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24/12/03

Brazil

99 anos de glórias... e um de terror


Amor pela camiseta, garra platina, raça, time copeiro, títulos no Brasil e no exterior... Ao longo de 99 anos de história, o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense acumulou diversas vitórias e títulos, se tornando um dos maiores e mais populares clubes do futebol brasileiro. Mas justamente no ano de seu centenário, o maior ato gremista foi sobreviver às tragédias de 2003.

Quem observa de fora dos pampas fica indignado com a crise enfrentada pelo clube. Dívidas todos têm, infelizmente, mas um rastro de derrotas e tragédias em pleno ano de festa chamou a atenção para o Grêmio de forma negativa. São fatos que formam uma triste milonga – se fosse de um time grego seria uma tragédia –, fria e cinzenta como um campo coberto pela geada no inverno.

Prólogo
Ainda sofrendo os efeitos da parceria furada com a suíça ISL, que faliu, o Grêmio começou a espremer o seu orçamento em 2002. Apesar disso, ainda havia boas perspectivas de caixa e alcançar as semifinais da Libertadores, parando em um jogo polêmico contra o Olímpia, deu ao Grêmio um bom bocado de dinheiro. O ano parecia não ter grandes surpresas.

O Brasil de Felipão voltava da Ásia com o quinto título mundial nas mãos e o preparador físico Paulo Paixão era uma das estrelas tricolores que anexava mais um título ao seu currículo. Mas a alegria durou pouco e seu filho faleceu dias depois. Se o clima já não estava bom pro seu lado, uma rixa interna (até hoje, a hipótese mais forte sobre a saída indica uma crise de ciúmes na comissão técnica) provocou sua saída do clube da Azenha (bairro onde o estádio Olímpico está localizado). A estrela vencedora do Grêmio nem deixou a cidade. Migrou para o Beira-Rio e tornou-se um dos símbolos do novo Inter bicampeão gaúcho (Paixão esteve no time de 2003) e que quase foi até a Libertadores.

Ato 1 – “Ruralito”
Embalado pela participação na Libertadores, o Grêmio manteve Tite no comando e encarou um Gauchão (conhecido como “ruralito” por estas bandas) que parecia ser baba com a cabeça nas Américas. O primeiro jogo do ano, o amistoso contra o Guarani de Venâncio Aires, foi tenebroso. Com um gol do adversário aos 11 minutos de jogo, o tricolor correu atrás do placar e marcou só no segundo tempo, definindo a partida em 2x1 aos 38 do 2º. Nuvens negras começavam a aparecer no horizonte tricolor.

O campeonato foi simplificado. Grêmio, Inter, Juventude e Caxias jogaram entre si em turno e returno, com os dois melhores se classificando para um quadrangular com os outros dois melhores de um grupo formado só por times menores do interior. O que deveria ser tranqüilo acabou no pior desempenho da história do Grêmio no estadual.
Depois de um empate em 3x3 em casa, o jogo contra o Juventude tinha tudo para ser o reencontro com a vitória.

Apitado por Leonardo Gaciba, juiz que ficou conhecido como “gremista” após um Gre-Nal, o jogo terminou em confusão. O tricolor teve três expulsos e Danrlei se machucou gravemente no final. Além disso, uma garrafa foi jogada da arquibancada e acertou Roger. Sem mais substituições na manga, Tite contou com a resistência do número 1 e deixou o time em campo segurando o empate. No final do jogo, uma bola de Mineiro vinda do canto esquerdo da pequena área fuzilou o goleiro que, sem condições de jogo, ainda tentou defender a bola, mas depois que ela tinha passado por cima da sua cabeça. Ju 2 x 1 e Grêmio quase fora do Gauchão.

Para completar, a invencibilidade nos Gre-Nais, que durava três anos, foi destruída por Daniel Carvalho ao virar um jogo que tinha tudo para ser tricolor. No outro confronto, mais derrota, gol de André para o colorado.

No final das contas, o tricolor fechou o campeonato sem vencer e virou chacota.

