem mais manter o nível do atual campeão alemão. As constantes ausências dos meias Scholl e Deisler também foram determinantes, já que é visível a falta de criatividade do meio-campo da equipe.

Mas nunca se pode menosprezar o Bayern. Mesmo com tantos problemas a resolver, os bávaros estão em segundo lugar e parecem estar evoluindo. Além disso, o elenco é muito superior tecnicamente aos dos adversários, o que pode ser determinante na fase final.

O Suttgart pode ser o melhor time da Alemanha hoje e o Bayern é quase sempre um favorito, mas o líder é um terceiro time. O Werder Bremen não só está com 4 pontos de vantagem para os seguidores mais próximos como tem o melhor ataque e o artilheiro da competição – Aílton com 16 gols. São atributos consideráveis, mas, sinceramente, não dá para enxergar algum diferencial que leve os verdes ao título. Fora Aílton, o Werder conta com o excelente meia francês Micoud e o zagueiro da seleção alemã e capitão do time Bauman. Parece pouco.

O jogo contra o Bayern de Munique em casa causou certa preocupação. Os visitantes dominaram todo a partida e só não venceram por falta de sorte. Vale lembrar que, na temporada passada, o Werder fez um ótimo primeiro turno, mas caiu muito após o recesso de inverno no meio do torneio, a ponto de sequer conseguir uma vaga na Copa da UEFA. Esse tipo de mudança de comportamento entre um turno e outro é comum na Alemanha, e o Werder Bremen tem de tomar cuidado para não cair no mesmo erro. Por isso, um título para os alviverdes continuaria sendo uma grande surpresa, mesmo depois do título de outono.

Quem também surpreende é o Bayer Leverkusen. Depois do péssimo desempenho na última temporada, quando só conseguiu escapar do rebaixamento na última rodada, o clube das aspirinas parece já ter assimilado as perdas de Ballack e Zé Roberto para o Bayern e do zagueiro Nowotny, contundido durante boa parte do torneio passado.

Com a defesa remontada com Nowotny, Lucio e Juan (esse último jogando muitas vezes como lateral direito recuado), um volante incansável como Ramelow, e meias técnicos como Basturk e Schneider, o Leverkusen mostra fôlego e está,d esde o início do torneio, se revezando com Stuttgart e Werder na liderança. O ataque ainda parece ser o setor mais precário da equipe, Neuville, Berbatov e França não encantam, e parecem não estar a altura de uma equipe que pretende ser campeã.

A decepção do campeonato é o Borussia Dortmund, já fora da disputa, a 14 pontos do líder. Mas o grande problema da equipe é físico. As instalações se tornaram uma verdadeira enfermaria, com alguns de seus titulares em recuperação. Veja uma pequena amostra dos jogadores que praticamente não participaram da competição nessa temporada: o ótimo zagueiro Metzelder, o lateral-direito Evanilson, os meias Frings, Flávio Conceição e Sebastian Kehl e o atacante Amoroso. Se não bastassem os desfalques, o ambiente do clube não é dos melhores, com o técnico Sammer em atrito com jogadores, Amoroso brigado com a diretoria por preferir se recuperar no Brasil – ele acusa o departamento médico do Dortmund de não ser eficiente –, entre outros casos.

A instabilidade do Dortmund é tão grande que o campeão de 2002 está atrás de um pequeno que vem surpreendendo, o Bochum. Os azuis conseguiram 7 vitórias, 5 empates e 5 derrotas. Com 26 pontos e a quinta colocação, luta por uma vaga na Uefa com os tradicionais Dortmund (25) e Schalke 04 (24), além do “novo rico” Wolfsburg (também 25). E o Bochum tem menos a perder nessa disputa, já que os outros três times precisam desesperadamente dessa vaga para diminuir o prejuízo das várias contratações feitas para essa temporada. Os destaques da equipe são o veterano meia Wosz e a dupla de ataque formada pelo iraniano Hashemian (foto) e o dinamarquês Madsen que, junta, já fez 19 gols no campeonato. Além deles, merecem destaque Freier, esperança da seleção alemã para os próximos anos, e o nigeriano Oliseh.

A briga entre os grandes da Alemanha não se limita ao topo da tabela. No fundo da tabela, 4 tradicionais clubes alemães lutam para escapar do rebaixamento que vitimará os 3 piores do campeonato. Eintracht Frankfurt (12 pontos), Hertha Berlin (13), Köln (o Colônia, também 13) e Kaiserslautern (15) estão atrás desde o início do torneio e não conseguem se aproximar dos demais clubes. Pior, Borussia Mönchengaldbach e Hansa Rostock conseguiram uma pequena seqüência de bons resultados e abriram vantagem, enquanto que Hannover 96, München 1860, Freiburg e Hamburg simplesmente não são tão ruins. De qualquer forma, a presença de Frankfurt e Köln na lista de rebaixáveis é normal, mas esperava-se mais de Kaiserslautern e, principalmente, Hertha.

