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12/12/03

O mundo não é uma bola...

Festa em Cuzco e em todo Peru: é o Cienciano


O Peru está eufórico. Nesse meio de semana, foi realizada a primeira partida da final da Copa Sul-Americana. Favoritíssimo, o River Plate recebeu o Cienciano, de Cuzco, no Monumental de Nuñez. Após 90 minutos, os atrevidos peruanos saíram do gramado como favoritos ao título. Afinal, o empate em 3x3 só não foi um resultado perfeito porque os rojos venciam até os 41 minutos do segundo tempo.

O mais surpreendente é que o Cienciano é considerado um clube pequeno mesmo em seu país. Apesar dos 102 anos de história, a estréia internacional dos imperiais só aconteceu em 2002, na Copa Libertadores. A campanha até que foi boa, com 3 vitórias na primeira fase, todas em casa (contra Grêmio, Oriente Petrolero e 12 de Octubre), e a segunda colocação no Grupo 2. Nas oitavas-de-final, os peruanos não resistiram ao América do México e perderam as duas partidas.

Foi a entrada de Cuzco no futebol internacional. A cidade até então era basicamente conhecida por seus atrativos turísticos, já que era o centro político do poderoso Império Inca. Agora, todo o Peru exalta algo além das belezas da cidade.

A ascensão do Cienciano é o típico caso de planejamento, mais ou menos como um São Caetano peruano, já que não houve injeção de dinheiro no clube. Pelo contrário. O elenco é composto por vários jogadores veteranos e rejeitados por outros times, como o goleiro Ibáñez (36 anos), o meia Balazar (35), o artilheiro Carty (34) e os laterais Morán (31) e Portilla (30). A esses se somaram uma série de jovens que tiveram poucas oportunidades em outros clubes e dois estrangeiros, o paraguaio Lugo e o colombiano Saraz, ambos sem muito destaque em seus países. O curioso é que não há jogadores com raízes na comunidade local. Praticamente todos são da região de Lima e apenas o meia reserva Ccahuantico (assim mesmo, com dois “c”) é de origem quéchua.

É com esse time que o Cienciano vive sua epopéia continental. Na primeira fase da Copa Sul-Americana, os rojos ficaram no grupo Peru-Chile. Nos mata-matas internos, os imperiais eliminaram os conterrâneos do Alianza Lima e o Universidad Católica. Os resultados inesperados começaram nas quartas-de-final. Na Vila Belmiro, os peruanos arrancaram um improvável empate com o Santos em 1x1. Cuzco festejou como se fosse o título, a ponto de vestirem uma estátua na praça central da cidade com a camisa do clube.

Ainda assim, acreditava-se que era apenas uma questão de tempo e nem a altitude de 3,3 mil m impediria os então campeões brasileiros e vice da Libertadores a vencerem como visitantes. Mas não foi bem assim. O Santos não se encontrou, sentiu o ar rarefeito e o Cienciano se aproveitou: 2x1 e classificação para as semifinais.

O adversário seguinte, o colombiano Atlético Nacional de Medellín, não botava tanto medo, mas eliminara o (desmotivado) Boca Juniors na fase anterior. Novamente o Cienciano mostrou que não joga bem apenas em casa e venceu a partida de ida por 2x1 em Medellín. Vencer em casa foi apenas a obrigação, o que levou os imperiais à final do torneio.

Para se ter uma idéia do que isso representa, o Peru nunca teve um clube campeão de um torneio continental. O mais perto que chegou foram dois vices campeonatos da Libertadores, em 1972 com o Universitário (derrotado pelo Independiente) e em 1997 com o Sporting Cristal (vitória do Cruzeiro). Dois clubes da capital Lima.

Mas o título não será fácil. O River Plate fez uma campanha muito boa, passando por Independiente (vitória de 8x1 no placar somado) de Avellaneda, Libertad do Paraguai e São Paulo. A primeira partida foi disputada em Buenos Aires e os millonarios entraram com a intenção de golear para garantir o título logo. O Cienciano aproveitou os desfalques argentinos (Cavenaghi está com a seleção sub-21 no Mundial da categoria nos Emirados Árabes e Marcelo Salas ainda se recupera de contusão) e as falhas da defesa no jogo aéreo para conseguir um histórico empate.

Na Argentina, muitos ainda acreditam que os millonarios vencerão na partida de volta, mas o Cienciano já é visto com respeito. Até porque a atuação do River Plate foi muito criticada. O treinador Manuel Pellegrini errou ao montar o esquema de marcação, deixando os peruanos criarem com certa libertade. Se o título não for para Nuñez, será um fim melancólico da passagem do técnico chileno pelo River, pois já está definido que ele não ficará no clube em 2004.

No Peru, o Cienciano já é visto como favorito. Em Cuzco, os torcedores tomaram as ruas logo após o empate na Argentina. No resto do país, todos encamparam a causa imperial e deixarão de lado as rivalidades (que afinal, não existem muito, já que o clube é pequeno) para torcer pelos rojos. O Torneo Clausura, praticamente garantido ao Alianza Lima, já é secundário e os jornais dizem que o Cienciano seria o Papai Noel do fim-de-ano peruano. O fato de a Sul-Americana não valer tanto quanto a Libertadores é menos importante.

Essa mobilização nacional é uma garantia para os rojos. Afinal, o regulamento do campeonato prevê que as finais sejam realizadas em estádios com capacidade mínima de 40 mil pessoas. Como o Garcilaso de la Vega, só tem 30 mil lugares, a decisão será no estádio da Unsa (Universidad Nacional de San Agustín), em Arequipa (cidade a pouco mais de 300 km ao sul de Cuzco e a 2,3 mil m de altitude), recém-reformado para receber a Copa América de 2004. Por isso, o apoio de simpatizantes de outras equipes (principalmente do Melgar, maior clube de Arequipa) será fundamental para pressionar o River Plate.

FICHA TÉCNICA
River Plate 3 x 3 Cienciano
Decisão da Copa Sul-Americana, partida de ida
Local: estádio monumental de Nuñez (Buenos Aires-ARG)
Público: 45 mil
Árbitro: Carlos Eugênio Simon (Brasil)
River Plate: Costanzo; Lobo, Tula, Ricardo Rojas e Virviescas; Coudet (Domínguez), Ahumada, González (Ludueña) e Gallardo; Montenegro (Salas) e López. T: Manuel Pellegrini.
Cienciano: Ibáñez; Llanos (Lobatón), Lugo, Acasiete e Portilla; Morán, La Rosa, Bazalar e García; Saraz (Maldonado, depois Ccahuantico) e Carty. T: Freddy Ternero.
Gols: Portilla (26/1º), López (28/1º e 5/2º), Carty (22/2º), Portilla (34/2º) e Salas (41/2º).
Cartões amarelos: Lobo, Bazalar, La Rosa e Morán

*

O Cienciano tem o apelido de “imperial” porque Cuzco era a capital do Império Inca. Já o estranho nome vem das origens do clube. No final do século XIX, o futebol crescia em popularidade no Peru. Assim, o Colégio Nacional de Ciências de Cuzco incumbiu o inglês William Newell a formar uma equipe com os alunos de ciências, os “ciencianos”.

Ubiratan Leal

Imagens: Cienciano, Conmebol e Fútbol Peruano

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