Ato 2 – Libertadores
Os esforços do Grêmio estavam concentrados na Libertadores. Tal qual outras gestões fizeram (Fábio Koff em 83 e Cacalo em 95), outras disputas seriam preteridas em nome da competição, o que ajudou a apagar parte do fiasco estadual. O grupo dos gaúchos tinha o rival platino Peñarol, o Bolívar e os mexicanos do Pumas.

O começo já foi na base do tropeço. A partida contra o Pumas foi dura e o placar de 3x2 foi definido aos 45 do 2º tempo, com uma bomba de Roger. Vitória com as calças na mão, como seria em outras vezes.

Outra partida impressionante foi contra o Peñarol em Montevidéu. Aos 32 do 2º tempo, Douglas marcou o 2º gol e toda a torcida pensou que o jogo estava liquidado. O Grêmio perdeu gols feitos e aceitou o empate uruguaio, com gols marcados aos 41 e 44 da etapa final. Se o jogo tivesse mais 5 minutos, o Grêmio teria saído de campo com derrota. O espelho começou a rachar nesta ocasião, com as críticas ao trabalho de Tite e da zaga surgindo com mais força. Apesar disso, a vitória de 4x1 contra o mesmo Peñarol classificou os gaúchos para a próxima etapa e abafou a crise.

Na etapa seguinte, o Grêmio pegou o Olímpia, então campeão do torneio e responsável pela eliminação tricolor no torneio em 2002 após uma disputa de pênaltis. O primeiro jogo foi 3x2 no Paraguai, antes de uma das piores crises do ano.

Ato 3 – “Ovino” e as ovelhas que não usam celular no buraco do amor
Depois de dizer que não havia crise no Olímpico e que tudo estava em paz, chamando o vestiário de “buraco do amor”, o presidente Flávio Obino protagonizou uma confusão com a imprensa.

Após conversar com a equipe do jornal porto-alegrense Zero Hora pelo celular, Obino participou de uma rápida reunião com o vice de futebol Luiz Eurico Vallandro e o seu diretor Luís Onofre Meira. Criticados pela não participação na pré-temporada feita na Serra, a dupla levou ao presidente as suas reclamações sobre a escalação do time. Ânderson Lima, Fabri e Luís Mario foram chamadas de “ovelhinhas” de Tite por seguirem à risca o técnico sempre e não saírem do time titular mesmo depois de quatro jogos com desempenho abaixo da média.

Só que o telefone ficou ligado e um repórter ouviu tudo, tomando o devido cuidado de gravar a conversa. No outro dia, os jornais, depois demais veículos, levaram até o público o conteúdo da queda-de-braço interna. A tensão aumentou, chegando ao ponto de Ânderson dizer que Vallandro teria de “lavar a boca” antes de dizer seu nome. Chuvas e trovoadas no céu outrora azul.

Mas nenhuma providência foi tomada, pois ainda havia o confronto de volta contra o Olímpia, e os fatos foram agravados pela situação da direção. Sobre o comando executivo do time, cabe recordar que Obino foi aclamado presidente em 2002 por consenso, pois não havia outra chapa para concorrer, e Vallandro, um respeitado médico, foi a 5ª pessoa convidada para assumir o cargo. Parecia que os membros do Conselho Deliberativo sabiam que uma bomba-relógio estava por explodir, mas ninguém imaginava que seria ao longo do ano e com tanta intensidade.

Ato 4 – The dream is over
O belo desempenho brasileiro na partida de volta pelas quartas-de-finais da Libertadores contra o Olímpia, 3x0 em casa, apagou um pouco do incêndio provocado pelas “ovelhinhas”. Apesar de derrotas para o Bahia e o Fluminense no Brasileirão, havia mais Libertadores pela frente.

O próximo adversário, o Independiente Medellín da Colômbia, não parecia oferecer resistência. Mas os jogos das quartas-de-final foram o túmulo do sonho maior do centenário. A partida no Olímpico foi típica de Libertadores, um empate suado em 2x2. A esperteza dos colombianos começava a embaçar o sonho de uma semifinal contra o Santos de Robinho e Diego, que seria o jogo do ano – a menos que a final fosse contra o temido Boca Juniors.

