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29/12/03

Cultura & Mídia

A dança das mesas

A temporada 2003 do futebol brasileiro estava morta, esperando a confirmação do justo título do Cruzeiro e a definição dos rebaixados e de uma ou outra vaga para Libertadores. Mas, antes de se dar início à turbulenta época dos boatos e especulações sobre transferências de jogadores, foi a mídia esportiva que chamou a atenção com um troca-troca sem precedentes: a inédita dança das mesas redondas do domingo à noite.

O maior choque foi a saída de Roberto Avallone do comando do pioneiro Mesa Redonda Futebol Debate, na TV Gazeta. O programa, uma mistura de boataria, discussão de boteco e pastelão que acumulou inúmeros furos e barrigadas ao longo dos seus onze anos, parece passar por uma reformulação radical.

Não era para menos. Até 1999, o Mesa Redonda reinou soberano nas noites de domingo à noite, nem tanto pelo seu conteúdo informativo. Ele transformava em algo inusitado e divertido a chateação e depressão do nada fantástico domingo à noite ao transportar para televisão as tradicionais discussões de botequim sobre a rodada, repassando (lançando?) boatos de demissões e transferências, entrevistando jogadores, técnicos e dirigentes, tudo em meio a merchandisings esdrúxulos. A exaltação dos debatedores era engraçada e atenuava a pressão para segunda-feira. Um autêntico clássico da programação trash brasileira.

Porém, desde a inesquecível disputa sobre conhecimentos futebolísticos entre Mílton Neves e Roberto Avallone em fins de 1997 (o auge trash do esporte brasileiro), o então apresentador do programa entrou em licença e o polêmico corintiano Chico Lang não conseguiu dar conta de comandar o debate com a mesma eficácia. Estavam abertas as portas para a concorrência se aproveitar do momento. Mesmo com a volta de Avallone, o programa manteve a supremacia, mas não era o mesmo, nem os índices de audiência.


Como um cartola que percebe que o elenco não tem mais a força de outrora, a TV Gazeta resolveu reformular o grupo e buscar reforços de peso ao Mesa Redonda. Tal e qual um meia armador exausto de carregar o time nas costas, Roberto Avallone saiu. Para o seu lugar, foram chamados dois jornalistas com curriculum e respeito no meio jornalístico: Flávio Prado e Wanderley Nogueira, acenando com uma mudança mais séria na orientação do programa.

O novo Mesa Redonda, quem diria, parece ter dado certo. Até era possível imaginar que o fanfarrão Wanderley Nogueira logo se adaptasse aos novos companheiros de discussão, mas ninguém supunha que Flávio Prado conseguisse dar um refinado toque de bola na condução dos debates, mesmo em meio a tantos anúncios – menos cômicos, diga-se de passagem. Os exageros característicos do programa se reduziram, embora ainda permaneça intacta a exaltação dos debatedores, o que sempre deu graça ao programa. Chico Lang assumiu a função de figura carismática junto à torcida de um time que mistura craques e jogadores-problema. Enfim, não houve uma grande descaracterização, apenas ficou mais interessante. Uma evolução bem-vinda.

Roberto Avallone, por sua vez, não ficou muito tempo desempregado. Assumiu o comando do Bola na Rede, da Rede TV, no lugar de Juca Kfouri. Na verdade, uma mudança que até demorou para acontecer. Kfouri e seus colegas defensores da cidadania no esporte brasileiro nunca pareceram se encaixar muito bem em um canal que nunca primou por ser um ícone do jornalismo tão ético quanto a história do ex-editor da Placar exigia.

A insistência em trazer temas aborrecidos (não por isso sem importância) como política e direitos do torcedor em um domingo à noite nunca pareceu vender muito bem, e possivelmente nunca foi essa a intenção do programa. A participação de Benjamin Back parecia ter o intuito de criar uma figura polêmica e tornar a discussão menos acadêmica, mas não era muito eficaz. Culminando com a recusa do apresentador em fazer merchandisings, um mal que é tratado como inevitável na TV aberta, não se esperava uma sobrevida longa ao programa.


Anúncios em meio a debates nunca foram um mal para Roberto Avallone, que o digam as camisas Intergriff e a Lellis Trattoria. Assim, nada mais natural que o palestrino assumisse o comando do Bola na Rede. Porém, o entrosamento ainda faz muita falta ao ex-comandante do Mesa Redonda. Ninguém foi mantido na equipe (nem mesmo Benjamin Back, como até poderia se supor). O renovado programa não definiu ainda uma cara, como um time que não sabe quem é titular e carece de muito treino tático para definir um padrão de jogo. Será que o folclórico conhecedor da história do futebol conseguirá emplacar em sua nova empreitada? É esperar para ver – ou nem isso. A única certeza é que anunciantes esdrúxulos continuarão a acompanhá-lo.

