Assim que terminou a final da Copa de 50, cada uma das duzentas mil pessoas que foram ao Maracanã naquele dia começou a dar sua versão para a derrota brasileira diante do Uruguai. Com o tempo, tais interpretações se tornaram fatos ou, no mínimo, mitos. Enquanto isso, o resto do Brasil também resolveu opinar. No meio de tanto falatório, as versões de quem melhor pode explicar aquela derrota – as pessoas que estavam em campo – ficaram perdidas. É isso que Dossiê 50, de Geneton Moraes Neto, traz de volta.
O livro nada mais é que uma reunião de depoimentos que o jornalista colheu com cada um dos jogadores brasileiros naquela partida (Barbosa, Augusto, Danilo, Juvenal, Bauer, Bigode, Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico), além do treinador Flávio Costa. Simples, mas suficiente para formar um documento precioso, pois permite confrontar versões, muitas delas contraditórias ou com acusações mútuas. O que une todos é a marca que aquela derrota deixou na carreira e, pior, na vida de todos.
Apesar de a obra ter sido publicada em 2000, as entrevistas foram realizadas nos anos 80, antes da onda de revisionismo histórico por qual passou o Brasil como um todo, incluindo, claro, o futebol. Assim, alguns jogadores se mostram crentes em acontecimentos que hoje são dados como mitos, como o suposto tapa de Obdulio Varela em Bigode, que alguns negam ter havido, outros juram ter visto. O interessante é que, por deixar as falas dos entrevistados soltas, o leitor pode tirar a conclusão que quiser, sem que o entrevistador interfira demais.
Porém, é justamente nessa organização de informações que o livro peca um pouco. Os depoimentos estão dispostos de forma quase “crua”, com declarações em seqüência. Algumas ficam isoladas, meio descontextualizadas, perdendo um pouco de seu significado. Talvez fosse interessante a edição de cada depoimento como um texto único, como se cada entrevistado contasse uma história.
No mais, o livro conta com uma edição muito boa. Logo no início, há uma seqüência de fotos que mostra o gol de Ghiggia. As imagens são dramáticas até hoje, mesmo com o resultado do jogo mais do que conhecido. Além disso, o jornalista coletou textos de pessoas como Zagallo, Luís Fernando Veríssimo, Mino Carta e Chico Anysio, em que cada um conta sua visão daquele jogo.
Somando as virtudes e problemas de “Dossiê 50”, dá para dizer que um torcedor interessado pela história do futebol não pode se privar de ler a obra. Até porque alguns dos protagonistas da maior tragédia de nosso futebol já morreram, como os fundamentais Flávio Costa, Barbosa e Zizinho. Mas que fique bem claro que esse livro não esgota o assunto. Apenas mostra 12 versões importantíssimas, mas não definitivas.
Mais informações
“Dossiê 50” foi lançado pela Editora Objetiva e tem 163 páginas. Se você quiser mais informações sobre a Copa de 50 há diversas obras já disponíveis nas livrarias. Uma delas, “O Rio Corre para o Maracanã” já foi assunto no Balípodo.
Ubiratan Leal
Imagem: Editora Objetiva