Mas a realidade foi cruel com o sonho tricolor. Com o estádio Atanasio Girardot cheio, o Independiente foi empurrado pela torcida e jogou melhor que o Grêmio. Com o jogo indo para os finalmentes em 1x1, Tite fez uma manobra ousada para os padrões tricolores: tentou segurar o empate, para arriscar tudo nas penalidades – tática raramente adotada pelo time gaúcho. Avançando apenas nos contra-ataques, a equipe quase definiu tudo em um lance mágico. Carlos Miguel, sempre criticado pelo seu peso, acertou o travessão de fora da área. O lance marcou a torcida e o presidente Flávio Obino – que por meses repetiu a frase “se a bola do Miguel tivesse entrado” – traumatizando a todos. Aos 45 minutos, com a torcida pronta para gelar nos tiros livres, Vásquez aproveitou uma bobeira da defesa, cansada, e definiu o jogo.

Fim de jogo e, pior, fim do sonho do Grêmio de ir a Yakohama no seu ano mais festivo. Porém, como em uma volta pelo Trem Fantasma, mais sustos ainda viriam pela frente.

Ato 5 – Brasileirão
Com aquele sentimento de quem perdeu a menina mais linda da escola e teria de se contentar com as outras normais, o Grêmio voltou da Colômbia direto para Florianópolis. Depois do 2x1 contra o Figueirense, o Desterro pôde ser chamado de Ilha da Magia Negra para os gaúchos. Desconexo, o time não estava mais unido e, para completar, Gilberto e Christian foram expulsos.

Como se estivessem sob efeito de um poderoso feitiço, as duas maiores armas gremistas quase acabaram com o ano em junho. Gilberto entrou em crise com a direção e deixou o clube, voltando jogos depois para ouvir os gritos de “mercenário” da torcida – que mais tarde engoliu seus lances na hora da salvação. Mas pior ficou a situação do camisa 9. Sem deslanchar, apenas com esporádicas boas participações, Christian ficou 60 dias suspenso. Para completar o quadro da dor, o advogado tricolor escalado para defender o atacante estava há tempos sem atuar na área desportiva e teve dificuldades para encontrar a CBF quando foi para o Rio no julgamento. Também, pudera, o gaúcho achava que o julgamento ainda era na antiga sede da rua da Alfândega.

Para completar, Tite pediu demissão na volta para Porto Alegre. Na falta de uma ação oficial do clube, o técnico teve coragem e saiu. Apesar das críticas, conserva até hoje uma bela quota de respeito junto à torcida. Foi o início da reformulação do time. Com muitos contratos assinados até a metade do ano, o Grêmio limpou o seu plantel. Basílio (considerado o grande azarado do ano pela torcida por entrar no time em jogos que a equipe terminava derrotada), Luís Mário, Rodrigo Fabri e Amaral deixaram o clube.

A solução foi peculiar. Após uma indefinição geral, o Grêmio tentou trazer Renato “Gaúcho” Portaluppi, Abel Braga e Mário Sérgio. Não só falhou nas negociações como ainda serviu de razão para que Fluminense e Ponte Preta reajustassem os salários dos seus técnicos. A surpresa tomou conta do Rio Grande quando a direção teve a coragem de ir aos microfones e falar que Darío Pereyra era o treinador dos sonhos do clube.

O treinador, que conseguiu bons feitos com o Paysandu, não emplacou no clube. Na sua partida de estréia, um Gre-Nal que ficou sem gols porque Danrlei foi imbatível (o jornal Zero Hora deu como manchete Danrlei 0 x 0 Inter na segunda), o hermano chegou ao ponto de confundir jogadores nas substituições. Nas partidas seguintes, com a desculpa de “no tiene otros, no hay como fabricar”, jovens das categorias de base foram jogados na fogueira do time titular.

Darío não durou muito tempo. Criticado por deixar o Grêmio ser humilhado em casa pelo Juventude, em uma partida que terminou em 4x1 e com ele sem reação dentro da casamata, foi ejetado após a derrota de 2x0 para o Vasco.
Com Saul Berdichevski no comando do futebol, um gremista conhecido e que atuava de forma exemplar na ouvidoria do time, o tricolor trocou de treinador mais uma vez. Por uma brincadeira do destino, a direção lembrou de Adílson Batista, mas não entrou em contato com o ex-zagueiro porque achava que ele estava com viagem marcada para o Japão e ninguém tinha o seu número de telefone. Os algarismos só chegaram aos gremistas horas depois da contratação de Nestor Simionatto.