Quem se estabeleceu com força no mídia televisiva é Mílton Neves. Uma pena que o seu começo promissor com o Supertécnico não vingou. O extinto programa da TV Bandeirantes se destacou pelo alto nível das discussões entre treinadores de futebol e o bom humor. O seu Terceiro Tempo na TV Record, de parecido com seu homônimo das rádios tem só a infinita quantidade de anunciantes – o que não deve ser muito bem visto quando feitos pelo próprio jornalista.


Enquanto o programa de rádio se celebrizou por trazer uma vasta cobertura do pós-jogo, misturando, mais uma vez, o bom humor com muita informação, o seu xará com imagens em movimento se caracteriza por ser um “Domingão Legal do Miltão”. A fórmula é radicalizar no entretenimento barato, misturando quadros bregas e piegas na linha “Esta é sua vida” (feitos especialmente para algum convidado chorar), discussões tão convincentes quanto as lutas-livres do Gigantes no Ringue, um amontoado sem fim de anunciantes, alguns shows de alguma coisa nada a ver com futebol como ilusionismo ou bolas-de-cristal e uma hostess em decotes sensuais, tudo isso em frente a uma platéia que de espontânea parece ter só a camisa do time que torce.

Abusando de todos esses clichês, o programa é o que obtém mais sucesso. A maior parcela dele se deve ao carisma do apresentador, mas importante parte também deve ser reconhecida ao talento para polemizar do ex-árbitro Oscar Roberto de Godoy e ao moral que Mílton Neves possui para conseguir trazer para participar das lambanças de seu programa convidados de peso como Eurico Miranda e Luis Zveiter.

A dúvida é saber se Mílton Neves não conseguiria usar todo o seu carisma e talento para fazer um programa muito mais inteligente e interessante nos domingos à noite. Mas a TV aberta não anda muito afeita a nada inovador e o alto nível parece fugir dela como o diabo da cruz. A guerra pela audiência e a necessidade de faturamento rápido, entre outros motivos, parecem engessar qualquer tentativa de melhora nessa área.


O jeito é apelar para a TV por assinatura. E a ESPN Brasil cumpre bem esse papel com seu Linha de Passe Mesa Redonda. Por ir ao ar nas noites de segunda-feira, ele não tem o clima de notícia fresca que seus irmãos dominicais possuem, mas se garante na liberdade de se prender à análise dos fatos – ainda mais porque abre mão de convidados que monopolizem as atenções ou tenham pouco a dizer pela infrutífera “ética de jogador”. O programa comandado por Mílton Leite consegue unir informação, bom humor, discussões interessantes, pontos de vista esclarecidos e esclarecedores de comentaristas que, cada um a seu estilo, formam um time muito bem entrosado, tudo isso sem cair na provocação barata ou apelativa – e, principalmente, sem aqueles terríveis anúncios travando os debates. Nada mal se a TV aberta seguisse o exemplo...

*
Voltando ao território dos domingos à noite, a MTV também resolveu dar seu pitaco e convocou a dupla ex-Sobrinhos do Ataíde Paulo Bonfá e Marco Bianchi. O Rock & Gol de domingo abusa dos clichês futebolísticos e das piadas de duplo sentido já mais do que batidas e, mesmo assim, tem seus momentos de graça. Se a missão era escrachar com os programas de debates de domingo à noite, ela foi parcialmente cumprida. Porque, de fato, por mais engraçado que o programa da emissora musical consiga ser algumas vezes, qual o ponto de fazer paródia de algo que já é uma paródia por si só?

*

Fica a dúvida de como vai ficar o Cartão Verde com a volta de Juca Kfouri. O programa já teve seu auge nos domingos à noite, quando uma discussão de alto nível era comandada por Flávio Prado, acompanhado de José Trajano e Armando Nogueira (posteriormente o próprio Juca, na foto). Ultimamente relegado às noites de quinta-feira, o Cartão parecia sem qualquer encanto, embora ainda tivesse seu valor. O jeito é torcer não só pela continuidade, mas pela por uma sobrevida digna da importância que o programa já teve.

Mais informações
Para saber os horários dos programas, vá aos sites oficiais das emissoras Cultura, Record, Rede TV!, Gazeta, MTV e ESPN Brasil.

Thiago Martins

Imagens: Mílton Neves, Gazeta Esportiva, O Fuxico, ESPN Brasil e A Notícia

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