Para entender o fenômeno atual, é necessário voltar um pouco no tempo. O Esporte Clube Santo André foi fundado em janeiro de 1974 em substituição ao extinto Santo André Futebol Clube. Na época, o único clube do Grande ABC (região composta pelos municípios de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra) na elite paulista era o Saad, de São Caetano. Mesmo assim, os caetanenses claramente não ficariam lá por muito tempo. E o Santo André assumiu o posto de maior clube da região, ficando na Primeira Divisão do Estado por 13 anos seguidos (entre 82 e 94) e conseguindo um histórico 10º lugar no Brasileirão de 84.
Mas surgiu um rival. A Associação Desportiva São Caetano entrou no futebol profissional em 1990 com apoio da prefeitura local e conseguiu 3 promoções seguidas. Em 1993 já está na Primeira Divisão. Com a mudança na administração municipal, o Azulão perde força e vai novamente para a Terceira Divisão. Com a volta do grupo político que erguera o São Caetano, o clube volta a subir. Tudo isso sem investimentos absurdos. Os caetanenses apostaram em estrutura, organização e elencos modestos, mas eficientes. Dessa forma o clube chegou a um inimaginável vice-campeonato sul-americano.
E o Santo André nessa história? Bem, o Ramalhão já nem andava mais na elite paulista. Há 5 anos, os dirigentes andreenses perceberam que o São Caetano já estava passos à frente e também resolveram se mexer. No Santo André, os resultados demoraram um pouco porque a participação efetiva (e decisiva) da prefeitura andreense só foi oficializada em janeiro desse ano.
Como em São Caetano, onde o prefeito Luís Tortorello é presidente de honra do clube, em Santo André as ligações entre política e futebol também são fortes. O estádio da cidade tem o nome de Bruno José Daniel, antigo político da cidade e pai do prefeito assassinado Celso Daniel. O vice-presidente do Ramalhão é Klinger de Oliveira, vereador e ex-secretário de Serviços Municipais investigado por participar de um esquema de propina na prefeitura.
De qualquer forma, a prefeitura intermediou a negociação entre o clube e empresários da região, além de participar diretamente ao patrocinar o time profissional estampando o logotipo do programa “Mais Igual”, da secretaria de Inclusão Social e Habitação. Como contrapartida, o Santo André trabalha com jovens da região. Mas, no fundo, o que os andreenses querem é voltar a dominar o futebol da região.
E os resultados vieram rápido. Em janeiro, o clube foi campeão da Copa São Paulo de Juniores, batendo o Palmeiras na disputa de pênaltis. E é importante lembrar que boa parte daqueles jogadores palmeirenses foi decisiva na campanha verde na Série B do Brasileiro. Ainda no primeiro semestre, o Santo André conseguiu passar da primeira fase do Paulista, desclassificando o Santos campeão brasileiro (se bem que até hoje há suspeitas de que São Paulo e Santo André tenham empatado propositadamente para tirar os santistas do torneio). No Paulistão, inclusive, o objetivo de muitos torcedores andreenses era simplesmente ficar à frente do São Caetano, o que não ocorreu.
Com a conquista de um lugar na Segundona nacional de 2004, o Santo André se aproxima mais de seu vizinho e maior rival. E a torcida já espera esse encontro. Aliás, se o Santo André leva uma vantagem em relação ao São Caetano, é o fato de ter uma torcida maior, mais fanática e mais fiel que o rival. E isso pode até ser importante na manutenção desse projeto no longo prazo. O campo, as perspectivas de crescimento são boas. Dos 42 jogadores (entre juniores e profissionais) que compõem o elenco andreense vice-campeão da Série C, 30 foram formados no clube.
As vitórias conquistadas na Paraíba, como essa contra o Botafogo em João Pessoa, foram decisivas para o Santo André
*
Pode-se dizer que houve apenas um grande confronto entre São Caetano e Santo André. Foi em 1999, na Série A-2 do Paulista. A fase semifinal era composta por dois quadrangulares, sendo que o vencedor de cada um subiria para a elite. Em um grupo, a Ponte Preta teve dificuldades com o Etti Jundiaí, mas se garantira. No outro, a briga estava entre São Caetano e América de Rio Preto, com o Santo André se agarrando à matemática. O Azulão chegou na última rodada com dois pontos de vantagem. “Só” teria de vencer o Santo André no Anacleto Campanella para ir à final. Mas a rivalidade fala mais forte em um clássico e o Santo André venceu por 1x0. Enquanto isso, o América goleava o Botafogo de Ribeirão Preto e voltava à Série A-1.
*
Quem não conhece a fundo a história do estado de São Paulo, fica sabendo que o mascote do Santo André, Ramalhão, é uma homenagem a João Ramalho fundador do distrito de Santo André.
*
Por estarem próximos tanto de São Paulo quanto da Baixada Santista, os habitantes do ABC tradicionalmente torcem pelos grandes clubes do Estado, dando pouca importância para a representação local. Se os projetos de São Caetano e Santo André forem bem sucedidos no longo prazo, pode atrair uma geração de torcedores na região.
*
A briga pelo domínio do Grande ABC paulista chega a ter requintes históricos. Afinal, o “A” e o “B” já foram soberanos na região, mas os habitantes do “C” também guardam um orgulho grande. Então vamos a um histórico resumido. Em 1890, foi fundado o município de São Bernardo do Campo, abrangendo toda a região. Com o tempo, foram criados outros distritos. Em 1938, a sede administrativa e se mudou para o distrito de Santo André e São Bernardo passou a se chamar Santo André. Assim foi até 1944, quando o distrito de São Bernardo conseguiu sua emancipação. Mais quatro anos e foi a vez do distrito de São Caetano do Sul ser alçado à categoria de município. Em 1954, Mauá e Ribeirão Pires também ganham autonomia política. Em 1958, Diadema se desmembra de São Bernardo e completa o ABCD. A última mudança significativa se deu em 1963, com o distrito de Rio Grande da Serra se emancipando de Ribeirão Pires.
*
Parece tudo muito confuso. Mas essas cidades de origem rural tiveram um crescimento espantoso no período de industrialização do Brasil e enriqueceram. O que acirrou a rivalidade entre os municípios, principalmente o “A”, o “B” e o “C”. Para quem não conhece bem a região, é possível ir de uma dessas cidades a outra sem perceber a mudança. E, mesmo assim, as rivalidades são grandes.
Ubiratan Leal
Imagens: Santo André, Arquivo de Clubes e Botafogo-PB