Curioso como a cultura de final, de concentrar toda a decisão em um par de jogos, continua no Brasil, mesmo em um campeonato de pontos corridos com 46 rodadas. É essa cultura que diz que o Cruzeiro foi campeão, sobretudo, por vencer os dois confrontos diretos contra o Santos (que determinavam os 6 pontos de diferença entre os clubes até a rodada que se tornou decisiva). Errado. O Cruzeiro foi campeão porque entendeu que todos as 44 partidas disputadas até agora eram decisivas.
Pela falta de experiência com o turno e returno direto, ninguém sabia direito como se preparar. Alguns, por incompetência, simplesmente não se prepararam. Claro que esses não serão considerados na análise. Seria gastar palavras falando o óbvio. Entre os que levaram (ou acharam que levaram) esse Brasileirão um pouco a sério, houve vários planos. Alguns, não deram o devido valor às rodadas iniciais achando que seria possível acelerar com o passar dos jogos e chegar embalado nas últimas rodadas.
Foi mais ou menos o que fizeram Corinthians e Grêmio. Ambos priorizaram a Libertadores no início, mas acabaram não se achando em momento algum do Brasileirão. No caso do Corinthians, o desmanche do elenco – que não estava previsto, já que os dirigentes do alvinegro pensaram que o sonhado título sul-americano seguraria os jogadores até o fim do ano – deixou a torcida ainda mais desamparada. No Grêmio, o ambiente interno ficou pesado por desentendimentos e erros gerenciais e, sem saber como agir, o clube se implodiu.
Houve também os que se arrumaram no meio do campeonato, mas dificilmente o conjunto formado com o torneio em andamento tem a solidez de uma equipe com meses a mais de preparação. O caso mais claro foi o do São Caetano. Mário Sérgio até tinha um projeto razoável, mas falhou por montar um time quase que incapaz de vencer, o que se mostrou decisivo em um torneio como esse. Depois, Tite refez o azulão, mas já era tarde para alcançar Santos e Cruzeiro. O mesmo vale para o São Paulo.
Já o Atlético-MG fez o contrário. Começou bem, mas alguns problemas no meio do caminho foram suficientes para trocar de técnico e tentar consertar o que não estava errado, esquecendo que não é possível manter-se bem em 46 jogos seguidos. É lógico que isso quebrou o ritmo do alvinegro mineiro.
Os outros clubes que tiveram seus momentos – Coritiba e Internacional – até tiveram seus méritos, mantendo o treinador desde, pelo menos, o início do campeonato e evitando sobressaltos internos. O que já era sabido desde antes de o Brasileirão começar é que os dois sulistas não teriam condições técnicas de concorrer ao título. Por isso, seria injusto e cruel julgá-los.
Assim, chegamos a comparação óbvia entre Santos e Cruzeiro. O princípio da campanha de ambos foi mais ou menos o mesmo: tentar ficar entre os líderes no início do campeonato, sobreviver na luta durante a interminável maratona de jogos no meio do torneio para chegar com hipóteses nas rodadas finais. As possibilidades técnicas também eram similares, já que não há grandes diferenças dos elencos. Mas, então, por que o Cruzeiro acabou sendo campeão com duas partidas de antecipação? Foram os dois confrontos diretos?
Matematicamente, sim, mas ver os jogos de forma isolada é simplista. O Santos, mesmo disputando a Libertadores até julho, não deixou o Brasileirão completamente de lado em nenhum momento. O que não significa que o clube levou todos os jogos como uma decisão. Percebeu-se em diversos momentos que os santistas se desconcentravam. Algumas vezes foi possível contornar o problema (e daí veio o título de “time da virada”). Mas um ou outro ponto acabou ficando pelo caminho.
Os confrontos contra o Cruzeiro foram dois desses momentos de queda de desempenho santista, mas os 6 pontos eram recuperáveis em 44 outras partidas. O problema é que o “branco” santista não se limitou a essas duas partidas. Resultados como a derrota para o já lanterna Grêmio (0x2), empate em casa com então último colocado Goiás (3x3) e derrota em casa contra o São Caetano (0x1) mostraram que o Santos sofria de lapsos em alguns momentos.
O Cruzeiro não. É verdade que os mineiros tiveram alguns maus resultados por culpa própria, incluindo uma derrota em casa contra o Juventude (foto). Mas, aí sim, eram fenômenos isolados. No geral, os azuis mostraram-se concentrados em quase todas as 44 partidas disputadas até agora. Perderam pontos, óbvio, mas quase sempre por dificuldades normais do jogo, não por desatenção.
