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21/11/03

O mundo não é uma bola...

Repassada na Europa


Fugindo um pouco da abordagem usual do Balípodo, daremos uma repassada rápida sobre essa semana em que as seleções européias se reuniram. Foram muitos jogos importantes, tanto na repescagem das Eurocopa quanto em amistosos. A partir de agora, a segunda competição de seleções mais importante do mundo tem traços nítidos. Já não era sem tempo!

Comecemos pela repescagem. Curiosamente, pode-se dizer que quase todos os resultados foram surpreendentes e não foram ao mesmo tempo. Pegando as definições das chaves, não foi anormal a Espanha passar pela Noruega, a Rússia eliminar Gales, a Holanda ganhar da Escócia e a Croácia tirar a Eslovênia no clássico de duas ex-repúblicas iugoslavas. No entanto, os jogos de ida indicaram que todos esses confrontos poderiam ter perfeitamente um vencedor inesperado.

O caso mais claro de quase-zebra foi a Holanda. Os laranjas perderam, em Glasgow, para uma jovem Escócia e falou-se, mais uma vez, que a falta de estabilidade interna poderia alijá-los de uma competição importante. Realmente, o placar do jogo não teve muitas justificativas, até porque a Escócia se encolheu o tempo todo, dando espaços de sobra para a Holanda atacar. Ainda assim, a seleção de Dick Advocaat soube recuperar-se, humilhando os comandados de Berti Vogts em um extravagente 6x0, com um hat trick (três gols) de Van Nistelrooy.
Outra favorita que foi posta em dúvidas foi a Espanha. A vitória – de virada e nos minutos finais – contra a Noruega em Valência deixou os nórdicos a um simples 1x0 da classificação. Mas os ibéricos mostraram sua força ao vencerem por 3x0 em Oslo.

A despeito da superioridade espanhola, o jogo foi cheio de lances curiosos. O primeiro gol surgiu após falha lamentável da defesa escandinava. O segundo foi resultado de um chutão do goleiro Johnsen... direto na cabeça de Albelda. Com a eliminatória praticamente decidida, o treinador norueguês resolveu mudar de arqueiro, com a entrada de Olsen. Daí, foi a vez de um torcedor entrar em campo para protestar. Olsen atravessou o gramado em perseguição ao invasor. O goleiro deu um carrinho, derrubou o espectador e tomou-lhe o gorro, em uma cena estranha e ridícula.

A Rússia também foi buscar o resultado fora de casa. Após trombar com o forte esquema defensivo montado pelo treinador galês Mark Hughes, os russos venceram com méritos a partida disputada no belo estádio Millenium de Cardiff. O gol de Evseev saiu ainda no primeiro tempo. No restante do tempo, os galeses pressionaram e perderam oportunidades decisivas. Tecnicamente, a Rússia é melhor e pode fazer um bom papel em Portugal. Mas é uma pena ver essa boa equipe de Gales fora de uma competição mais importante.

Trajetória semelhante à da Rússia teve a Croácia. No clássico balcânico, a Eslovênia mostrou ser uma equipe complicada de enfrentar ao empatar com a embalada Croácia em Zagreb (1x1). Na partida de volta, em Liubliana, a equipe da casa entrou como favorita, o que ficou mais evidente após a expulsão do experiente zagueiro croata Tudor, aos 14 do segundo tempo. Dois minutos depois, Pršo confirmou a boa fase (marcou 4 gols no exótico 8x3 de Mônaco x La Coruña na liga dos Campeões e foi responsável pelo gol croata em Zagreb) e deu a vitória à equipe quadriculada.

Para terminar, a única real surpresa da repescagem européia. E foi uma daquelas caprichadas. Já foi estranho ver a Letônia chegar nessa fase, ficando à frente de Polônia e Hungria. Mas os bálticos não teriam condições de passar pela Turquia, seleção em evolução no cenário europeu e terceira colocada na última Copa. Ainda assim, Verpakovskis quis inverter a lógica e – com um golaço – deu a vitória aos letões na partida de ida, em Riga.

Em Istambul, a Turquia não deveria ter dificuldades em reverter o placar somado. Realmente, os turcos fizeram seu papel e, com gols de Mansiz e Hakan Sükür, estava quase classificados. Mas, faltando apenas 25 minutos para terminar o jogo, a Letônia começou a reagir. Laizans diminuiu e voltou a colocar os letões na Eurocopa (tinham um gol a mais fora de casa). A seleção da casa tentou ampliar, mas foram os bálticos que encontraram o gol, novamente com Verpakovskis. Assim, a Letônia vai, pela primeira vez, à fase final competição internacional importante. É a segunda ex-república soviética a alcançar esse feito, atrás da Rússia.

*

As duas Alemanhas atacam outra vez. Enquanto a seleção feminina da Alemanha vencia Portugal por 13x0, a seleção masculina dava mais um vexame. Derrota por 0x3 para a França em Gelsenkirchen. Esse placar mostra que o problema dos germânicos não é apenas a falta de bons jogadores ou as várias contusões de seus atletas. A Alemanha está com falta de confiança e experiência. Enquanto que a França mostra que coletivamente e individualmente se recuperou do baque sofrido na Copa de 2002.

Ainda nos amistosos, a Inglaterra perdeu de 2x3 para a Dinamarca, em Manchester. Quem não acompanha de perto as notícias do futebol britânico pode não saber, mas a principal causa para esse resultado não é nenhuma crise técnica. Simplificando bastante, uma série de fatos estapafúrdios (acusação de estupros, recusa em fazer exame anti-doping, erros na administração de crises e convocações equivocadas) colocou jogadores ingleses, torcida, federação local e o treinador nacional Sven Goran-Eriksson em uma confusão generalizada. Todos trocaram críticas via imprensa e quem está sofrendo mais é o English Team, composto por grupos brigados entre si.
Os últimos dos amistosos que merecem destaques foram os disputados pela seleção portuguesa: empate (1x1) com a Grécia no sábado e vitória (8x0) sobre o Kuwait de Paulo César Carpegiani na quarta. O primeiro resultado deixou a torcida mais impaciente com Felipão e, conseqüentemente, Gilberto Madaíl (presidente da federação). Os ânimos melhoraram um pouco depois da goleada sobre os asiáticos, mas Portugal terá poucas chances se não resolver logo seus problemas internos.

*

A Uefa mal esperou a definição dos classificados e já divulgou os critérios para o sorteio dos 4 grupos da Euro-2004. Os cabeças-de-chave são Portugal (país-sede), França, Suécia e República Tcheca (os melhores nas Eliminatórias). A segunda força de cada grupo será composta por Itália, Espanha, Inglaterra e Alemanha. No terceiro nível estão Holanda, Croácia, Rússia e Dinamarca. As equipes mais fracas são Bulgária, Suíça, Grécia e Letônia.

Esse tipo de sorteio dirigido tenta impedir a formação de grupos muito fortes e outros muito fracos. Porém, há riscos de desequilíbrio. É inegável que uma chave com França, Itália, Holanda e Grécia ou Portugal, Alemanha, Dinamarca e Suíça é mais forte que Suécia, Espanha, Croácia e Letônia.

Maurício Aires

Imagens: BBC Sports e L’Équipe

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