É bem verdade que o Kaiserslautern, do vice-artilheiro da Copa 2002 Klose e do brasileiro Lincoln, faz campanha parecida com a do ano passado. Na ocasião, passou metade do campeonato na zona de rebaixamento e conseguiu escapar com uma arrancada na segunda metade do segundo turno. Até por essa recuperação se esperava mais dos vermelhos, mas a equipe dessa temporada é tão fraca quanto a que quase caiu. Ainda assim, o clube nem estaria tão mal se não tivesse 3 pontos tirados por problemas administrativos.

Com apenas duas vitórias em 17 jogos, a situação do Hertha Berlin é curiosa, pois, ao contrário do Kaiserslautern, o time da capital tem bons jogadores e não deveria – em tese – estar em um lugar tão fraco na tabela. Basta dizer que os zagueiros Arne Friedrich e Markus Rehmer e o atacante Bobic costumam vestir a camisa da seleção alemã. Mas a demora na resolução dos problemas com o técnico Huub Stevens ajudaram a instabilizar o ambiente no Hertha. Mas a troca de técnico pode da novo fôlego à equipe.

Desequilíbrio na Premiership
O que marcou o primeiro turno da Liga Inglesa foi a absurda diferença técnica entre os três melhores clubes do país – Arsenal, Manchester United e Chelsea – e os demais. O domínio da dupla Arsenal-Manchester United não é novo e o Chelsea só se juntou ao grupo pela injeção de dinheiro do milionário russo Roman Abramovich. De qualquer forma, nas temporadas anteriores, o segundo escalão tinha condições de, ao menos, fazer sombra aos líderes. Agora, nem isso. Do terceiro colocado (Chelsea) ao quarto (Charlton), há uma lacuna de 12 pontos.

Mesmo assim, ainda há emoção na Premiership. Afinal, como os pequenos estão enfraquecidos, qualquer revés de um dos três ponteiros é suficiente para modificar o panorama da tabela. O que faz, também, com que cada jogo seja importante e pontos perdidos talvez não sejam recuperados a tempo.

É exatamente o que aconteceu agora. O Chelsea era líder ao lado do Arsenal. Em 4 rodadas, perdeu dois jogos (em casa para o Bolton e fora contra o Charlton), empatou um (Leeds, fora) e venceu apenas um (Fulham, fora). Foi o suficiente para deixar os blues em terceiro, a 4 pontos do líder Manchester United. Curiosamente, antes dessa série negativa, o Chelsea havia vencido os red devils. Naquela oportunidade, o principal clube de Manchester é que parecia fora da disputa. Mas os engasgos de Chelsea e Arsenal (empate com Leicester e Bolton) recolocaram o time comandado por Alex Ferguson na liderança.

A configuração da tabela depois de passado meio campeonato dá uma sensação de que o Manchester United será novamente o campeão. O clube vem se enfraquecendo nas últimas temporadas. A saída de Beckham foi sentida, já que a equipe perdeu uma de suas referências ofensivas. A revelação portuguesa Cristiano Ronaldo mostrou ter qualidades, mas padece com a inconstância de um jogador de 18 anos. Kléberson também está em fase de adaptação. Assim, a responsabilidade acaba caindo muito nas costas dos mais experientes, como o irlandês Roy Keane, o galês Giggs e o holandês Van Nistelrooy. Está dando certo por hora, até porque parece que os adversários sempre entregam na hora decisiva, como ocorre com o Bayern de Munique na Alemanha.

No mesmo ritmo vem o Arsenal. O clube é o que conta com um elenco mais talentoso, mas é muito dependente taticamente dos contra-ataques puxados por Pires e das conclusões de Henry. Por isso o clube, apesar de invicto, não é líder. Nos dias em que o ataque não funcionou direito, os gunners não tiveram opções e acabaram empatando. Ainda assim, pode ser considerado o adversário mais perigoso para os red devils de Manchester.

Um pouco atrás vem o Chelsea. O clube que leva o nome do sofisticado bairro londrino onde está sua sede contratou muito e virou uma força na Inglaterra. Mas fica claro que o clube ainda tateia em busca de uma personalidade própria. Além de o time titular não estar completamente definido e de alguns contratados não atenderem completamente às expectativas, falta alguma referência em campo, alguém que lidere o grupo ou que assuma a responsabilidade. E, por isso, não é improvável que os blues fiquem fôlego aos poucos e percam contato com os outros ponteiros.

De resto, sobra muito pouco. Newcastle e Liverpool, que, em princípio, fariam parte do segundo escalão, acompanhando mais ou menos de perto a corrida dos líderes, estão em má fase crônica, tendo dificuldades inclusive de superar alguns dos pequenos. O Everton mostra que a boa campanha de 2002 pode ter sido um fenômeno isolado. O Blackburn desfez boa parte de sua equipe, bem como o quase falido Leeds United.

