Não precisava ser nenhum guru indiano para saber que a partida Cruzeiro x Paysandu tinha grandes chances de definir o campeão brasileiro de 2003. Fazendo um paralelo com o campeonato de mata-mata, seria a final. Uma final que ficou confinada à TV paga no maior mercado do país, pois nenhuma emissora aberta se dispôs a transmitir o título cruzeirense para a cidade de São Paulo. O que dá um sinal de como a televisão não compreendeu bem que a lógica de um campeonato de pontos corridos é diferente.
O problema não se manifestou apenas nessa 44ª rodada. Por questão de mercado, a televisão (a Globo, para ser mais claro) escolhe duas partidas para transmitir, uma com um paulista como visitante e outra de um carioca na mesma condição. Assim, mineiros, gaúchos, paranaenses, baianos, goianos e paraenses não podem ver seus times pela televisão aberta, já que seus clubes só têm partidas transmitidas quando recebem paulistas ou cariocas (ou seja, o jogo não é passado para a praça).
Para piorar, o campeonato chegou em um estágio que mesmo essa “necessidade” de passar jogos de Corinthians, Vasco e Flamengo se tornou extremamente duvidosa. Afinal, esses times passeiam bucolicamente pelo campeonato, protagonizando seqüências de partidas desinteressantes e de pouca relevância. Todas transmitidas em rede nacional (ou algo perto disso). Enquanto isso, Cruzeiro, Coritiba e Internacional brigam pelo título ou por vagas na Libertadores apenas para os olhos de quem pagou a assinatura da Sportv.
Um exemplo claro é a desproporção de partidas de Flamengo e Corinthians em comparação com as do Cruzeiro. Os paulistanos tiveram apenas 3 oportunidades de assistir o campeão brasileiro em TV aberta, justamente quando os mineiros receberam Santos, Corinthians e São Paulo. Com os cariocas ocorreu algo semelhante (lembrando que a visita do Fluminense só ocorrerá nesse fim-de-semana).
Enquanto isso, jogos como Vitória x Flamengo, Guarani x Corinthians e Criciúma x Vasco, todos sem a mínima importância, foram transmitidos. Nesse aspecto, foi um grande passo dado pela Globo há umas semanas quando decidiu deixar o Flamengo (que pegava o Figueirense em Florianópolis, foto) de lado para passar um interessantíssimo Internacional x Cruzeiro em Porto Alegre. Foi um pequeno momento de compreensão das diferentes necessidades de mídia de um torneio de pontos corridos.
É claro que as emissoras de televisão têm seus argumentos. O principal é que o torcedor brasileiro só gosta de ver seu próprio time na TV. No máximo, o rival histórico para torcer contra. E, por isso, valeria mais a pena passar para o Rio de Janeiro uma partida irrelevante do Flamengo do que uma decisiva do Cruzeiro. É verdade. Mas não dá para tratar isso como algo definitivo. Afinal, não acho que uma massa de corintianos fique diante da TV para ver seu time desmantelado em campo só pensando em quantos dias faltam para terminar o ano.
Nessa questão, até que a posição da Globo é mais explicável (o que não quer dizer que seja correta). A emissora carioca vive há anos uma luta renhida com o SBT pela audiência dominical. Qualquer ponto a mais faz diferença e ninguém quer se responsabilizar por uma decisão errada nessa seara.
Mas é difícil entender as razões da Record. Afinal, qualquer canal que transmitir a mesma atração da Globo perderá se não tiver algum chamariz muito forte, o que não é o caso. Talvez fosse uma estratégia ousada e inteligente para a emissora paulista “abandonar” os paulistas e cariocas que estiverem fora da disputa (só se mantendo com São Paulo e Santos que, afinal, estavam na briga) para priorizar jogos decisivos. Seria a chance de conquistar grande audiência (ainda que não medida pelo Ibope) em Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre. E mesmo em São Paulo e Rio de Janeiro essa tática poderia trazer bons resultados. Se a Record não tiver permissão contratual para fazer isso livremente, pode, ao menos, tentar inverter a cobertura da Globo. Por exemplo, nesse domingo, transmitir o jogo do Cruzeiro para São Paulo e o do Santos para o resto do país.
Considerando tudo isso, fica claro que as emissoras de televisão, como os clubes, ainda estão aprendendo a lidar com os pontos corridos. Para o próximo ano, bem que poderiam negociar ou preparar um modelo que privilegiasse jogos de outros centros. Ou, ao menos, que uma emissora escolhesse o jogo que julgasse mais interessante e a outra ficasse livre para transmitir qualquer outro. Talvez assim fosse possível ver mais vezes um time campeão como o Cruzeiro em campo.
Ubiratan Leal
Imagens: KBS, O Dia e Rede Record