Com boas passagens por times do interior como Santo Ângelo e Veranópolis, Simionatto era uma aposta local, muito criticada pelos jogadores por isso. Ele foi o comandante do time na histórica derrota de 4x0 para os reservas do São Paulo em pleno Olímpico. O jogo foi transmitido para todo o país e ficou marcado pelas invasões de campo, nas quais os torcedores protestaram contra a situação do clube. O Brasil viu o fiasco, enquanto o clube mal respirou na Copa Sul-Americana.

O principal feito de Simionatto foi vencer o Santos em casa por 2x0, na melhor partida da equipe em todo o campeonato. Apesar disso, o Vitória humilhou os gaúchos em Salvador, aplicando um 4x1 e fechando a era Simionatto. No total, foram apenas 8 jogos.

Ato 6 – A maior missão do Capitão América
Já na zona do rebaixamento, a direção chamou o 4º técnico. Adílson Batista voltou para o Grêmio, agora no comando. E já tinha uma missão quase impossível: tirar o time da péssima situação e, pelo menos, terminar o ano do centenário na Primeira Divisão.

Os primeiros jogos não foram fáceis, com derrotas para o Fluminense – em um jogo em que ambas equipes tiveram péssimo desempenho – e Coritiba, entre outros. Se Darío e Simionatto não passaram dos oito jogos, foi neste número que o Capitão América reverteu a situação.

Para enfrentar o Figueirense, a direção articulou a volta do bicho-extra e sustentou uma decisão polêmica do treinador. Danrlei, o goleiro colecionador de títulos e símbolo da era Libertadores, já tinha falhado em alguns jogos. Até hoje, os reais motivos da saída não foram revelados, mas a desculpa oficial foi que Eduardo Martini estava melhor nos treinos.

Em meio a tantas hipóteses, que rivalizam em número com as teorias criadas para a saída do centroavante Guilherme em 99, uma relação que tinha tudo para terminar com o goleiro no posto de dirigente acabou com Danrlei fora até do banco de reservas – e fora do Grêmio a partir do final de dezembro. Até sua ida para o Inter foi cogitada. Pior para o goleiro, pois Martini entrou e o Grêmio venceu os catarinenses por 3x1. A torcida voltava a acreditar em uma saída.

Ato 7 – “Clássico é clássico, e vice-versa”
O último Gre-Nal do ano poderia embalar a ida do Inter para a Libertadores ou a salvação gremista, devido a repercussão e influência do resultado na moral do time vencesse. Para sorte tricolor, Christian mandou uma bomba e marcou o único gol do jogo. O time passou a acreditar no seu potencial e começou uma escalada rumo à salvação.

A direção manteve as promoções que já estavam em vigor desde agosto, com um ingresso valendo por dois e ainda servindo como vale para um desconto na compra de uma pizza. A torcida gostou da ação e da sacudida no time, o que resultou em estádios com mais gente e, melhor, a volta da frase “dá pra escapar” nas conversas entre os torcedores. O medo de o Grêmio ter virado um Inter, famoso pelas derrotas da gestão Záchia, estava deixando a Azenha.

Após um movimento que envolveu empresários, foi injetado dinheiro nos cofres do clube (e, segundo as más línguas, no de outros clubes também), o Grêmio embalou e passou por Paysandu, Vasco, Criciúma (em uma partida com estádio lotado de gremistas em plena cidade catarinense) e Corinthians. Em um campeonato com 46 rodadas, o Grêmio só venceu fora de casa três vezes: contra o Inter no Beira-Rio lotado de colorados, contra o Juventude em Caxias e contra o Criciúma em Santa Catarina. Ou seja, o Grêmio só se deu bem no Sul.

O ano fora salvo e, para gáudio da torcida, o Inter não conseguiu a vaga para a Libertadores. Meses de piadas e chacotas foram revertidas, como se aquele feitiço que começou a assombrar o Grêmio em Santa Catarina perdesse o encanto justo no estado vizinho. O tradicional avião com uma faixa – brincadeira que surgiu no começo da década – foi o instrumento máximo da vingança. Se, após a queda contra o Figueirense, os céus da capital viram a faixa “100 anos 100 título”, o final do Brasileirão deu motivos para que a faixa “eles estão fora” voasse.