Aí, o mérito deve ser dividido por jogadores, comissão técnica e diretoria, que souberam fazer um projeto em conjunto para esse torneio em pontos corridos. A comissão técnica elaborou um planejamento físico impecável. Houve alguns sobressaltos, mas os jogadores cruzeirenses estiveram sempre com fôlego. Nesse aspecto, um exemplo a ser seguido é o aproveitamento das duas semanas de recesso para os jogos da seleção nas Eliminatórias apenas para trabalhos de recondicionamento físico.
Além disso, os mineiros pareciam capazes de se antecipar a problemas. Cada jogador que saía já tinha um substituto no próprio elenco ou na lista de contratações. Assim que o artilheiro Deivid foi para o Bordeaux, os cruzeirenses apareceram com Márcio Nobre e Alex Alves, sem contar o reserva Mota. Da mesma forma que Luisão foi prontamente substituído por Cris e Martinez por Zinho ou Wendell. Nisso os mineiros ficaram muito à frente dos santistas, que até agora procuram um substituto para o artilheiro Ricardo Oliveira.
Apenas um jogador, quando ausente, deixava os cruzeirenses sem opção: o meia Alex. Indiscutivelmente o melhor jogador do torneio, ele armou, lançou, cruzou na cabeça dos colegas e marcou gols decisivos. Mostrou para os muitos que colocam em dúvida seu futebol que é um craque. E, por tudo isso, não tinha substituto, o que ficou claro nos oscilações dos azuis nos jogos em que o paranaense ficava de fora. No entanto, o Cruzeiro aprendeu aos poucos a viver sem seu principal jogador. Tanto que o título veio em um jogo no qual Alex ficou de fora.
Por fim, o mérito de Vanderlei Luxemburgo. Tecnicamente, ele sempre esteve entre os melhores do Brasil. Mas sofria com elencos menos dotados, tinha dificuldade em conduzir um grupo sem que surgissem problemas de relacionamento (como na discussão com Joãozinho em 2002, no próprio Cruzeiro) e sua vaidade muitas vezes era nociva. Isso sem contar os problemas “pessoais” revelados na CPI do futebol no Senado.
Bem, o elenco cruzeirense era forte e ainda não é possível prever como Luxemburgo se sairia se houvesse “buracos” na escalação do time. Mas é de se notar a falta de rixas dentro do elenco cruzeirense. Ele parece também ter aprendido que deixar os jogadores brilharem acaba destacando o treinador. Com isso, ele pôde potencializar sua maior qualidade, a de organizar o departamento de futebol de um clube de forma que tudo se volte a um objetivo. Foi assim no Palmeiras e no Corinthians, clubes em que teve mais sucesso.
Quanto a seus problemas “pessoais”... Bem, uma coisa não elimina a outra. Esquecer tudo aquilo só por causa do título – como muitos têm feito – é errado, mas ignorar ou desmerecer o treinador pelos problemas com que se envolveu também o é.
No final, novembro de 2003 termina com duas grandes lições aos clubes brasileiros. Uma foi dada na semana passada por Botafogo e Palmeiras. A outra veio nesse fim de semana com o Cruzeiro. E, se ao menos um punhado de clubes entender o que aconteceu nas Série A e B, teremos um Brasileirão 2004 dos melhores.
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Criou-se uma polêmica a respeito de qual seria o melhor time do Brasil. Muitos (a maioria paulistas) disseram que o Santos é melhor, mas o Cruzeiro tem um futebol mais pragmático. É meia verdade. No papel, o 11 santista é mais talentoso que o 11 cruzeirense. Mas os mineiros têm um elenco mais completo e, como dito acima, se prepararam de forma mais adequada. Nesse Brasileiro, o Cruzeiro foi melhor. Em relação ao espetáculo, o campeonato foi longo, mas ainda é possível lembrar-se das partidas do Cruzeiro no primeiro turno. Troca de passes e jogo envolvente exige tanta técnica quanto um drible. É a mania do brasileiro de achar que jogo bonito é apenas o que tem habilidade. O resto é feio, é “alemão”. No segundo turno, é verdade, o Cruzeiro adotou um esquema mais pragmático. Mas daí a dizer que os mineiros praticam um “futebol de resultado” vai uma distância enorme.
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Quem não entendeu nada a respeito do campeonato de pontos corridos foi a televisão. Mas isso é assunto para a seção Mídia dessa semana.
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Mesmo com as campanhas superlativas de Cruzeiro e Santos, um clube conseguiu passar o campeonato sem perder para essa dupla. O São Caetano empatou (2x2) com o Cruzeiro no Mineirão logo na primeira rodada e venceu (2x0) no Anacleto Campanella no returno. Contra o Santos, o azulão venceu na Baixada (1x0) e assegurou um empate no ABC (2x2). Para completar, o São Caetano ainda eliminou o Cruzeiro da Copa Sul-Americana com um empate (1x1) no Mineirão.
Ubiratan Leal
Imagens: Pelé.net e César Trópia/Cruzeiro