Poucas coisas são tão chatas quanto ler a matéria de uma partida no jornal ou na internet. Afinal, elas esclarecem muito pouco e se limitam a descrever lances que o ouvinte do rádio ou o telespectador já conhecem. Claro que há exceções, mas boa parte das reportagens se limita a frases como “aos 18 minutos, o time da casa teve a chance de abrir o marcador, mas a bola foi muito alta. Cinco minutos depois, foi a vez do visitante atacar, mas o juiz marca erradamente um impedimento”. Precisa ser sempre assim?
É claro que não. Jornalismo é uma atividade tipicamente humana e, conseqüentemente, permite diversas formas de contar a mesma história. Uma opção é distorcer o tempo, contando uma história pelo clímax e, depois, completando com os detalhes que permitam o encadeamento dos fatos. Outra opção é retratar um jogo de acordo com uma visão particular, de um torcedor, de um participante da peleja ou até de personagens fictícios.
Ainda há outras infinitas maneiras. Escrever com um caráter opinativo maior, mas embasado nas declarações colhidas em entrevistas pode ter um resultado muito interessante. Dependendo de como transcorrer a partida, enfatizar as movimentações táticas é a melhor alternativa. Ou então esquecer a bola rolando em si e analisar as conseqüências que aquele resultado trouxe para os dois clubes no campeonato. Se o jogo for ruim, mas o estádio lotou, o fato jornalístico pode ser o recorde de público. Por que tanta gente foi? Como elas reagiram à partida?
Experimentar não seria uma completa novidade na imprensa esportiva brasileira. Já houve (e ainda há em casos isolados) veículos que se notabilizaram pela criatividade na cobertura de eventos esportivos, principalmente o futebol. O caso mais notório foi o de Jornal da Tarde nos anos 70 e 80 do século passado.
Tradicionalmente, a imprensa brasileira, sobretudo a carioca, busca muitas vezes a crônica como forma de fugir do “aos 34 minutos”. É uma abordagem mais do que válida, mas que, infelizmente, tem ficado quase sempre confinada ao espaço de um colunista, como se fosse algo inviável para reportagens comuns.
Mas isso só mudará quando houver mais imaginação, qualidade e/ou tempo para trabalhar melhor o texto nas redações esportivas. Comecemos pelo último item. Por causa dos prazos apertados de fechamento, o importante não é escrever bem, mas sim, fazê-lo o mais rápido e correto possível. Nos tempos áureos da internet, há uns três anos, havia bônus aos jornalistas por cada minuto em que a notícia foi ao ar antes do concorrente. Porém, é evidente que, na pressa, o estilo mais automático de texto tem preferência, até porque a descrição pode ser (e geralmente é) escrita com a partida em andamento.
A falta de criatividade é, em parte, culpa de editores que preferem agir de forma mais segura a ousar. Fazendo uma analogia tosca, mas inevitável, é como se eles jogassem na retranca ao invés de partir para o ataque. Como muitos repórteres (e aí vai a questão da qualidade) esportivos não são dos melhores, já que nem todo mundo aceita receber os baixos salários de um jornalista esportivo, não têm argumentos ou força para convencer os editores a mudar.
O pior é que esse tipo de cobertura está tão enraizado que, se alguém pedir para uma classe de estudantes de jornalismo escrever ma matéria sobre um jogo, esmagadora maioria vai adotar essa abordagem burocrática. E, assim, são formados os novos jornalistas esportivos, os mesmos que, depois de faculdade, escreverão reportagens plena de frases como “aos 18 minutos, o time da casa teve a chance de abrir o marcador, mas a bola foi muito alta. Cinco minutos depois, foi a vez do visitante atacar, mas o juiz marca erradamente um impedimento”.
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Para ser justo, a televisão melhorou muito nesse aspecto. Muitas matérias já fogem do lugar-comum e dão ângulos diferentes para quem já viu o jogo. É verdade que uma parte considerável dessas reportagens acabam indo por caminhos não tão bons, por vezes apelativo ou forçado. Mas a iniciativa de alguns merece todo o crédito.
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Bem, gostaria de poder falar algo das revistas de futebol. Mas a única que existe é mensal e raramente conta com matérias de partidas específicas.
Ubiratan Leal