Ato 8 - Ei, você aí, me dá um dinheiro aí
Passado esse triste retrospecto do ano, outros fatores devem ser recapitulados para entender a crise do Grêmio. O maior deles foi a falta de dinheiro nos cofres do clube, que ainda conseguiu errar em contratações que demandavam altos salários, como Basílio, Amaral e Caio.

O patrimônio foi abalado em 2003. A primeira ameaça veio da Europa. Empresas ligadas à falida ISL cogitaram a cobrança da quantia fornecida pela empresa para o clube no final da década de 90. Foram mais de 10 milhões de dólares, que o Grêmio aplicou nas contratações de Astrada, Amato (duas estrelas argentinas que não vingaram no Rio Grande) e do técnico Antônio Lopes. O único vencedor nessa leva de contratações foi Zinho, que hoje é polêmica no Olímpico. Como capitão da equipe campeã da Copa do Brasil em 2002, seu nome e seus pés estão na Calçada da Fama tricolor. Porém, algumas contas não pagas pelo tricolor servem, hoje, de mote para uma ação judicial, o que gerou o protesto pela manutenção da homenagem a um rival judicial.

O time de jogadores que acionou o Grêmio na Justiça é grande e muitas pendências continuam em andamento. A maior delas envolve uma dívida com o Corinthians. Os paulistas alegam que os gaúchos devem parte do valor definido para a mudança do zagueiro Nenê do Parque São Jorge para o Olímpico. Enquanto a decisão não chega, o moderno centro de treinamento construído para os jovens na cidade de Eldorado do Sul, do outro lado do Lago Guaíba, está ameaçado de servir como pagamento nesta dívida.

Sem falar nas negociações com INSS e jogadores por falta de pagamento, que volta a assombrar a direção na época de renovação de contratos e saídas. Uma das raras habilidades da atual direção reside no departamento financeiro, que consegue manter o clube funcionando. Para 2004, a meta é reduzir a folha de pagamento do futebol de 900 para 450 mil reais, horizonte que deve ser alcançado e superado com as reduções de salários e dispensas.

Ato 9 – “Aqui somos como marido traído, os últimos a saber”
Voltando um pouco na cronologia do centenário, em abril, foi lançada uma coleção de camisas comemorativas. Em uma festa que teve até desfile de modelos, o Grêmio mostrou a coleção do centenário. Além da indumentária de jogo, o clube apostou em uma versão limitada em 2003 cópias (com detalhes em dourado e carta assinada pelo presidente) por R$ 500 e versão popular de R$ 40, como forma de combater a pirataria. Mas o pacote do centenário ainda tinha cinco réplicas históricas, incluindo a primeira camisa, usada em 1903.

A Kappa, fornecedora de material do Grêmio, divulgou uma escala de lançamentos. Como cada camisa histórica custava R$ 120, elas seriam lançadas a cada dois meses. Passado o ano, o desempenho do time fez a cotação dos uniformes baixarem para cerca de R$ 80. A tão badalada camisa de R$ 500 não emplacou e ainda existem exemplares para a venda.

Apesar disso, uma ida até a loja do Grêmio ainda reservava surpresas para o torcedor. Conforme conversa de um senhor de idade com uma vendedora da loja em abril, o time não tinha sequer feito um contrato com uma empresa para criar adesivos alusivos à data, já no ano das comemorações.

Para completar, durante meses não era possível comprar uma camisa de goleiro na rede Gremiomania. O motivo era bastante simples: não havia camisas disponíveis. Danrlei usou durante boa parte do ano uma camiseta marrom, nos moldes da usada na década de 30 por Eurico Lara, o maior goleiro da história tricolor. Ainda em abril, após alguns jogos de Danrlei com este modelo, um jovem conversou com o caixa da loja situada no estádio Olímpico e perguntou se a camisa “modelo Lara” seria vendida. A resposta foi mais cruel que gol do Inter: “não, não sei. Sabe como é, aqui na loja a gente é como marido traído, somos os últimos a saber”. Em tempo: apareceram camisas deste modelo por volta de agosto, entrando em promoção após a saída de Danrlei do time.