Os pequenos que ensaiaram surpreender, como Portsmouth, Birmingham, Manchester City e Southampton já voltaram ao pelotão intermediário. No caso do Portsmouth, a briga, agora, é para não cair. No final do turno, quem realmente está surpreendendo são dois clubes suburbanos de Londres, o Charlton e o Fulham (4º e 5º no momento, mas lembrando que o Liverpool tem uma partida a menos a pode se enfiar no meio deles). Mas nenhum fenômeno que possa animar o campeonato naquela zona da classificação, até porque o Charlton está a 12 pontos do 3º colocado (Chelsea) e a 13 do 19º (Leeds).

Monaco se destaca na França
Curiosamente, dos três campeonatos repassados nesse texto, a tradicionalmente equilibrada Liga francesa é a única que apresenta um candidato destacado ao título. E justamente em um ano em que os franceses estão bem nas competições européias, com Monaco e Lyon vencendo seus grupos na primeira fase e Olympique Marseille (esse após cair na primeira fase da Liga dos Campeões), Sochaux, Bordeaux e Auxerre conseguindo lugares na terceira fase da Copa da Uefa.

O maior destaque é o Monaco, que parece ter superado, pelo menos no campo, seus problemas financeiros e vem fazendo uma temporada invejável. Na Liga dos Campeões, foi primeiro do seu grupo, a frente de La Coruña e PSV Eindhoven. Contra os espanhóis, inclusive, os monegascos protagonizaram uma das partidas mais sensacionais do ano, um extravagante 8x3 no estádio Louis II.

Na Ligue 1, os comandados de Deschamps sobram. O Monaco é o time que mais venceu (13), menos perdeu (2), mais gols marcou (32) e menos sofreu (14), sendo que empata com o Lyon nos dois últimos quesitos. Apesar das boas atuações do goleiro italiano Roma e do meia Giuly, o destaque é a dupla de ataque, com o já conhecido espanhol Morientes e o croata Pršo, desde já desejado por alguns dos principais clubes do continente.

O Monaco tem 42 pontos, 7 a mais que Lyon e Paris Saint-Germain. No entanto, os parisienses têm uma partida a mais. Até por isso, os lioneses podem ser considerados os principais adversários dos monegascos. Em teoria, o clube de Élber e Juninho Pernambucano é até melhor que o Monaco, mas resultados ruins como a derrota para o Guingamp e o empate em casa com o Toulouse (os dois últimos no campeonato) estão fazendo a diferença.
Nas últimas rodadas, o atual bi-campeão francês voltou a tropeçar, permitindo uma fuga ainda maior do Monaco (a diferença chegou a 8 pontos e só não foi a 10 porque os monegascos perderam para o Rennes na última rodada) e a aproximação de Paris Saint-Germain e Sochaux. Como é difícil que o Monaco faça um returno tão bom quanto o turno, ainda dá para imaginar uma aproximação do Lyon.

Ainda há dois clubes que merecem um olhar mais atento. O Sochaux já foi a surpresa no ano passado ao acompanhar a corrida dos líderes de perto e terminando como o quarto melhor time da França ao lado de Bordeaux e Auxerre. Agora, o clube da montadora Peugeot está novamente em 4º, mas, se fizer um ponto na partida a menos que tem, pula para terceiro. E só não está melhor porque teve um início claudicante. Agora, vem em passo acelerado, conseguindo uma seqüência de 6 vitórias. O maior destaque dos auri-azuis é o artilheiro brasileiro, naturalizado tunisiano, Francileudo Santos. Na Uefa, o Sochaux atropelou o poderoso Borussia Dormund (2x2 na Alemanha e 4x0 na França).

O Paris Saint-Germain continua não convencendo como uma potência nacional, mas parece ter se arrumado após uma desastrosa temporada 2002-03. O time ainda é instável, sujeito a atuações patéticas como a derrota em casa para o Lens. Mesmo assim, vem crescendo nas últimas rodadas e tirou diferença para o vice-líder Lyon.

A surpresa negativa da temporada francesa é o Olympique Marseille. Os alvi-celestes entraram no campeonato como favoritos após uma boa temporada 2002-03 e a contratação de jogadores como Mido Hossam e Drogba. O início da campanha marselhesa confirmava as expectativas, mas uma seqüência de reveses jogou o Olympique para o meio da tabela. Com duas partidas a menos, até pode dar um salto para o segundo pelotão (está com 30 pontos), mas não parece muito provável.

*

Quando terminarem o primeiro turno em Espanha, Itália e Portugal, faremos um balanço nesses países.

*

Com um jogador a menos em quase todo o segundo tempo, o Cienciano ganhou do River Plate em Arequipa e tornou-se a primeira equipe peruana a vencer um torneio continental.

Maurício Aires e Ubiratan Leal

Imagens: Bundesliga, BBC Sport, Uefa e L’Équipe

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