Outro produto de destaque no ano foi um CD-ROM. Apesar do alarde, o pequenino disco contém uma overdose de protetores de tela e wallpapers. Há um registro do placar e data de todos os jogos do clube, mas foi inserida apenas a ficha técnica do ano de 2002, uma temporada sem títulos. O CD-ROM feito em 1995 é superior em conteúdo a este.

No final do ano, a loja acabou por limpar o estoque e protagonizar uma das melhores promoções do ano, na qual camisas antigas foram vendidas com preços em conta. Outro momento inteligente foi a promoção do dia do centenário, com camisas de R$ 100 vendidas por R$ 40.

Ato 10 – Case de marketing: o que não fazer
Se algum dia um publicitário lançar um livro com os 100 erros do marketing esportivo em anos de centenário, 101 deles devem ter a marca tricolor. A direção divulgou a escala de festas menos de duas semanas antes da data e o jogo festivo foi Grêmio x Bahia, pelo Brasilerão. Nada contra o Bahia, campeão em 89 contra o rival Inter, mas escalar este jogo para ser o mais especial do ano foi uma triste decisão. Para completar, o Bahia só não ganhou o jogo porque Adriano salvou os gaúchos aos 38 da 2ª etapa. O goleiro Émerson, ex-gremista, jogou uma das melhores partidas da sua vida, atuando como um homem-borracha. Triste ironia de uma festividade, o convidado quase roubou a festa.

Falando em festas, a direção organizou duas: uma para apresentar o uniforme de 2003 e outra oficial do centenário. A primeira contou com um desfile de celebridades usando o manto tricolor, seguindo a tradição da outra gestão de promover uma festa para o novo uniforme. A vedete desta festa foi a modelo Joseane de Oliveira, a miss Brasil que perdeu o título por ser casada. Até na escolha da modelo o Grêmio escolheu uma personagem envolvida em confusão.

A comemoração dos 100 anos teve pompa, com direito à presença do governador do Estado, o caxiense Germano Rigotto, fazendo um discurso oficial. Mas, se o Bahia quase tinha roubado a festa em campo, o Inter deu um show de bola na festa de gala. Como se não bastasse a presença do presidente Fernando Carvalho, que presenteou o clube com uma bela placa, um anúncio pago pelo Inter parabenizou o co-irmão de uma forma brilhante, abusando das brincadeiras e da história de ambos os clubes (veja abaixo). Apenas um anúncio colorado teve mais efeito que todas as campanhas tricolores durante o ano.

Se o Inter promoveu um show com Fafá de Belém para marcar seus 95 anos, o tricolor armou uma festa em pleno domingo, véspera do centenário, no Parcão. Em 1994, houve show e por dias a música “Vermelho” (aquela do “Vermelhô, da paixão”), foi cantada pela torcida. Em 2003, o Grêmio aprontou uma pequena festa no Parcão. O parque mais chique da cidade está localizado na área que outrora foi o primeiro estádio gremista, a Baixada, e a sua bela área verde foi palco para brincadeiras e festa, com bolo e comemoração – mas nada perto do que fez o Inter. Para completar, a principal emissora de TV gaúcha nem usou imagens próprias para a reportagem da festa, que teve gravação com uma câmera VHS.

Mas o mais carismático do centenário tricolor envolve a data. O dia 15 de setembro ficou conhecido pelos gaúchos em função de fina ironia que envolvia a festa e o desempenho do time. Basta olhar no calendário para ver: 15 de setembro foi uma SEGUNDA-feira. Não precisa dizer mais nada, o centenário virou piada, de fato.

Se você chegou até o final deste texto, parabéns. O cansaço para ler todas estas palavras é uma amostra do cansaço da torcida do Grêmio, que rezou para 2003 acabar logo e com um pouco de dignidade. Foram meses de desespero, gritos contra os dirigentes e jogadores, que terminaram no estádio cheio contra o Corinthians, em um sonoro “ufa” dito pela metade tricolor do Rio Grande do Sul. É clichê como mensagem de cartão de boas festas, mas 2004 significa recomeço, a chance de planejar – Adílson fica no clube – e executar um projeto que dê um título ao clube, que não ganha nada desde a Copa do Brasil de 2002. Sem falar que a gestão Obino, considerada azarada por muitos, continua até o final do ano. Nestes meses, veremos um novo pleito, com antigos presidentes voltando ao páreo, talvez com menos estresse e dívidas por pagar.

No final das contas, o ano do centenário foi uma piada de mau gosto que levou um ano para ser contada. Sorte que a torcida conseguiu rir no final, pelo alívio e por ver os sonhos do Inter destruídos pelo "pastor" Tite e seu outro exército azul.

Como torcedor e jornalista, resta torcer para que os clubes não repitam esta série de erros, além de ver como 2003 será retratado nos futuros capítulos da história oficial do imortal tricolor. A última queda, em 1991, serviu de impulso para o renascimento que levou ao bicampeonato da América em 95. Tomara que o susto de 2003 seja o ponto de partida para novas façanhas.

*

Veja a íntegra da carta de feliz aniversário que o Internacional publicou em diversos jornais do Rio Grande em 15 de setembro, a melhor peça publicitária do centenário.

“VELHO GRÊMIO!!

Bom dia, Grêmio!

Quero ser o primeiro a te abraçar, nesta data tão especial. Afinal, sou teu mais antigo parceiro.
Nestes cem anos da tua vida, há mais de 94 sou testemunha presencial de uma profícua existência, como se diz nas solenidades.

Já te conheci taludinho, o que me custou alguns cascudos, como é comum nessas amizades de infância. Tudo bem, eu pude dar o troco e chegamos sem ressentimentos à maturidade. Nos meus primeiros anos, quando eu vivia em casa alugada, tu já eras o feliz proprietário de um fortim em bairro chique; depois fui eu que construí morada de concreto e alvenaria, cenário até de festas mundiais; a comparação te estimulou e aí te mudaste para a bela casa de hoje; pouco depois comecei a erguer o palácio onde vivo – e disso tudo lucraram os nossos milhões de amigos.

Dizem que somos opostos inconciliáveis, e de fato temos grandes diferenças. Não só de idade, mas de origem, e, por conseqüência de temperamento e jeito de ser. No geral és mais contido, eu mais extrovertido, embora, ultimamente, venhas revelando uma pontinha de incontida admiração pela minha popularidade.

Somos também muito parecidos (que não nos ouçam os mais radicais dos nossos seguidores), sobretudo na paixão pela nossa terra comum, o gosto de representá-la bem, e mais ainda na afeição sem limites por esse jogo incrível, em que uma bola de couro rola pelos mágicos tapetes verdes que habitamos e visitamos, onze pra cada lado, milhões pra cada lado.

Quando fizeste 50 anos, eu estava lá. Quase estraguei a festa, desculpa o mau jeito! (faz parte: não esqueçamos dos cascudos...). Quando eu fiz 60 anos, também te chamei para comemoração, que, por sinal, terminou em barraco, o que também faz parte. E a cada 15 de setembro eu vou na tua casa, como vais na minha a 04 de abril, e ali trocamos discursos em que, nós sabemos, o apreço é sincero. Dizem até que não podemos viver um sem o outro.

Tiveste grandes dias e amargas passagens nestes cem anos, como eu também, nos meus 94; a vida é assim, mais alto o coqueiro, maior é o tombo, diz a canção popular – mas ninguém nos acusará de termos jamais violado o nobre espírito que preside as competições esportivas. Com os bons e os maus resultados, aprendemos e também ensinamos que não há desonra nas derrotas de campo, e que a uma hora de amargura sempre se seguirá um momento de glória.

Recebe, velho Grêmio centenário, o abraço nonagenário do Internacional

FERNANDO CARVALHO
PRESIDENTE”

*

Desempenho do Grêmio em 2003 : 65 jogos, 19 vitórias, 16 empates, 30 derrotas, 81 gols pró, 97 gols contra. Fonte: Site oficial do Grêmio

André Pase

Imagens: Grêmio, En la Jugada, Treinadores, Soccer Age, El Colombiano e Fox Sports

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